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Karla Suárez: Havana, Lisboa, Luanda

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JORNAL DE LETRAS Entrevista sobre o romance Um Lugar Chamado Angola, da escritora cubana, Karla Suárez.

Em Um Lugar Chamado Angola, Karla Suárez leva-nos um território real e imaginado e inevitavelmente doloroso que Portugal partilha com Cuba. E em épocas diferentes e por motivos diferentes ambos os países viram os seus homens-soldados partir para lutar em guerras numa cidade distante. O romance da escritora cubana não se passa numa Angola real dos nossos dias (de resto, nem sequer viajou ao país), mas de um território feito de traumas e memórias a que não se deseja voltar.

JL: Angola é um grande território comum, que Portugal tem com Cuba. é um território ausente. De que Angola fala neste livro?
Karla Suárez: No meu primeiro romance há uma personagem que vai para a guerra em Angola. O que era uma coisa normal, porque cresci com essa guerra. Sempre tive a intenção de aprofundar essa relação com Angola. Quando cheguei a Portugal já tinha esse projeto. Comecei a procurar livros. Mas, estando aqui pude completar a História. Porque os cubanos só chegaram depois do portugueses se terem ido embora. Conheci muitos portugueses com experiência em Angola. E também muitos angolanos: alguns com uma posição positiva em relação aos cubanos, outros com uma visão negativa. Lisboa foi o lugar ideal para escrever este romance, porque dá para ir em várias direções.

Nunca esteve em Angola?
Não, mas tenho muitos amigos que estiveram. Para nós é normal. Angola sempre foi uma realidade muito imaginada, feita através das histórias contadas pelos outros.

Angola funciona para Cuba como um Vietname para os Estados Unidos?
Há quem diga que sim… Enfim, foi a última grande guerra da Guerra Fria e a mais longa em que os cubanos participaram. Foram 15 anos. É um tema muito delicado para Cuba, muito doloroso e com situações muito diversas.

Socorreu-se de fontes históricas?
Eu não sou historiadora,. Não é um romance sobre a guerra de Angola, mas antes da forma como vivemos a guerra a quilómetros de distância. Nós crescíamos com aquilo, era como se estivesse a acontecer em Cuba. E as feridas da guerra demoram muito tempo a sarar, por isso é importante falar sobre o assunto.

Para cada capítulo escolheu o título de um livro. Foram romances que a influenciaram?
O personagem chama-se Ernesto, porque depois da morte de Che Guevara Ernesto tornou-se um nome muito comum em Cuba. Por isso, ocorreu-me chamar ao primeiro capítulo A importância de chamar-se Ernesto, como o livro de Oscar Wilde. Pareceu-me interessante continuar com os títulos dos livros que a personagem está a ler. Só que, curiosamente, o primeiro capítulo desapareceu na revisão final. E ficaram só os outros. Por isso, cada capítulo é o livro que ele está a ler nesse momento, mas eu própria reli esses romances enquanto escrevia.

Socorre-se da sua biografia para tornar mais ágil a narrativa?
Não é autobiográfico. Mas há sempre alguns pormenores. Por exemplo, nos meus romances há sempre um engenheiro. De resto, claro, é fruto também da minha vivência. Tudo aquilo foi vivido por mim. A guerra começou por ser uma palavra, mas foi ganhando mais espaço na nossa vida até ficar como algo normal.

Há apontamentos de humor, como a questão do nariz, que às tantas diz que é parecido com o do Jorge Palma
É importante rir, mesmo nos momentos mais dramáticos. No romance também. Porque não é uma história fácil. Fiz um casting de narizes até que descobri o Jorge Palma. Veio a calhar porque também gosto muito da sua música.

A música também está muito presente.
Sim, eu estudei música, fiz guitarra clássica no conservatório. É importante saber que música ouvem os personagens. As músicas transportam-nos no tempo. Sempre que acabo um romance faço um CD com a banda sonora.

E agora, já está a escrever o próximo?
Eu mal acabo um romance escrevo o primeiro capítulo do romance seguinte. Não quer dizer que comece logo a trabalhar. Só agora recomeçar a escrita. Ainda não posso dizer nada sobre o livro. Sei sempre o início, mas não sei o que se vai passar a seguir. Enquanto isso, também vou escrevendo contos. JL