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"Lisboa é very very typical" reúne ilutrações de autores estrangeiros sobre a sua experiência em Lisboa.

João Ramalho Santos

Os espelhos tendem a funcionar melhor quando não nos revemos diretamente neles. É nesse sentido que se deve entender “Lisboa é very very typical” (Chili com Carne), notável coletânea de histórias curtas em banda desenhada, na qual experiências de vida em Lisboa são descritas por autores estrangeiros. O também muito interessante “Zona de desconforto”, da mesma editora, tinha a visão simétrica: autores portugueses emigrantes a relatar situações passadas noutros países. No entanto, talvez por ser mais interessante ver através de outros olhos a desconstrução de uma realidade que conhecemos, ou julgamos conhecer, muito bem (o que não será o caso dos países descritos na obra anterior), “Lisboa é very very typical” tem outro alcance, não relacionado com os recursos e opções artísticos (muito variáveis) dos diferentes autores. Apesar de as circunstâncias pessoais e profissionais se tenderem a concentrar em referências (como o programa Erasmus ou a via sacra da criação artística), registos, locais emblemáticos e abordagens de certo modo comuns/previsíveis, há também o voltar a embrulhar do “óbvio”, apresentando-o de forma surpreendente. Algo que não está necessariamente relacionado com uma outra variável importante: o grau de assimilação dos autores, que oscila desde turistas episódicos a lisboetas adotados.
Para além da melancolia empenhada evidente no trabalho do espanhol Elías Taño, a questão da língua, ou, num sentido mais lato, as dificuldade de entendimento apesar de uma suposta proximidade, geram episódios interessantes para o argentino Alejandro Levacov, o brasileiro Téo Pitella, ou a luso-descendente Aude Barrio. Há, sublimada, a diferença oscilante entre os excelentes e generosos “portugueses”, da solidariedade, beijinhos e abraços; e os abomináveis e aldrabões “tugas”, dos calotes, fundamentalismos, ignorâncias e atrasos, como na história de BNK TNK (Japão); ou no quase-racismo subtil e insidioso, real ou presumido, de que falam a croata Anica Nina Govedarica (naquela que é uma das melhores histórias do livro), a espanhola Begoña Claveria (outra notável contribuição) e o brasileiro Pitella. É nestas narrativas em particular que o tom de radiografia amável, mas incisiva e incómoda, mais sobressai. Já não tão relacionadas com a realidade lisboeta (ou portuguesa), várias histórias glosam as dificuldades em conseguir um percurso artístico consequente e, em simultâneo, economicamente viável, como sucede com Govedarica, com o romeno Nicolae Negura, ou com a colombiana Dileydi Florez. Desta última autora vale a pena descobrir, num estio completamente distinto, inspirado em gravuras persas e japonesas, a BD “Askar, o general” (Chili Com Carne, 2015).
Do ponto de vista gráfico, e para além de Taño, Negura, Levacov, Govedarica e Claveria, realce para duas excelentes narrativas em ilustração, que utilizam detalhes subtis no desenho, e fundem o registo pessoal com elementos da cidade para complementar o texto, do francês Alain Corbel e da brasileira Tais Kochino. Se Pitella usa a fotografia como complemento das suas diatribes, as bandas desenhadas dos outros autores têm as mais diversas referências, desde o estilo Mangá “naïf” de BNK TNK, ao simbolismo quase abstrato da espanhola Maetina Manyà, passando pelo expressionismo de Taño.
Apesar dos riscos inerentes a uma recolha, de todas as (boas) propostas coletivas da editora Chili Com Carne esta é talvez a mais conseguida de todas, e um excelente livro que vale a pena levar aos olhos enquanto espelho.