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Pensar o cérebro

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Jorge Soares, diretor do Serviço de Saúde e Desenvolvimento Humano, da FCG

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'O cérebro tem género?', 'Porque dormimos?' ou 'Pode copiar-se o cérebro humano num computador?' são algumas (das muitas) questões levantadas na conferência Brain.org, promovida pelo Fórum Gulbenkian de Saúde, a 9 e 10 de outubro, no Auditório 2, da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), em Lisboa. Participam diversos especialistas e investigadores internacionais e nacionais, num encontro destinado ao público em geral com o objetivo de divulgar as últimas descobertas científicas nesta área. A entrada é livre. O JL conversou com Jorge Soares, 60 anos, diretor do Serviço de Saúde e Desenvolvimento Humano da FCG, prof. catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e um dos organizadores deste projeto.
Aqui publicamos o Breve Encontro da página 2 da edição hoje em banca que, por uma lamentável troca, saiu numa versão incompleta e não editada. As nossas desculpas ao visado e aos leitores.

Francisca Cunha Rêgo

JL: O estudo do cérebro está a ser cada vez mais aprofundado e alargado. Quais os objetivos gerais deste Fórum?

Jorge Soares: Dar conhecimento ao público em geral. Não se trata de uma plateia especializada de neurocientistas, mas antes de pessoas muito despertas para estas novas questões do cérebro que começam a ser resolvidas e já não são tão 'misteriosas' e 'ocultas' como no passado. Em cada uma das conferências deste fórum estão transcritos os avanços do conhecimento biológico na compreensão de fenómenos cognitivos e superiores e de aspetos comportamentais.



E o que destaca da programação?

A programação é muito variada e analisa questões como, por exemplo, porque que dormimos? [a 9, às 11 e 30], isto é, como fundamentamos do ponto de vista biológico esta necessidade do corpo. Por outro lado, refletimos sobre a incorporação da moral [a 9, às 14 e 30], ou seja como é que a moral se incorpora e se tem, ou não, uma fundamentação biológica. Há um painel que mostra através da ciência como nos relacionamos com as artes em geral, com a consciência do belo [a 10, às 9 e 30], e outro sobre como se faz a aprendizagem da música e porque é que ela é tão fácil para algumas pessoas e quase impossível para outras [a 9, às 16]. Outro aspeto analisado prende-se com as semelhanças do nosso cérebro com um computador na realização de tarefas muitíssimo complexas em tempos muito breves [a 10, às 11 e 30].



Também estará em debate se o cérebro tem género...

Exato. Analisaremos se se trata de uma questão meramente cultural ou educacional ou se há qualquer outra coisa no cérebro que nos torna mais facilmente passíveis de nos incluirmos no género masculino ou feminino [a 10, às 14 e 30].



A última conferência debaterá as questões éticas do estudo do cérebro.

Sim. Debateremos todos os aspetos desafiantes (e não são só estes) relacionados, por exemplo, com o enhancement, isto é, com o melhoramento de alguns aspetos das performances humanas correntes. E ainda sobre a maneira como podemos produzir aquilo que se consideram melhorias. Há, obviamente, limites físicos mas também os limites relativos aos valores incorporados pela sociedade que nos confrontam com dilemas éticos.



Em que medida a exposição As cores do pensamento [patente nos Jardins da FCG e no Terreiro do Paço, até 25 de outubro] se liga a esta conferência?

A exposição é ao ar livre, e não se trata de uma mostra originária nossa. Chama a atenção para a relação do cérebro e a criação humana que aqui é refletida num aspeto: a criação artística sob a forma de pintura ou fotografia ou outro tipo de criação. Há técnicas que proporcionam um estudo morfológico do cérebro, que se apresentam com forma e cor, obtendo-se imagens que, elas próprias, são um objeto artístico. Foi solicitado a diversos curadores - internacionais e nacionais - que encontrassem e 'emparelhassem' essas imagens com obras criadas por grandes artistas. Tratam-se de cópias pois, naturalmente, tratando-se de uma street exhibition, não poderia ser de outra maneira. Chamo a atenção para a relevância do cérebro como elemento de criação artística. A própria investigação tem um apelo, um estímulo e uma tonalidade que não é apenas simbólica. É artística e fascina-nos.