Jornal de Letras

Siga-nos nas redes

Perfil

João Lobo Antunes: o cérebro, o espírito e as palavras

Ideias

João Lobo Antunes

Marcos Borga

Morreu o neurocirurgião João Lobo Antunes. Tinha 72 anos, era atualmente presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. Recorde a sua últiam entrevista ao Jornal de Letras, publicada em outubro de 2015

O bisturi e a palavra, a escrita cirúrgica: o cirurgião do cérebro sempre na companhia da literatura. Melómano, esteta, pensador humanista, é um dos grandes nomes da medicina portuguesa, Prémio Pessoa 1996, Prémio da Universidade de Lisboa 2013. Jubilado da sua cátedra da Faculdade de Medicina, afastado há dois meses da cirurgia, por doença, revela ao JL que prepara agora as suas memórias – e lança uma coletânea de ensaios, prestes a chegar às livrarias, que configuram uma arte poética e ética: Ouvir com Outros Olhos. O JL entrevistou-o e Miguel Real escreve sobre a sua obra e o novo livro

Que fez dele um cirurgião do cérebro? Para responder a essa pergunta, João Lobo Antunes, 71 anos, está a escrever as suas memórias, muitas histórias que recorda do seu passado de décadas de vida médica, com a “vertigem” de quem põe a escrita em dia. E em tudo o que escreve se adivinha, adianta, uma forte e persistente “compulsão biográfica”.

A literatura, de resto, acompanhou-o desde um tempo ainda anterior à Medicina, paralelamente ao estudo metódico, horas a fio, cadenciado pelas badaladas do sino da igreja de Benfica, bairro onde cresceu. E a par da sua prática clínica, escreveu sempre. Ensaios, que o “pudor “nunca lhe permitiu a tentação da ficção.

Agora reúne de novo em livro, Ouvir com Outros Olhos, um conjunto desses textos, escritos nos últimos anos, alguns inéditos, outros dispersos por várias publicações. Uma edição da Gradiva, do seu amigo Guilherme Valente, em que além da medicina e da literatura reflete sobre as humanidades, a universidade, a ética, o estado social e Portugal. Uma ‘bula ‘do seu pensamento, em que avança algumas preocupações. A prescrição é pôr-nos a pensar olhando o mundo com todos os sentidos.
Ouvir com Outros Olhos culmina de alguma maneira o ciclo ensaístico iniciado com Um Modo de Ser (1996), a que se seguiram Numa Cidade Feliz (1999), Memória de Nova Iorque (2002), Sobre a Mão e outros ensaios (2005), Inquietação Interminável (2010) ou a biografia de Egas Moniz (também de 2010), o Nobel português da Medicina, entre outras obras e centena e meia de artigos científicos.

Nascido em Lisboa em 1944, estudou no Liceu Camões, depois na Faculdade de Medicina de Lisboa e no início dos anos 70 demandou Nova Iorque, onde prosseguiu a sua formação em neurocirurgia. O cérebro e as ciências neurológicas são um ‘pergaminho’ familiar, já que o pai também era neurologista – e prof. de Medicina. E filho de peixe… Dois dos seus irmãos seguiram o mesmo ramo, o escritor António Lobo Antunes, psiquiatra, e Nuno Lobo Antunes, neurologista pediátrico, que também já se estreou no romance. A escrita parece ser outra ‘jóia’ de família.

Investigador e cirurgião, João Lobo Antunes regressou a Portugal em 1984, passada mais de uma década nos Estados Unidos, onde se especializou e lecionou na Univ. de Colúmbia. Foi catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa, diretor do serviço de Neurocirurgia do Hospital de Santa Maria – e atualmente preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV). Uma carreira brilhante, reconhecida e premiada no país e no estrangeiro, a que aliou a intervenção cívica e política. Foi mandatário nacional das candidaturas de Jorge Sampaio e Cavaco Silva à Presidência da República.

