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Viver segundo Patrícia Portela

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JORNAL DE LETRAS Miguel Real escreve sobre o mais recente livro de Patrícia Portela, Dias Úteis.

Miguel Real

Em Dias Úteis Patrícia Portela (PP) opera o milagre estético de transformar a enumeração dos dias da semana e do conteúdo do quotidiano numa síntese perfeita da sua interpretação da Vida. Não se trata de uma representação realista da vida, figurando o dia-a-dia rotineiro de uma personagem, mas da captação da essência imprevisível da existência, ou da Imprevisibilidade como motor da vida. Não, caro Leitor, Dias Úteis não tem historinhas sentimentais, intrigas familiares, ambição de enriquecimento, amores frustrados, vidas quebradas, ciúmes e invejas. Nada disso tem o livro e, no entanto, mostra a essência da vida, dos dias úteis da vida.
Como o prefácio sumariza, a Vida é Jogo, viver é jogar: “[o Jogo] é como viver, para quem ainda não tenha percebido do que se trata” (p. 22). Mas, ao contrário do jogo desportivo, a Vida dá-se em “resultados que primam pela arbitrariedade, pela aleatoriedade, pela impercetibilidade, pela irracionalidade (…) sem que algum regulamento ou receita venha a ser adiantada” (p. 13) e “é sempre um inesperado acaso que o decide” (p. 14).
Está dado o mote da novela ou conjunto de contos unificados por esta ideia paradoxal: é o acaso, a contingência, que comanda a vida, não o determinismo, a necessidade, não o constrangimento das instituições sociais, menos a coação do dever moral, ainda que (e aqui reside o paradoxo) o acaso seja fruto do esforço humano, e o que designamos por “sorte” (o acaso, a fortuna ou ventura do destino, segundo a terminologia clássica) nasce da contingência temporal e espacial de se estar lá, onde sucede o que desejamos (p. 15, 2º e 3º & sgs.). Caso não estivéssemos lá, não teríamos sido bafejados pela “sorte” no jogo da Vida. No 4º & desta pág. e na pág. seguinte, evidencia-se, através da figura da ironia, a desconstrução da “utilidade” dos dias, disso de que vestimos a nossa rotineira semana. Porém, na p. 17, 2º &, esta desconstrução é subvertida pela eclosão da Imprevisibilidade: “Todos os jogadores jogam numa posição que não é a sua” (p. 17).
De quando em quando, os “dias úteis” são abruptamente interrompidos, constata-se a existência de um Pasmo, um Espanto, um Assombro: existe um “Grande Alçapão”, “o Buraco do Mundo” (p. 21), paráfrase da Imprevisibilidade da Existência, da sem razão dela, do sem quê nem porquê da Vida – que, os jogadores, incapazes de sobreviver a tal Estupefação, a tal buraco metafísico, mascaram de Religião, de Filosofia, de Ciência, de Ideologias, isto é, de Certezas Indubitáveis por que alimentam os seus “dias úteis”. E quem será o “bom jogador” do jogo imprevisível do mundo? O leitor encontra a resposta nas pp. 22 e 23. Belíssima resposta de natureza ética, que aqui não adianto para não lhe furtar o prazer da descoberta e do pensamento
Após o prefácio feito pela autora (portanto, não deveria chamar-se assim; mas, como tudo nesta autora, é propositada a designação), vem a “didascália” como se PP quisesse significar que as páginas seguintes assumem uma natureza dramatúrgica, mas não essencial, não é texto de teatro, mas lateral, são meras indicações cénicas. Logo, conclusão, estamos dentro de uma representação. Aqui, “a obra” (p. 39) fala com o leitor, dirige-se-lhe, aconselhando-o a presumir-se outro, para que, assim mascarado, tenha outro entendimento (próprio de quem convive com o “Grande Alçapão”?) da existência, particular a quem se encontra à deriva “por este século como se fosse o último”, constatando que a água “não cessa de entrar” pela porta e “ninguém sabe nadar” (p. 40). De facto, como leitores, precisávamos desta advertência ou didascália, para inspirarmos o oxigénio estético suficiente destinado à travessia da semana.
