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Jorge Carlos Fonseca: O (não?) romance do Presidente

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Intitula-se O Albergue Espanhol e vai ser lançado no Festival da Ilha do Sal, no próximo fim de semana. O autor é poeta e tem uma larga obra sobretudo na área jurídica, estreando-se agora na ficção com o que é apresentado como um "romance", que no entanto ele, como diz ao JL, considera "um poema...que não quis ser romance". Ele, o autor, que é nada mais nada menos que, desde 2011, o Presidente da República de Cabo Verde.

Foi eleito em 2011 Chefe de Estado do seu país, país irmão de Portugal, Cabo Verde. E reeleito em 2016, logo à primeira volta, com a impressionante percentagem 74% dos votos. Natural do Mindelo, 66 anos, licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, de que foi assistente nas áreas do Penal e do Processo Civil, Jorge Carlos Fonseca tem um largo percurso e uma assinalável obra como jurista, sobretudo nesses domínios e no do Direito Constitucional. Foi do PAIGC, o partido que liderou a luta pela independência, ainda antes dela - mas do mesmo saiu, sendo um dos fundadores do MpD (Movimento para a Democracia) e primeiro-ministro dos Negócios Estrangeiros da chamada 2.ª República. Poeta com livros publicados, ensaísta e cronista, em fevereiro de 2016, por exemplo, participou e falou, como tal, no Encontro de Escritores de Língua Portuguesa organizado pela UCCLA e pela Câmara da Praia, nesta cidade, capital cabo-verdiana.
Agora, irá ser lançado o seu romance de estreia, O Albergue Espanhol, no 1º Festival da Ilha do Sal, que decorre a partir de amanhã, 6, e até domingo, 9, com a participação de cerca de meia centena de escritores e tendo como curador José Luís Peixoto, que dele nos falou na última edição do JL. O livro de orge Carlos Fonseca, com a chancela da Rosa de Porcelana, segundo Filinto Elísio, responsável por esta editora, reflete uma grande liberdade linguística e o cruzamento de estilos, "marca uma escrita surrealista, inédita nos países africanos de expressão portuguesa". Entrevistamos o escritor Presidente e 'antecipamos' o início da obra.

Jornal de Letras: Neste romance de estreia parece não ter despido a pele do poeta. Como é que em O Albergue Espanhol poesia e prosa caminham juntas?
Jorge Carlos Fonseca: De uma perspetiva formal, tem razão. Poesia e prosa estariam juntas, arbitrariamente juntas, diria. Em todo o caso, trata-se de um… "albergue", albergue literário. Os poemas terão sido "tomados", os nossos e os de outrem. Mas creio estar com Arménio Vieira, quando diz tratar-se aqui de um poema longo ou um poema que não quis ser romance. Há também quem possa ver nele um romance irónico… Em O Albergue Espanhol, não vislumbramos estórias, apenas um ou outro início ou pedaço de estória (a senhora e a criança em São Francisco, a entrada em cena de Maria, por exemplo), meros pretextos para que surja, afinal, um poema que… não quis ser romance por nada deste mundo.

No livro parece existir também uma recorrente reflexão sobre a própria escrita. Como poeta interessa-lhe particularmente o trabalho sobre as palavras e sobre a própria linguagem, mesmo quando escreve um romance?
Mesmo quando escrevi este "romance"... Porque, como antes disse, a ser romance é nele fundamental o trabalho sobre as palavras, sobre a escrita, sobre a 'poesia da gramática' para poder chegar a uma 'gramática da poesia', no sentido de Roman Jakobson. Para mim, desde que comecei a escrever, esta é uma noção forte e permanente: a literatura para ser autêntica tem de ser livre, despida de qualquer programação social, política, ideológica, ética. Não pode haver lugar à pergunta: qual é a mensagem? Para mim, ser poeta importa retirar do ato de escrever toda a finalidade prática direta, seja ela política, social, ética ou outra.

Qual foi a sua principal preocupação e/ou dificuldade ao passar da poesia para a prosa?
Partindo dos pressupostos que menciono, a única preocupação terá sido a de uma maior vigilância da escrita, a de um mais alargado rigor no controlo silábico, fonético, musical e, sobremaneira, do resultado estético. São mais de 300 mil caracteres, o que implica um trabalho imaginativo mais cuidado e vasto.

Sente-se mais como um político-escritor ou como um escritor que é político?
Vivi quase sempre num tal dilema: fazer política ou fazer poesia, fazer literatura. Acabei por fazer mais política, seguramente, mas o poeta esteve presente, amiúde na discrição ou na penumbra. Por isso, uso o político muitas vezes como matéria de base poética; por isso, quantas vezes, no exercício da função política, entro em derivas literárias…Uma pessoa amiga e amante das coisas da escrita e da literatura uma vez disse que a minha escrita do direito e dos jornais "…é sempre um discurso de rigor amável, luminoso e otimista". Na maior parte das vezes, creio conseguir separar as duas coisas; ser um político e estadista racional, bem que muito de afetos no contacto com as pessoas; ser um poeta que, há para aí 48 anos, tomou para si esta divisa "Querida imaginação, o que eu amo em ti acima de tudo é que não perdoas".

Como é que a poesia pode ajudar a política e, mais concretamente, o difícil e meritório cargo de Presidente da República de Cabo Verde?
O estatuto de escritor/criador permite uma ampla liberdade de que um PR não desfruta. É um convívio por vezes nada fácil. No meu caso, sempre ou quase sempre lidei com as duas paixões (tenho mais duas: o crime – isto é, o fenómeno criminal, o seu estudo, fui durante muitos anos professor e investigador de direito penal em Portugal, em Macau, em Freiburg im Br. e em Cabo Verde – e o futebol). Faço por que os leitores entendam que o Presidente não escreve poesia, mas apenas discursos políticos, manifestos políticos, intervenções sociais e afins. Bem que o faça pontuando, quase sempre, tais intervenções com referências culturais e/ou literárias. Ser poeta, escritor, ajuda, pois, de alguma forma, no ofício político do Chefe de Estado. Torna-o mais imaginativo, mais criativo, seja no plano das ideias, seja no discursivo. Areja-lhe, numa medida adequada, a racionalidade.
É frequente usar excertos poéticos em discursos e outras intervenções políticas, mesmo em ocasiões muito solenes como a comemoração da independência nacional ou da democracia. Mas nem sempre o leitor, o cidadão, mesmo o crítico aceita ou percebe a diferença dos dois estatutos. Por vezes, há a tentação de os misturar intencionalmente, fazendo… política. Daí que, mesmo inconscientemente, possa haver alguma preocupação de contenção, autocensura, evitando-se, sobremaneira, o que possa aparentar ser excesso político, moral… Mas é evidente que nenhum Presidente escreve O Albergue Espanhol ou Porcos em Delírio. Pode fazê-lo o cidadão-escritor que exerce a função presidencial, transitoriamente.JL