Uma vida cheia, uma "guerra vivida com leveza”. É o que diz ao JL, no seu “escritório-reduto”, às Janelas Verdes, o claro outono a entrar sala dentro, de vez em quando com ironia, outras disfarçando uma subtil comoção, sempre a cuidar das palavras. E, sob a mão, que opera e escreve, uma amável humanidade

JL: Em Ouvir com Outros Olhos traça, de um modo lato, a sua ‘arte poética’?
João Lobo Antunes: Assumi sempre a escrita como atividade paralela da minha vida clínica, da qual me retirei bruscamente há uns meses, por causa da doença. E ao longo de todos estes anos em que fui cirurgião do cérebro, recolhi muitas memórias, histórias. Certamente foi a esse manancial, a esse tesouro, que fui buscar muito material para o que escrevi. Aliás, há muitos escritores médicos distintos, quer na nossa língua, quer noutras.

A proximidade do sofrimento, o conhecimento profundo da condição humana, propiciam a escrita?
Por exemplo, o poeta William Carlos Williams e o fenomenal Tchekhov reconheceram que o que colheram da sua vida como médicos foi essencial para a obra que construíram.

No seu caso, carreou a experiência e a escrita fundamentalmente para o ensaio. Porquê?
Nunca consegui ultrapassar uma barreira, um certo pudor, que me impede de ser um contista, um romancista como Fernando Namora ou o meu irmão António [Lobo Antunes] e tantos outros.

Que pudor foi esse?
Qualitativamente, era para mim um salto que não tinha coragem de assumir. Este meu livro está semeado de evocações de pessoas e de episódios, mas acho que nunca seria capaz de escrever uma novela ou um conto.

E nunca teve essa tentação?
Não. Mas há no que escrevo uma “persistente compulsão biográfica”. Fui buscar essa expressão à admirável tese de doutoramento sobre Padre António Vieira de Margarida Vieira Mendes, que foi minha cunhada e morreu tão cedo [foi mulher de Miguel Lobo Antunes, mãe de José Maria Vieira Mendes]… Ela dizia justamente que na pregação de Vieira estava sempre presente essa compulsão. É curioso que mesmo quando escrevi sobre ética médica pura me foi apontado, quase como uma crítica, que personalizava muito o que dizia. De facto, a reflexão que fiz sobre temas éticos é a história das minhas inquietações. Ou seja, em que medida os diversos problemas e desafios que se punham à ética contemporânea me faziam vibrar, me interrogavam e deixavam perplexo. A coletânea que fiz dos meus escritos estéticos chama-se mesmo Inquietação Interminável. Ouvir com Outros Olhos tem também essa perspetiva biográfica. E depois de o ter concluído, lancei-me numa outra aventura.

Qual?
Quando cheguei aos 70 anos, perguntei precisamente a mim próprio o que iria fazer, agora que já não tinha que ir todas as manhãs para o Hospital de Santa Maria, coisa que me dava um enorme prazer. Decidi que ia entreter-me com a minha inteligência. Dito assim, isto pode parecer um pouco pretensioso, mas pensei que iria ser como um mineiro a escavar as recordações, uma exploração da mina da minha experiência, lembrando no fim da vida todas essas histórias e sobretudo divertindo-me. É isso que estou a fazer, a escrever as minhas memórias. A ideia é saber como me fiz cirurgião do cérebro.

Centra-se nos anos iniciais da sua carreira?
Desde a altura em que nasci, o meu ambiente familiar, toda a formação, a ida para Nova Iorque, até ao meu regresso a Portugal, para ser professor de neurocirurgia. Tem-me dado muito prazer escrever estas memórias. A ameaça de mortalidade que a minha vida atravessa neste momento, que tenho encarado com relativo otimismo, faz com que esteja envolvido nessa tarefa quase como uma vertigem.

Com urgência?
Com medo de não conseguir chegar ao fim. Nessa memória, a biografia afirma-se com extraordinário vigor e imediata nudez. É a minha história, a visão que tenho de mim próprio e sobretudo procuro responder a essa pergunta que fui pondo a mim mesmo toda a vida: como me fiz assim, como é que a medicina me fez médico? É interessante como a profissão faz de nós aquilo que somos. E isso não se aprende nos bancos das escolas.

E então o que fez de si um cirurgião do cérebro?
Ah, para o saber tem que ler o livro, quando sair [risos]. Não há dúvida que teve importância o meu pai. De seis filhos rapazes, três foram para Medicina, três para a área das neurociências. Vivia-se o cérebro naquela casa. A certa altura, pensei ir para cardiologia, porque achava a mais matemática das especialidades, embora hoje seja muito diferente e interventiva. Por outro lado, desapontava-me a ineficácia, a impotência terapêutica da neurologia. Isto há 50 anos. O diagnóstico era elegante, mas havia pouca coisa a fazer para ajudar os doentes. O braço armado da neurologia era a neurocirurgia e foi o que fiz. E confesso que houve outra tentação.

