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José Luís Peixoto - 'Dentro do tabu'

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Jose Luís Peixoto

Em Teu Ventre é o novo livro de José Luís Peixoto. Nesta edição do JL pode ler uma crítica de Miguel Real e uma entrevista de Luís Ricardo Duarte. Publicamos aqui o início da entrevista.

Luís Ricardo Duarte

Se é certo que tem identificado na sua escrita um caminho em direção ao concreto - nos temas e na linguagem - José Luís Peixoto fixou-se agora numa data: 13 de maio de 1917. As aparições de Fátima são o ponto de partida da sua nova novela. Mais do que o milagre, interessou-lhe a realidade da época. De maio a outubro, descreve, com fidelidade, um dos acontecimentos mais marcantes da história recente de Portugal. Trata-se, no entanto, de uma obra de ficção ("não poderia ser outra coisa", garante), o que permitiu a introdução de elementos mágicos.
Em Teu Ventre é o 15º livro de José Luís Peixoto, que se tem dividido entre o romance, a poesia, a crónica e o relato de viagens. Com este livro, quis abrir novas possibilidades de interpretação e romper com discursos simplificados. Entrar dentro do tabu.

JL: Um livro de fé ou curiosidade?
José Luís Peixoto: Das duas. Ambas desempenham um papel muito importante na escrita de um livro e, até, na vida. A haver uma posição neste livro é a de que devemos aceitar o transcendente como uma dimensão do real.

Acredita em milagres?
Não se trata de acreditar. O que digo é que devemos aceitar que há uma grande quantidade de coisas que são maiores do que nós e para as quais não conseguimos encontrar uma explicação. A vida é em si própria um mistério. Se olhássemos com olhos analíticos para pequenos acontecimentos do quotidiano chegaríamos à conclusão que são impressionantes, muitas vezes incríveis. Por facilidade poderíamos colocá-los na categoria de milagres. É um elemento que não devemos subtrair à vida, sob pena de estarmos a diminuí-la.

E estamos?
Temos caminhado nesse sentido, fruto da urbanização da sociedade e de um ateísmo que não se questiona a si próprio. Isso nunca é interessante. Aliás, o auto-questionamento é uma das grandes qualidades da cultura europeia e de forma alguma é um inimigo da fé, pelo contrário. Revela busca, vontade de saber, inconformismo face à realidade.

Ao abordar as aparições de Fátima, a questão da fé e da veracidade tornou-se, por isso, secundária?
Nunca fez sentido trazê-la para o texto, já que depende de demasiadas considerações individuais. A questão ficou resolvida quando decidi não descrever as aparições, convidando o leitor a preencher esse hiato com as suas convicções.

O que aconteceria caso descrevesse as aparições?
Exporia a minha perspetiva, o que não era a intenção. O desafio sempre foi falar sobre as aparições, ao qual reconheço imensa importância e que remete diretamente para os meus interesses, sem o colocar no âmbito da fé. Quando partilhei com amigos a escolha deste tema, todos me perguntaram se a abordagem seria a de um crente ou de um não crente. Tenho evitado dar uma resposta pública a essa pergunta porque não é relevante. Quero que o livro exista para lá das minhas convicções. Não gostaria que as minhas crenças moldassem a leitura de ninguém.