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Somos todos Cyborgs

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Asteroid Fighters, de Rui Lacas

Asteroid Fighters, de Rui Lacas

O que isso irá mudar as nossas vidas, ainda não é possível prever. Mas de alguma maneira, como diz Luís Rocha, "somos já cyborgs". Porque somos cognitivamente um animal que absorve tudo à sua volta: a linguagem, o tempo, as novas tecnologias.

Toda uma panóplia de termos que parecem ter saído das páginas da FC, começa a soar cada vez mais natural aos nossos ouvidos. Uma verdadeira família de derivados "nano chip" ou "cyber" falam-nos de uma revolução em curso, que já nem é digital, mas "material", como defendia Peter Weable, director do ZKM - Centro para a Arte e a Tecnologia dos Media de Karlsruhe, Alemanha -, numa conferência em Lisboa, que será em breve editado. "As invenções na nanotecnologia, química molecular e biologia molecular, irão mudar radicalmente a forma como olhamos para a matéria. Nas próximas décadas, irão emergir novos materiais e serão descobertas e inventadas novas características que irão alterar completamente a nossa civilização", afirma. "Somos capazes da pura simulação da vida, da pura imitação da vida, da mente e da matéria, que tem sido a direcção da revolução digital até hoje, e agora iremos entrar numa nova fase a que chamarei de estimulação". Juntando o natural e o artificial, prossegue o investigador, podem multiplicar-se os andróides ou desenvolver próteses para o humano, que potenciem o físico através do "virtual".

Imagine-se um jogador de futebol que entre em campo, com um capacete, não para amortecer as cabeçadas, mas para usufruir de um dispositivo que lhe permite ter imediatamente acesso à imagem dada por um computador do movimento que fará a jogada óptima para meter a bola na baliza. E juntando esse conhecimento ao seu entendimento físico da jogada poderá ter a realidade total e optimizar a sua performance. Porém, não é líquido que daí resultem mais Cristianos Ronaldos.

Mas a computação não ficará por aí. "Já calculamos muito bem, mas ainda queremos calcular mais depressa e melhor e com números maiores, queremos tornar-nos verdadeiros papa-números. E para isso temos de estimular não só os nossos nanotubos como apoiar a criação de computadores ADN construídos no nosso próprio ADN, de tal forma que o computador do futuro faça parte da nossa orgânica", afirma. E da junção entre o artificial e o biológico, dos neurochips, podem surtir muitas mais surpresas. Peter Weable cita a propósito o filme Estranhos Prazeres, de Katheryn Bigelow, recente vencedora do Óscar para melhor realizadora, que em seu entender retrata, pelo avançado dispositivo usado, o que será um "cinema quantum" no futuro.

Já se fala, aliás, de uma computação quântica, lá mais para o fim do século XXI. E a computação orgânica está mais próxima. "Há muito que trabalhamos com aquilo a que chamamos algoritmos evolucionais, utilizando o sistema que conhecemos da selecção natural de Darwin, com base nos genes, para fazer optimizações de programas complexos", explica Luís Rocha, investigador do Instituto Gulbenkian de Ciência. "E estamos a tentar inspirar-nos por exemplo no nosso sistema imunitário para defender os mails. É aquilo a que chamamos computação bio-inspirada".

O investigador trabalha na área de sistemas complexos, fazendo modelação de redes, que tanto podem ser de células, como de pessoas ou de neurónios. E procura perceber a interacção entre a tecnologia e os humanos. Por outras palavras, o que acontece quando se misturam as máquinas e as pessoas. Nesse sentido, tem desenvolvido várias técnicas para a Internet, como sistemas de SPAM, mas também de "recomendação", ou seja, como se for a uma loja comprar um determinado artigo, o computador poderá perceber que irá igualmente querer outro. "Interessa-me perceber como as pessoas mudam o seu comportamento com estas novas ferramentas", adianta.

Uma das coisas que diz ser já notória, até porque é professor universitário, e pode verificá-lo na sua prática de docência, é a forma diferente como se resolvem os problemas. "A informação agora é tão imediata, porque temos computadores até nos telemóveis, que as pessoas já não são obrigadas a reflectir tanto nos problemas. Basta ir à net e trabalhar a informação em rede. Digamos que é uma resolução mais colectiva dos problemas", diz. "De certa maneira, já somos uma inteligência colectiva. Mas essa inteligência, característica por exemplo das formigas ou dos enxames, tem um preço: os indivíduos têm menos liberdade. Ou seja, somos constrangidos a pensar como os outros pensam". Há que procurar o fiel da balança, pesando o individualismo e a "vantagem de resolver em colectivo problemas mais complexos".

O impacto destas tecnologias pode ser comparável, em seu entender, à introdução do tempo, quando começámos a usar relógios de pulso: "Com um acesso à tecnologia tão imediato, com os telemóveis que todos temos, provavelmente daqui a uma geração, se perguntarmos a alguém se sabe como se faz uma bomba nuclear ou o mais complexo dos conceitos, ela poderá dizer imediatamente que sim, porque não estando na sua cabeça, está na net. Assim como absorvemos a noção de tempo só porque temos um relógio, também vamos passar a pensar todo o conhecimento que está a internet como se fosse nosso".

O que isso irá mudar as nossas vidas, ainda não é possível prever. Mas de alguma maneira, como diz Luís Rocha, "somos já cyborgs". Porque somos cognitivamente um animal que absorve tudo à sua volta: a linguagem, o tempo, as novas tecnologias. Isto mesmo sem ter máquinas implantadas na nossa cabeça", explica o investigador. E acrescenta: "É preciso saber qual a maneira de usar as tecnologias sem perder a nossa individualidade". Mas isso, como ironiza, "ainda ninguém sabe".