Que foi…
Desenhava com algum talento, modelava, esculpia, mas não era dotado de mãos habilidosas. Ainda hoje, se tento reparar um eletrodoméstico, os movimentos são quase grotescos. Era portanto um enorme desafio ir para neurocirurgia e perguntava-me mesmo se seria capaz de usar as mãos para operar. Curiosamente, quando opero, do ponto de vista técnico e gestual, estou mais próximo do pintor, o bisturi mais perto do pincel do que da chave de fendas. É claro que tive bons mestres, que me ensinaram a técnica e a estratégia, igualmente importante. A pouco e pouco, consegui dominar bem as duas mãos. São a guitarra e a viola. E comecei a ter um prazer quase sensual no ato da cirurgia e um conceito estético.

Estético?
Os movimentos têm que ser elegantes, diretos, leves como uma pluma.

Parece referir-se a uma dança e não a uma cirurgia ao cérebro, que temos a ideia de ser qualquer coisa de muito violento e brutal.
É evidente que conheci cirurgiões brutais. Mas no Instituto Neurológico de Nova Iorque, onde me formei, era fundamental a ideia de que o cérebro é um órgão sagrado, onde se deve tocar com rigor e especial delicadeza. Havia o princípio de técnica cirúrgica, tentar tirar um tumor sem tocar no cérebro. Nem sempre é possível, mas é o desejável. Essa foi a doutrina que aprendi. Um dia um dos meus mestres, falando de cirurgias e de técnicas, disse-me que alguém era um cirurgião porco, porque acabava as operações com a bata suja de sangue, limpava as mãos nela. A partir daí, percebi que o ideal era sair da cirurgia com a bata imaculada, sem uma mancha…

Depois de tantas cirurgias, continua a achar que o cérebro tem esse caráter sagrado?
Tem que ser tomado como tal, até por ser tão distinto de todo o resto do nosso corpo. E, no entanto, quando o olhamos é tão indiferente no seu aspeto, tão monótono. Hoje em dia temos técnicas de neuronavegação que nos permitem olhar aquela massa indiferente e saber o que cada zona representa. Escrevi já um texto literário sobre o ato de operar com o doente acordado, o que se faz hoje cada vez com mais frequência.

O que sobretudo lhe interessou nessa experiência?
O diálogo que vamos mantendo com o doente, enquanto decorre a cirurgia. Ele vai falando connosco e através do que diz, vamos percebendo onde estão os terrenos proibidos e por onde podemos avançar. Foi assim, aliás, que a neurocirurgia começou. Num capítulo que já escrevi das memórias, reencontrei uma história fantástica de um dos meus mestres na América, um famoso cirurgião de um grande carisma que uma vez estava a operar, com anestesia local, e a doente perguntou se podia fumar um cigarro. Ele respondeu: “Go ahead, honey”. Começou a ver-se sair fumo debaixo dos panos, enquanto continuava a operar, impassível… [risos]

A palavra é, nessas cirurgias ‘conversadas’, o fio que mantém a vida?
Sim, sim. Falo muitas vezes da importância da palavra, como acontece no fim de um dos textos de Ouvir com Outros Olhos. Pouco antes de morrer, o filósofo Fernando Gil disse-me que estava a escrever sobre as preposições. Até com palavras que nos parecem insignificantes, podemos construir uma filosofia, um poema. Sempre senti esse encanto da palavra. Quem não estudou pelos livros, nem sabe o que perdeu. E quem não aprecia as palavras também não.

Quando escreve, cuida minuciosamente da linguagem?
Até quando falo. Nunca fui capaz de usar frases mal construídas, quando conversava com um doente ou qualquer pessoa. É em mim natural esse apurar do discurso. A linguagem ensina-nos a pensar. Isso torna-se particularmente interessante quando as pessoas são bilingues, como é o meu caso. Uso o português e o inglês para funções diferentes. O inglês é mais prático, introduzi na sala de operações uma série de termos ingleses. E acontece em algumas situações com emoções mais fortes, por exemplo quando falo com as minhas filhas.

