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Dimas Simas Lopes - Quadros da vida do mar

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Dimas Simas Lopes

Daniela Marques

Na sequência de Sonata para um viajante, de 2012, Dimas Simas Lopes, 69 anos, lança agora Porto do Mistério do Norte, um livro que afirma ser "conciso e sem rodeios", que assenta na fala da gente do mar, que não tem voz e que por isso o escritor decidiu oferecer-lhes uma. Médico, pintor, escultor e escritor açoriano, revela-nos que sente uma grande vontade de escrever e de dizer aquilo que tem para dizer aos outros.

Jornal de Letras: De todas as suas profissões qual lhe dá mais prazer?
Dimas Simas Lopes: De todas, porque são irmãs. Vem de uma fonte próxima, a mãe delas é a musica, que é também a mãe de todas as artes, mas elas são irmãs entre si e um artista tem isso cá dentro. Um escritor não pode ser ignorante do cinema, da pintura, da escultura, tem de ter contacto com todas essas áreas, para escrever alguma coisa, senão não tem visão do mundo. E todas as artes são muito diferentes, porque não há nada igual neste mundo.

Qual a razão de escrever este livro?
Escrevi-o para contar as aventuras dos homens da pesca, a sua vida e problemas. Pretendi, ainda, falar com antigos baleeiros, pois os grandes aventureiros deste país e nomeadamente daqui dos Açores eram baleeiros. Essas pessoas vêm contar o seu modo de vida e também levantar problemas e, ainda, dizer o que não está certo e as injustiças que há no mundo e por aí fora.

Essas histórias, ouviu-as contar?
Sim. A ficção de um livro tem sempre uma base real. É claro que aquilo que eles me contaram não é exatamente o que vem no livro, eu depois é que cozinhei, elaborei e temperei com as minhas palavras.

E as personagens: são fictícias?
Grande parte das personagens sim. Mas àqueles a quem eu dedico o livro, os Mestres António Cordeiro, João Sabino e João Escunena, são pessoas reais, a quem dei outros nomes e acrescentei a minha ficção e a minha arte de escrever porque eu aprendi com eles coisas do mar.

Como por exemplo?
O que é a maré velha e a maré nova, como é que se olha para as estrelas, como é que o barco antigamente se dirigia para o porto sem GPS e por baixo de nevoeiro. Isso são saberes da meteorologia muito próprios deles, mas são saberes profundos, da geografia, de cosmogonia, de astronomia, que vão passando de geração para geração.

Qual a sua relação com o mar?
Tenho uma casa a 400 metros do mar e vou todos os dias ao mar sempre que lá estou. Sinto uma grande ternura pelos homens do mar, comovo-me quando falo na baleação e nas aventuras dessa gente, porque desde miúdo comecei a sentir as suas coragens. Trabalhar no mar não tem nada a ver com o trabalho de terra, a história é completamente outra.

Sobre a sua personagem, o Tónio... Porquê a escolha desta figura?
Porque o conheci, na realidade, é aqui da minha terra. É um dos únicos pescadores que ainda sobrevive e vai ao mar, é um homem de sabedorias antigas sobre o mar. Ele fala nas artimanhas, nas habilidades e na arte da pesca, na profissão, mas vai até a critica social e à crise dos dias de hoje e levanta questões. Garante que o rei vai nu e eu dou-lhe voz para dizer isso.

Que mensagem pretende deixar com esta obra?
Uma obra tem de lançar sempre questões. A minha interpela o que está a acontecer no mundo, a economia, onde assenta a sustentabilidade dos povos, a distribuição da riqueza. Em quase todos os capítulos ele levanta problemas e diz que há tempos em que há futuros sem esperança, e é esse que a gente vive neste momento. Um futuro sem esperança...