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A obra literária - Um risco na areia

Ideias

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Para Carla Marina e Pedro Canário
Pensam que estou a inspirar-me em Saramago, na sua Joana Carda que traçou com a vara um risco no chão e desencadeou a ruptura da Península, arrancando-a da Europa e pondo-a a vogar no oceano? Talvez. Álvaro Cunhal (AC) criticou muito a nossa entrada na UE. O rapaz que traça "um risco na areia", no romance com esse título, faz um gesto idêntico. (ver completo em versão impressa) 

Maria Alzira Seixo

Pensam que estou a inspirar-me em Saramago, na sua Joana Carda que traçou com a vara um risco no chão e desencadeou a ruptura da Península, arrancando-a da Europa e pondo-a a vogar no oceano? Talvez. Álvaro Cunhal (AC) criticou muito a nossa entrada na UE. O rapaz que traça "um risco na areia", no romance com esse título, faz um gesto idêntico. Mas enquanto Joana procede inadvertidamente, ele, um dos intrépidos construtores de barragens que protegeram Lisboa da invasão contra-revolucionária da 'maioria silenciosa' no 28 de Setembro, diz ao experiente militante Gabriel, "com uma seriedade que contrastava com o seu rosto quase infantil": "Para cá não passarão!". E o narrador acrescenta: "E para cá do risco na areia não passaram./ São acontecimentos que ficarão na história como lendários. Mas que é a lenda senão uma expressão fantasiosa da verdade?"  

Cunhal foi figura de verdade e lenda, terrível para uns, amável para outros. Certas verdades suas foram ainda em vida emergindo da lenda em que sediavam: a autoria literária, a existência comum, momentos correntes e de excepção numa vida incomum mesmo, agora possível de entrever em imagens que a Fotobiografia revelará. Tocarão decerto o mito existente quando eu nasci, do lutador e resistente indómito, artífice de organizações e revoltas, feitos que iam dando enxadadas mortais no salazarismo. Lendo a sua novelística, somos tomados de um sentimento que se firma progressivamente: o de que ela contém criação artística autêntica, e aliança profunda, mais que a mero biografismo, à experiência radical da vida vivida, em dimensão pessoal e comunitária, que faz da sua obra um poderoso escorço da sociedade portuguesa do século XX e da forte luta que a acção progressista trava para a transformar. Esta obra é, em si mesma, o risco que fica, como o de Joana Carda mas sem alegoria, porque se inscreve como vida, a vida própria da arte, em actuação decidida e eficaz no mundo humano. +

Obra que surpreende logo em inesperados momentos de cómico e deliciosos episódios de ternura: penso, ao acaso, em "Os corrécios" e em "Delinha", no volume que usa o primeiro destes títulos; ou, sem acaso, na novela Cinco dias, cinco noites, talvez o seu melhor texto, e em A Estrela de Seis Pontas, romance de extrema originalidade a vários títulos. Os contos são preciosos pelo amplo espectro temático e de registos enunciativos, em quatro volumes dominados pelo vector da injustiça social num  quotidiano desmunido e opressivo, e por projectos de intervenção; e abrem-se a miúdos pormenores de sentimento delicado e atitudes esparsas, captadas ao de leve e quase impressionistas; e são firmes na técnica do relato, composição de caracteres e poder de comunicação do flagrante humano. Porque a forte humanidade é das mais sensíveis características da obra de AC, já patente nos seus Desenhos e, de outro modo embora (sem que a mensagem política seja tão proeminente, ou dominante), ela é constante pendular na gesta da luta marxista desenrolada em Até Amanhã, Camaradas.

Com este seu romance de marca, alicerçado na dúvida quanto à autoria, firmou AC um nome na Literatura: muito bem arquitectado, atrai pelo sábio entrelaçar da descrição da organização partidária com as reacções da população que a extrapola - o que, aliás, seria preciso analisar, ex. o caso da menina Ermelinda na casa ao lado de Rosa e Vaz - e que, animado por episódios indiciais de reacções psicológicas, muito sensíveis nas figuras femininas mas também presentes nos varões da luta, é forte na descrição de interiores e na presença da natureza circundante, não tanto como 'paisagem' mas como um dos muitos elementos com que a vida conta, positiva ou negativamente (ex. a chuva, nos primeiros capítulos), para a evolução do projecto do texto. Que aliás despistou muito, com a figuração paratextual em Manuel Tiago, a qual, de modo pacífico, fez depois coincidir com a sua figura efectiva. Num jogo? Em desvio de atitudes? Não é caso único na Literatura e poderá vir a ser estudado.

Mas esse nome literário corre um risco (e os "riscos", na obra de AC, não são só traçados de resistência, antes contingências de tipo vário), que é o de submergir no terreno do partidarismo e poder só encarar-se como o de um camarada que descreveu (mesmo que muito bem) aspectos da vida do Partido. Ora a obra literária de Cunhal é muito mais que isso: ela entra no sistema da Literatura Portuguesa (desde o bucólico Pároco da Aldeia de Herculano e do idealismo crítico de Júlio Dinis na Morgadinha e nos Fidalgos até Pequenos Burgueses e Casa na Duna de Carlos de Oliveira, sem esquecer o "relâmpago" anunciador que foi Soeiro Pereira Gomes e a obra multifocante de Alves Redol) e no da Literatura Comparada (de Barbusse a Aragon, para só falar nos franceses), e leva a repensar essa questão sem fim que é a da estética neo-realista, e uma outra questão, universal, que é a da problemática da representação do mundo, e talvez ainda uma terceira: a das relações com a restante literatura intervencionista europeia, sem esquecer a sombra, ideologicamente tão marcada, da Literatura Russa e seus avatares na Soviética. Isso ultrapassa o meu modesto intento aqui, mas não deve ser esquecido.