E a Língua Portuguesa?
É um conforto, é extremamente enriquecedora.

Vem de longe o seu interesse pela literatura?
É fundamental para mim. Mesmo o ensino da ética poderia fazer-se quase exclusivamente a partir de livros de ficção. Está lá tudo. A Morte de Ivan Ilitch, por exemplo, cobre tudo o que se pode dizer de pertinente em relação à morte. É extraordinário como Tolstoi conseguiu captar todas as nuances. Sentimo-lo particularmente quando passamos pela experiência de uma doença séria.

Voltou a ler agora esse romance?
Releio-o constantemente na minha cabeça, quase o podia reconstituir de cor. E já escrevi sobre isso.

Está a escrever as memórias de raiz?
Tenho partes antigas, mas também muitas novas, porque a concentração absoluta no passado em que vivo hoje, por causa da escrita, vai-me fazendo descobrir outras coisas. É como uma luzinha que está sempre a aparecer num cenário negro, vou ver o que me está a chamar e lá está mais uma narrativa. Preocupa-me um pouco se as pessoas vão entender estas memórias apenas como celebração de um triunfo, de um sucesso na vida.

Mas teve-o.
Objetivamente, consegui-o. Mas talvez não percebam que foi graças a uma total dedicação ao trabalho e a um programa muito austero ao serviço das pessoas e das ideias. Por outro lado, vou escrevendo com uma vaga desconfiança em relação a quem serão os meus leitores.

Em que sentido?
Se isto que me interessa escrever, interessará a alguém ler. Pelo menos os meus netos um dia talvez tenham curiosidade de saber o que o avô fez. E ainda não arranjei um título. Se fosse em inglês, sabia.

Qual seria?
The Making of a Brainsurgeon. Aliás, já fiz uma conferência com esse título. Mas em português, não me parece feliz. Também não posso chamar-lhe De Benfica a Nova Iorque, que ainda se confunde com a biografia de algum futebolista do Benfica … [risos]

Cita diversas vezes Montaigne no seu livro, nomeadamente quando fala do métier e da arte de viver.
E julgo que numa das Cartas a Lucílio, Séneca diz “vivere militare est”: a vida é uma guerra, uma luta.

É isso que a sua vida tem sido? Uma guerra?
Tenho refletido muito sobre o que foi a minha vida e diria que se houve guerra foi vivida com leveza. Perdi muitas batalhas, como médico e cirurgião. Mas ganhei mais do que perdi. Devo dizer que sempre com uma estratégia cautelosa. Nunca me meti numa guerra que não achasse que tinha possibilidade de vencer. Ou seja, fui sempre pragmático, apesar dos meus devaneios literários ou filosóficos. E tive muitas quando voltei a Portugal.

Um momento de mudança?
A minha vida teve duas grandes etapas, a primeira aquela que se concluiu com o meu regresso a Portugal, em que fui basicamente um clínico que fez investigação - muita, e acho que boa. Mas não estava então envolvido em qualquer forma de vida pública ou cultural organizada. Quando voltei, abriu-se uma nova etapa em que comecei a ter mais intervenção, depois de um período de análise da situação social.

Certamente era diferente o país que encontrou?
Muito diferente daquele que tinha deixado. Dez anos depois do 25 de Abril, havia um jogo e regras completamente diversas. Por isso, tive esse tempo de observação, que fiz com imensa ternura em relação ao meu país.

Foi essa ternura que o levou a voltar?
Sim. De resto, os dois últimos textos de Ouvir com Outros Olhos são dedicados a Portugal. Muito simples e despretensiosos, mas que quis deixar como testemunho de devoção à minha terra. E também por isso comecei a intervir, na escola, em várias organizações, assumi uma série de incumbências.

E foi mandatário da candidatura de dois Presidentes da República.
Tive uma presença política e pública, mantendo-me sempre independente, porque nunca me filiei em nenhum partido. Também uma intervenção importante na minha universidade.

A universidade é um dos temas de Ouvir com Outros Olhos.
Este livro é provavelmente a minha última coletânea e representa o que fui escrevendo nos últimos anos, muito heterogéneo por natureza. Quis manter essa heterogeneidade, agrupando os ensaios em pares. Num deles, conto a história da fusão das duas grandes universidades, na Universidade de Lisboa, em que participei. É um exemplo importante neste momento.