E, verdadeiramente, trata-se de uma autêntico murro no estômago do leitor. Os dois primeiros parágrafos marcam o estilo: representam o dia-a-dia “habitual” de alguém que quer encontrar “uma resposta clara para o complexo princípio do Universo” (p. 43), subvertendo ironicamente a rotina do nosso quotidiano. Por isso, a narradora vai à drogaria comprar uma “caixa cheia de verbetes filosóficos” (p. 44). A ironia dá lugar ao ceticismo dos trabalhos e dos dias: “- Pai, quando é que tudo melhora? / - Quando te habituares a isto, filho.” (p. 48); melhora pela habituação diária, não porque de facto o mundo tivesse melhorado. Conclusão: tudo está bem porque tudo está mal. O narrador finda o dia a prometer-se não se habituar, mas sabe que não cumprirá a promessa (p. 48).
O capítulo correspondente a “terça-feira” dá-nos conta da Imprevisibilidade: ia à Escócia, mas depois não posso ir por causa do Ivo, depois ia a Creta com o Guilherme, mas o Tó levantou entraves e o Guilherme também, era para ir à Islândia, comprei o bilhete de avião, mas tinha acabado de conhecer o José, bom seria fazer umas férias sozinha, ou ir à China, subir de barco a costa até Xangai, mas…, mas…, mas…: entre a intenção e a ação ergue-se o momento da contingência, do imprevisível, que subverte a intenção, ou a não realiza. Ironia permanente: a narradora não vai à China, mas vai ao Martim Moniz comprar comida chinesa.
Quarta-feira – o capítulo trágico, o “Grande Alçapão” tomou conta da narradora: sai de casa, a mente fragmenta-se, o corpo fragmenta-se, “Ficaram só as palavras. As por dizer” (p. 68). A narradora não consegue cobrir o buraco que a cerca e suga. Defende-se passando para novo dia, quinta-feira. Avança por entre cidades, guardando e trocando pedaços de natureza (terra, pedras, conchas…) até chegar à cidade que assenta em “estruturas de ferro e betão” (p. 75), a natureza transmutara-se em alcatrão, a narradora prossegue a peregrinação totalmente imprevisível, num labirinto de territórios, países, fronteiras, até se restar imóvel vendo o mundo a trocar-se disto para aquilo (p. 85), a mudar-se até desaparecerem as identidades (“Um dia o mundo estará tão trocado que nos sentiremos em casa em qualquer parte”, p. 86, traço do permanente cosmopolitismo de PP). A narradora regressa à casa que abandonara, já não é sua, agora é uma repartição, o mundo, quanto mais complexo, mais se oficializa, se burocratiza.
Sexta-feira, a narradora dá conta que vive “com as medidas erradas” (p. 91), não se queixa nem protesta, só lhe “apetece (…) estar aqui”, “não quero nada”, “não tenho encontros marcados, não tenho ninguém à espera, nada para fazer de urgente…” (p. 92). Retrato do homem atual: “Sou uma coisa sem sentido que sai com frequência em sentido contrário e nunca chegando a lado nenhum” (p. 92).
Fim da semana dos “dias úteis” – “Lá fora faz frio. Cá dentro também” (p. 92), lindíssima frase melancólica, que espelha o restante texto (sábado): “A nossa história chegara ao fim e o sono era a fronteira”; “O mundo continuou sem nós. / Deixámos de ser relevantes, permanecendo vagamente humanos num mundo desumano (…), desligados da matriz” (p. 105).
Sem o abjecionismo de Rui Nunes ou a exploração da decadência do corpo de Hélia Correia, Patrícia Portela, num texto melancólico, evidencia, de um modo irónico, o esgotamento da nossa civilização, a “matriz” que nos guiou durante 2 500 anos. Novela menos para sentir, mais para pensar. JL