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Rui Zink - O medo desmascarado

Letras

Rui Zink ''Notável capacidade do autor de reduzir a complexíssima construção de um romance ao osso''

Miguel Real

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Introdução Romance escrito ao modo de farsa, Osso constitui (segundo confissão do autor, Rui Zink, a Luís Ricardo Duarte no JL de 30 de setembro passado) o último título de uma tetralogia dedicada à crise política e social instalada em Portugal desde 2008, depois de Destino Turístico, A Instalação do Medo e A Metametamorfose e Outras Fermosas Morfoses.


Na recensão dos dois primeiros, acentuámos os aspetos satíricos do seu conteúdo e a intenção primordial de denúncia social, bem como a relevância do tema da generalização do medo como sentimento castrador e punitivo. Gostaríamos, agora, de relevar duas vertentes literárias originais, não da totalidade da tetralogia, mas presentes especificamente em Osso, que, de certo modo o singularizam no horizonte da literatura portuguesa contemporânea.

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O medo como material de comédia Rui Zink tematiza o medo fazendo-nos sorrir. Desde Gil Vicente, faz parte dos atributos da farsa vestir-se de comédia. Nos seus romances, Lobo Antunes trabalha o medo recorrendo à compaixão trágica, despertando o nosso sentimento de piedade, sentimos pena de algumas das suas personagens. Agustina, realista no quadro geral, limita-se a descrever psicologicamente o medo. Saramago conta a história social do medo, evidenciando como ele é indissociável do conflito humano. Al Berto traz à luz, nos seus poemas, um medo original, a presença aterradora do excesso de ser que consome a existência humana, o que Golgona Anghel designa por “medo metafísico”, o mesmo medo que atravessa a obra de Vergílio Ferreira, sintetizado na morte. Ferreira de Castro exprime com realismo o sentimento de medo, mesmo pânico, de Alberto perante a fúria decapitadora dos índios amazónicos. Outros escritores abordam este sentimento, cada um a seu modo, mas nenhum transformou um sentimento de temor, de pavor, até de horror, em quadros ficcionais desencadeadores do riso.


Assim, o tratamento do medo por Zink constitui não só uma originalidade literária como sobretudo, porque presente em quatro títulos (pelo menos em três, já que não lemos Metametamorfoses…), alimenta um conjunto ficcional que prima pelas técnicas da comédia (trocadilhos, equívocos, enganos, sentidos ambíguos, ritmo intenso…). É o medo desmascarado!

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Romance em forma exclusiva de diálogo Composto só por diálogo, dividido em oito quadros (capítulos?) com um prólogo e um epílogo, Osso tem quatro epígrafes, duas serenas, assinaladas a negro, e duas irónicas. Pelas quatro entramos na dança do medo satírico, não na do medo aterrorizante, como o descreve J. G. Ballard em Arranha-Céus, recentemente publicado em Portugal pela Elsinore, antítese perfeita de Osso.


A construção de um romance assim é excessivamente difícil, já que as funções de narração e de descrição desaparecem, substituídas pelo diálogo. Desta forma, não existem as muletas romanescas da deambulação narrativa sobre a paisagem, da descrição dos edifícios, das circunvoluções em torno da personalidade das personagens, não existem comentários sociais, culturais ou psicológicos do narrador – toda esta utensilagem estética fica reduzida ao “osso” do diálogo. As situações (espaço e tempo), a ação (os diversos momentos da intriga), bem como as reflexões do narrador e das personagens têm de ser evidenciadas através discurso direto – aqui reside a suprema dificuldade do diálogo. Tudo tem de passar pelo diálogo: a paisagem, a descrição, o comentário, a reflexão. Escrever um romance em forma exclusiva de diálogo torna-se uma autêntica aventura. E de imediato sugere uma peça de teatro, como afirma LRD no JL referido. E Rui Zink – cujo estatuto literário o dispensa de ter de provar seja o que for – venceu aquelas fortíssimas dificuldades narrativas, legando-nos um romance originalíssimo, restringido à utilização do diálogo.


Na p. 90, é descrita a razão do título do livro, que não revelamos para que o leitor tenha o prazer de a descobrir. Preferimos no entanto pensar, a um nível de interpretação metaficcional, que o título se deve à notável capacidade do autor de ter reduzido a complexíssima construção de um romance ao “osso”, isto é, àquela única técnica narrativa.