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Uma missão possível Uma das imagens do vídeo vencedor do Prémio UNESCO, Tapada de Mafra e CMTV

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Ganharam - pelo segundo ano consecutivo - um concurso promovido pela UNESCO, Tapada Nacional de Mafra e Câmara Municipal de Torres Vedras, sobre  o tema: Como melhorar a qualidade ambiental da escola? Trinta meninos, dois professores e três auxiliares de ação educativa dão vida à (pequena-grande) Escola Básica de São Domingos de Carmões

Francisca Cunha Rêgo

Para chegar à escola é preciso atravessar aldeias de casas baixas, campos agrícolas, percorrer curvas e contracurvas. E é no cimo da aldeia de São Domingos de Carmões, concelho de Torres Vedras, que ela está à nossa espera.

É uma das muitas escolas construídas durante o Estado Novo, por fora, igual a todas as outras, por dentro, nada tem de típico. A Escola Básica de São Domingos de Carmões, que integra o Agrupamento de Escolas de São Gonçalo, é a mais afastada da sede do concelho, mas parece estar no centro do mundo. Em dois anos consecutivos, ganharam um prémio da UNESCO, em parceria com a Tapada Nacional de Mafra e a Câmara Municipal de Torres Vedras (CMTV), num concurso no âmbito da Década das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (2004-2014), sobre Educação Sustentável.

Como melhorar a qualidade ambiental da escola? foi o tema proposto e alunos e professores meteram mãos à obra. Construíram um cartaz, um telemóvel gigante com uma 'mensagem urgente da terra' desenhada a letras gordas "Olha para mim... Olha por mim!". Dois retângulos, um verde, outro vermelho, com as palavras "Responder" e "Ignorar", respetivamente inscritas, deixam o observador refletir. Fizeram ainda um vídeo no qual apresentam sugestões práticas como a feitura de 'chouriços' de pano que ajudam a calafetar as portas, a colocação de painéis solares ou de vidros duplos nas janelas. Para divulgação, escreveram, interpretaram e editaram Uma missão possível, disponível no Youtube (www.youtube.com/watch?^v=5KNI59dfdfw). "Aderimos a estes e a outros projetos com o intuito de pôr a escola no mapa e retirar um pouco estas crianças da interioridade. Queremos expô-las a coisas novas e interessantes para o seu desenvolvimento académico e pessoal", explica ao JL/Educação, o professor do 3.º e 4.º ano, Bruno Paulos, 31 anos, há quatro nesta escola. "Tem sido um percurso muito enriquecedor também porque temos contado com o apoio da CMTV e do presidente da nossa junta de freguesia - Sérgio Gomes. Estamos sempre a participar no que nos parece ser relevante e acho que as outras escolas já nos levam mais a sério embora ainda sejamos 'os malucos lá do fundo'. O nosso grande projeto é trabalhar a relação entre a escola e a comunidade. Na nossa aldeia, no nosso concelho, e porque não, no país", acrescenta o professor, que, como faz questão de salientar conta sempre com a ajuda das três auxiliares: Isabel Pereira, Paula Neves e Tânia Fernandes.

Para abril preparam já novo projeto para apresentar à UNESCO que, este ano, escolheu a Biodiversidade e os Rios como tema. Em princípio irão 'adotar um rio', neste caso, uma ribeira, a da Carrasqueira que passa perto da aldeia. "Penso que irá entusiasmar todos os alunos", salienta o professor, contratado, ainda sem saber se no próximo ano letivo estará nesta escola: "É uma incógnita sobre a qual não quero ainda pensar muito. Vai ser doloroso sair daqui ". Bruno Paulos, licenciado pela Escola Superior de Educação de Lisboa, e oriundo de uma família de professores, nunca se imaginou noutra profissão.



GIRAFAS E FRAÇÕES

Os 30 meninos e meninas estão divididos em duas turmas, uma de 1.º e 2.º ano, outra de 3.º e 4.º. "Estamos muito habituados a trabalhar assim. Não é uma questão muito difícil de ultrapassar. Precisamos apenas de muito planeamento, organização e, claro, dedicação", diz a professora Florbela Moreira, 36 anos, desde o princípio deste ano letivo na Básica de São Domingos - em substituição da professora Cláudia Grazina, colocada noutra escola do mesmo agrupamento. "Em 13 anos de carreira nunca fiz uma continuidade. É difícil despedir-me dos meus alunos todos os anos, porque eles são, de facto, meus. Só se assim for a nossa profissão faz sentido", acrescenta Florbela Moreira, licenciada pela Escola Superior de Educação de Leiria.

