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Joel Neto: O jogo de pais e filhos

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Joel Neto

Joel Neto

Como todos os seus livros, este também tem homens devastados e intimidades. O próximo, que já está a escrever, não escapará à regra, embora talvez venha a ter um toque mais "tropicalista". Mas em Os Sítios Sem Resposta, uma edição da Porto Editora, Joel Neto vai à bola com a Literatura, em busca de novos territórios para as letras nacionais. 

O protagonista é um fervoroso adepto do Sporting. Ou melhor, era, porque num certo dia de novembro decide mudar de clube. Assim mesmo, depois de muito pensar, à mesa de café. E não para qualquer um: logo o rival e glorioso Benfica. Há, por isso, muito futebol neste romance, mas o jornalista, 38 anos, remata para outros campos. Cruza gerações, tentando compreender o que une um pai e um filho, e centra a história na entrada da idade adulta. O resto, é toque de escrita, à qual não é alheio o seu talento como cronista. Neste jogo, quem ganha é a Literatura.

Jornal de Letras: Futebol e Literatura andam poucas vezes de mãos dadas...

Joel Neto: Pois andam. Não há em Portugal uma Literatura sobre a poética do futebol. Entre outros fatores, isso pode estar relacionado com uma certa falta de maturidade do nosso meio literário. Ainda não olhamos sem complexos para a possibilidade de uma literatura popular de qualidade, que chegue transversalmente aos leitores e não apenas aos eruditos. Essa diversidade faz falta.

Há preconceitos em relação ao que deve ser um tema literário?

Há, pelo menos, uma grande clivagem entre a alta literatura e a 'folha de couve'. O que terá a ver com a exiguidade do nosso mercado. Por muito que os escritores sejam livres, a literatura que existe acaba por refletir o mercado e os leitores que pensamos que temos.



Qual é a poética do futebol?

É um jogo com uma grande força telúrica, relacionada com a sua coreografia e as fúrias e ressentimentos que provoca. Depois, há a poética do adepto, que este livro trata do ponto de vista da relação pai/filho. Para eles, este desporto é a única coisa sobre a qual conseguem falar (como o basebol para os norte-americanos). São as suas formas de dizer que se amam sem terem de dizer essas palavras.



O que lhe interessa na relação pai/filho?

Para mim, a idade adulta começa quando um homem admira o seu pai, qualquer que seja a razão. Quis escrever sobre essa entrada na idade adulta, que é uma questão que me toca. E sabendo que há muitos livros - e outras obras de arte - dedicadas aos pais, algumas como tributos póstumos, agrada-me a ideia de dedicar ao meu pai, que tem 64 anos, um livro que de alguma forma é o espelho, embora não exato, da nossa relação, de todas as relações entre pais e filhos.



Sente-se neste livro o olhar do cronista. Ele confunde-se com o do ficcionista?

O vício da observação é permanente. Não conseguiria, nem quero, fugir dele, tal como não sou, nem quero ser, um literato. Aliás, às vezes tenho medo que um excesso de noção sobre a História da Literatura me tire a capacidade de me deslumbrar com os livros.



Com este romance, regressa à ficção passados dez anos. Foi uma pausa intencional?

Foi espontânea, não a decidi. O que me aconteceu? A vida, o jornalismo, tudo. Mas sinto que há uma verdade nesta pausa. Os meus primeiros livros eram muito ingénuos. Era fundamental passar para outra fase, o que se calhar levou a esta barreira temporal. Precisava de ler mais, escrever mais. Nesse sentido a crónica foi um ótimo exercício de escrita. Agora, sinto que os intervalos vão ser menores. Aliás, já estou a escrever um novo romance.

Os Açores parecem ser a ponte entre este e os livros anteriores.

Têm estado sempre presente, de facto, tal como a oposição campo/cidade, que é a que eu próprio vivo. Quem já leu o livro diz-me até que o protagonista não é o mesmo quando está em Lisboa e nos Açores. Como se se deixasse contaminar pelo que o rodeia. Ou acreditasse que tudo o que resta de bom e decente está no campo (o que nem sempre é verdade, pois também aí há crueldade). Certo é que, para mim, na diferença entre campo e cidade se concentra muito do que o homem é.



Por fim, é mesmo possível mudar de clube?

Quando é essencial para uma pessoa, não. Aí um clube é memória e amor, o que nos liga aos outros, um espaço de comunhão emocional. E para um pai e um filho não há tragédia maior do que não terem, os dois, um clube, quer seja de futebol ou de outra coisa qualquer. Ou de pertencerem a clubes diferentes. Significa que perderam essa partilha.



Joel Neto

OS SÍTIOS SEM RESPOSTA

Porto Editora, 192 pp, 15,50 euros