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Filipa Melo: Adultério, de A a Z

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JORNAL DE LETRAS Entrevista a Filipa Melo sobre o seu mais recente livro o Dicionário Sentimental do Adultério

Carolina Freitas

Uma abordagem “livre”, “pessoal” e “eclética”, o Dicionário Sentimental do Adultério, de Filipa Melo, vai buscar histórias à História, à literatura, à ciência e a casos da atualidade para desenhar um “puzzle criativo” que permite refletir sobre um tema vasto, complexo, fraturante, com contornos de um “tabú” nos dias de hoje.
Jornalista há 27 anos, desde que integrou a primeira equipa da Visão, colabora atualmente com os jornais i, Sol e a revista Ler. Estreou-se na ficção com o romance Este é o meu corpo (2001), mas quanto a um possível regresso, diz apenas que tem projetos de escrita para os próximos três anos. Com experiência de dez anos em oficinas de escrita criativa, prepara-se agora para um novo desafio: a coordenação da primeira Pós-Graduação em Escrita de Ficção, na Universidade Lusófona, em Lisboa, que arranca em outubro e cuja segunda fase das inscrições decorre até 23 de setembro.

Jornal de Letras: O que lhe interessou no tema do adultério?
Filipa Melo: Devo este livro ao Francisco José Viegas, que me convidou para escrever o segundo volume da coleção Dicionário Sentimental, da Quetzal [o primeiro foi o Dicionário Sentimental do Futebol, pelo Rui Miguel Tovar], e cujo incentivo e acompanhamento foram decisivos. Escolhi o tema do adultério instintivamente. Depois, quando me pus a pensar, achei que fazia todo o sentido.

Em que medida?
É um tema muito vasto: permitia-me ir buscar coisas à História, porque desde que o casamento existe, existe adultério; permitia-me investigar na literatura, porque o adultério é um dos temas centrais na grande literatura; e permitia-me ainda falar da atualidade. Interessou-me também por ser um tema tabú.

Ainda é?
Socialmente, sim. Tal como não podemos dar grande credibilidade às estatísticas sobre sexo, também é difícil conseguir uma abordagem estatística mais ou menos fidedigna em relação ao adultério, e o motivo é o mesmo: as pessoas não dizem tudo. Aliás, o detetive João Santos [que entrevistou para o livro] diz que nenhum adúltero admite que o é.
Como foi o processo de pesquisa?
É do que gosto mais (risos) Comecei a reunir bibliografia em maio do ano passado. A partir daí, a pesquisa e a escrita decorreram simultaneamente. O livro demorou mais ou menos dez meses a ser feito. Peguei desde a História do adultério até estudos científicos, como os ensaios da Helen Fisher sobre as origens biológicas do amor romântico. Fui andando por aí, de livro para livro, e fazendo uma espécie de hipertexto.

Em que uma entrada leva a outra?
Sim. Por exemplo, a Ana Bolena tem duas entradas: uma em nome próprio, que tem a ver com a sua história de vida; e outra a que chamei “Bruxaria”, relacionada com a sua figura de amante e ‘fama’ de bruxa. Fui estabelecendo relações entre várias entradas para fazer um puzzle criativo que tivesse em conta algo para mim muito interessante em termos de escrita: procurar manter a atenção do leitor equilibrando os dados da pesquisa com o uso do humor, da ironia, e com um bocadinho de picante - a sensação de estarmos a espreitar pelo buraco da fechadura, que este tema permite.

Houve algum critério para a escolha das entradas?
Foi o mais livre possível. Não é um dicionário científico - é uma aproximação pessoal a um tema. Quando o Francisco José Viegas criou o Dicionário Sentimental, pensou-o nesse sentido de uma abordagem pessoal, quase afetiva, a um tema. Em França, existe uma coleção do mesmo género, que é um enorme sucesso, chamada Dictionnaire amoureux, da editora Plon. Em cada tomo um escritor escreve sobre um tema e a abordagem é livre, pessoal e eclética.

Por que decidiu incluir casos reais dos dias de hoje?
Importa dizer que todos os casos apresentados como reais o são de facto, incluindo todos os que estão na entrada “Marginália ou a realidade, agora a cru”. São importantes porque mostram a realidade como ela é. O adultério tem um lado brutal: sádico, mórbido, ligado à mentira, ao enganar o outro. Quis mostrar esse lado menos ‘luminoso’. Também há dois ou três casos que surgem como anedotas, mas não são. São casos reais que resultam de uma pesquisa feita entre os amigos.
Este livro mostra que a história do adultério é também uma história de violência, sobretudo sobre as mulheres. Concorda?
É evidente que no centro do livro está a ideia de que a história do adultério é a história do adultério no feminino. Desde as leis de Augusto (as Lex Julia), na Roma Antiga, e com as Ordenações Afonsinas, no século XV em Portugal, o adultério é considerado um crime contra o pai ou contra o marido. Adultério era ter relações sexuais com uma mulher casada. Isso fez com que o adultério fosse empurrado para um campo que é o campo do segredo e da discriminação de género, porque o que está em causa é a livre fruição do corpo por parte da mulher. O homem casado podia ter relações extraconjugais, a mulher nunca.

É um estigma que dura até hoje?
Continua a ser uma questão menos mal vista no homem do que na mulher. Em todo o caso, o livro não é nem pró nem contra o adultério. É uma abordagem livre ao tema, que permite refletir sobre ele - nalguns casos de forma anedótica, noutros de forma muito séria. É o caso de Eleanor Hodys, a história horrível de uma prisioneira de Auschwitz que é forçada a ser amante do seu comandante máximo.

São muitas as passagens em que se dirige diretamente ao leitor. Quis sublinhar esse apelo à reflexão?
A interpelação ao leitor surge do facto de que todos sofremos com a ideia pavorosa, por um lado, de alguma vez sermos traídos, e, por outro, de não sermos capazes de não trair. É uma questão muito pessoal, muito íntima, e isso é muito interessante enquanto mecanismo narrativo, porque permite o diálogo com o leitor.

É algo que não é alheio a ninguém?
Exatamente. E nesse sentido, o livro é escrito quase como um romance policial em que o autor faz um pacto com o leitor como que a dizer: nós sabemos mais coisas do que os outros. Aqui é um pacto curioso porque interpela e provoca uma reflexão muito íntima em cada leitor.