Na sua sala de aula os meninos estão divididos em dois grupos, à esquerda os do 1.º ano, à direita, os do 2.º. Neste momento trabalham o texto A girafa que comia estrelas, de José Eduardo Agualusa. "Sempre que é possível tento que abordem o mesmo texto com atividades diferentes para cada ano", explica a professora. "Acho que a minha girafa não vai ficar lá muito bonita", diz Isabel Casarito, 8 anos, aluna no 2.º ano. "Vai, sim", responde-lhe a colega de carteira Beatriz Mendes, da mesma idade, que sonha ser veterinária e cantora.Ambas desenham a girafa Olímpia, protagonista do conto de Agualusa. O texto foi dividido por parágrafos e cada aluno do 2.º ano, depois de traçar o retrato físico e psicológico da girafa, tem que a desenhar.Os alunos do 1.º ano pintam um desenho já fornecido.Na sala ao lado, os alunos do 3.º e 4.º ano concentram-se na Matemática, mais precisamente no estudo das frações. As carteiras estão dispostas em L, os alunos intercalados entre anos. Ouvem o professor com atenção. Os exemplos práticos que Bruno Paulos dá, não podiam ser mais indicados e as frações aprendem-se com um pacote de rebuçados e um bolo. "Temos um pacote com 10 rebuçados ao qual vamos tirar 5. Ora abram lá o pacote", afirma o professor. Imediatamente levantam-se os braços e os 12 alunos rasgam um pacote imaginário."Gosto muito de aprender. O professor é divertido e ensina bem", observa Íris Dias, 9 anos, aluna do 4.º ano. "Acho que é muito bom participarmos nestes projetos e concursos. Aprendemos mais e a escola, ainda por cima, ganha prémios", diz a rir, Cristiano Pinto, também do 4.º ano. Esta semana ele é 'Presidente de Turma', cargo de grande responsabilidade que vai rodando por todos os alunos e que consiste em ajudar o professor, mandar calar os colegas, etc..., e refere-se às bicicletas e aos suportes para as mesmas que ganharam no concurso da UNESCO e que todos utilizam, também rotativamente.



INFANTES E CARNAVAL

Mas não só à UNESCO que se concorre na Básica de São Domingos. No ano passado ganharam também um prémio da Fundação Ilídio Pinho, a propósito de melhorias energéticas na freguesia. Construíram um aerogerador eólico capaz de carregar uma pilha e acender uma LED. E foram distinguidos com o 3.º lugar, a nível nacional, no âmbito do projeto educativo Brigadas positivas, promovido pela Missão UP, da GALP Energia. "Desenvolvemos a brigada A Força da Energia que teve como objetivo levar os alunos a saber mais sobre as fontes energéticas, formas de transmissão da energia, através de algumas experiências", pode ler-se no jornal oficial da escola, Infantes. No Infantes haverá seguramente uma reportagem sobre o corso de Carnaval - ponto alto da vida em Torres Vedras - que saiu para a rua a 7. "Vamos integrar o grupo de mais de 8000 alunos das escolas do concelho que se reúnem sobre o tema 'Reciclagem'. Decidimos fugir da ideia de separação de lixo e de ecoponto e vamos apresentar um grupo de caretos, sob o lema 'Reciclar a tradição'", explica Bruno Paulos. Os fatos coloridos, para professores e auxiliares inclusive, já estão pendurados num cabide na sala de projetos - adjacente à turma dos mais pequenos. Do outro lado, está a biblioteca. "O desfile vai ser uma alegria, mais uma que esta escola nos dá", diz Sérgio Gomes, presidente da junta há 28 anos."Procuramos sempre ajudá-la, quer ao nível de transporte quer ao nível financeiro. Quando não é possível, tentamos com mais afinco, e tudo se consegue. É preciso nunca perder a esperança", sustenta risonho. A Escola Básica de São Domingos de Carmões está cheia de bons exemplos.