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Antever o futuro

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António Câmara

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Podem parecer cenário de ficção científica ou delírios literário-científicos, mas não. São antes Visões sobre o futuro que António Câmara vai adiantar num ciclo de conferências na Culturgest, em Lisboa, a partir de 10 de Março.

 O estuário do Tejo convertido em campo de experimentação científica e artística ou numa espécie de ecrã gigantesco onde haverá projecções para o entretenimento geral, girassóis solares e árvores eólicas nos jardins, painéis solares como pedras das calçadas, papel interactivo, computação invisível o mesmo quântica lá mais para a frente a permitir o teleporte de insectos, no final do século, uma comunicação assente em sensores e em todos os sentidos, da visão ao olfacto, ambientes inteligentes, estes não são apenas cenários de uma história de FC ou de uma imaginação delirante, antes Visões sobre o futuro que se inventa hoje. E esse é justamente o nome de um ciclo de conferências que António Câmara irá apresentar na Culturgest de Lisboa, ao correr do mês de Março. O professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa e investigador, fundador da empresa Y-dreams, foi distinguido com o Prémio Pessoa 2006 e publicou no ano passado, entre outros, uma obra justamente intitulada O futuro inventa-se, uma edição Objectiva. O ciclo Visões sobre o futuro começa a 10 de Março com uma conferência dedicada ao Espaço Público. Seguem-se dias 17, 24 e 31, sempre às 18,30 horas, as reflexões em torno dos temas Intelegência Colectiva, Objectos Inteligentes ou Comunicação daqui a 50 anos.



Jornal de Letras: O que determinou a escolha de temas como o espaço público para reflectir nas suas conferências?



António Câmara: Nas últimas décadas tem-se assistido a uma menorização do espaço público físico. A migração para o espaço virtual tem sido uma das principais razões. A proposta é criar novos espaços públicos que conjuguem as vantagens dos tradicionais e dos virtuais. Por outro lado, a rede tem permitido  a criação de uma nova inteligência colectiva. Analisa-se esse fenómeno e as suas aplicações em processos de participação pública, nomeadamente no grau de apropriação colectiva de decisões de carácter público.



E a comunicação?

A comunicação inter-pessoal tem dominado os últimos 20 anos em tecnologia. Mas a era dos objectos inteligentes está a chegar e com ela a possibilidade de interagirmos com um mundo até aqui inanimado.  Podemos mesmo ousar pensar numa comunicação com animais.



Como vê o futuro da Cultura?

Se olharmos para o que se passa nos sistemas educativos das melhores escolas do mundo vemos que há a mesma preocupação com a leitura e debate dos clássicos que havia no início do século XX.  Nessas escolas continua a existir uma preocupação com uma formação sólida em ciência e arte. Há novas literacias que são exigidas (o vídeo, por exemplo), mas as aprendizagens fundamentais mantêm-se. A criação cultural vai no entanto mudar radicalmente porque é muito mais aberta: qualquer um (ou uma) pode criar e difundir.



De que falamos quando falamos do papel interactivo ou da computação invisível?

A nossa ideia de papel interactivo é dar a possibilidade ao papel tradicional de se converter num ecrã com o qual podemos interagir: animar gráficos, substituir as linhas por quadrículas e vice-versa; e até aumentar a dimensão das fontes. Pretendemos conseguir essa interactividade através de reacções químicas baseadas no electrocromismo (a mudança de cor via mudança de energia) e não de métodos de computação clássico. Chamamos "computação invisível" a esta "computação" química porque não há computadores envolvidos.



E de que maneira vão mudar a Literatura, as artes ou os espectáculos?

Podemos ler um livro e substituir as figuras por animações e vídeos em papel (e não em plástico como no caso do video in print). Pensamos chamar artistas para experimentarem a nossa nova tecnologia não só em papel como em vidro, plástico, madeira, cortiça, cimento e tecido.