Porquê?
Porque é agora necessário fundir boas vontades e encontrar compromissos, consensos, o que foi possível entre duas universidades tão distintas. Este livro também dá um pouco testemunho do que pode ser feito, usando uma análise crítica, independente, mas orientada para o que deve ser o interesse público, dos cidadãos, do país.

Outro dos ensaios é sobre o Estado Social, que está na ordem do dia.
O que chamo a atenção é para o facto de o Estado Social não ser nada de abstrato, mas muito concreto: o Estado Social somos nós todos, independentemente do que fazemos, do nosso estatuto e da nossa situação económica ou financeira. Por isso é de uma responsabilidade fundamental preservá-lo, mas também perceber em que direção se pode orientar, tendo em conta a modernidade e as complexidades atuais.

Numa palavra, Justiça, resume, num dos ensaios, o que deseja para Portugal. É o que mais nos falta?
A ideia de Justiça não pode ficar refém das ideologias. Tem que ser aplicada, vivida como uma condição de liberdade. O que fundamentalmente me preocupa são as questões da equidade, do acesso, e da reflexão que é preciso fazer e que as pessoas tendem a ignorar, porque não lhes convém olhar de frente os problemas. Refiro-me, por exemplo, ao facto de os recursos serem finitos e as despesas com os tratamentos e as tecnologias crescentes, em espiral. Atualmente mesmo com contornos abjetos. Alguns laboratórios compram patentes e isso dá-lhes a liberdade de tornar determinados medicamentos quase inacessíveis. Neste momento, estou a receber um tratamento que se tem revelado de uma enorme eficácia, mas vai custar uns milhares de euros. Haverá uma altura em que será necessário escolhermos se uns meses a mais de vida, com um custo incomportável, se justificam.

Não será uma reflexão pacífica...
Do ponto de vista ético, há muitas causas fraturantes, em que toda a gente acha que sabe e tem uma opinião segura e fundamentada, quando a maior parte das vezes é ignorante. A eutanásia, só para dar um exemplo. As pessoas não sabem nada o que representa, sobretudo na mudança quase radical no paradigma da prática médica e do entendimento da função do médico. É preciso chamar a sociedade a refletir e discutir todas estas questões. A decisão não pode ser entregue apenas a um grupo, seja ele qual for, de políticos, de governantes, da indústria ou da academia. Tem que ser um compromisso nacional. Há todo um processo a fazer de educação da sociedade portuguesa, para criar alguma literacia ética nestas matérias delicadas. Mas não, as pessoas apenas se vão distraindo, com alguma culpa dos media, quando há extraordinários desafios. Com que olhos vemos, por exemplo, as imagens televisivas daqueles barcos tão frágeis, carregados de pessoas como nós, que fogem da guerra, da fome? Talvez com uma compaixão, mas passiva. A minha preocupação moral vai nesse sentido e é sobre isso que tenho falado muito.

Em relação à sua prática clínica, fala de uma “medicina narrativa” e justamente de “compaixão”.
Os filósofos que me perdoem, mas criei esse termo, “compaixão ontológica”. Isto é, a compaixão que emerge da raiz do ser que nós somos. Fui apurando-a com a idade: um aperfeiçoar do olhar, do ouvir Foi uma surpresa, porque achava que o tempo me ia tornar empedernido.

Esse é o lugar-comum, do médico, frio, que ganha uma carapaça de indiferença.
Foi um consolo perceber que não era assim. Quando comecei a ter mais tempo para estar com cada um que me procurava, criei quase um prazer, como aquele que temos quando ficamos sentados à mesa, com os amigos, depois do jantar, do café. A consulta tornou-se uma conversa em que tentava ouvir, perceber melhor quem estava à minha frente.

Um olhar humanista?
Gosto de olhar para as pessoas. A minha mulher [Maria do Céu Machado, pediatra, diretora do Hospital de Santa Maria] até diz que olho muito [sorriso]… Lembro-me sempre de uma altura em que Sydney Brenner, uma das maiores figuras da biologia molecular, Prémio Nobel, muito ligado a Portugal, esteve em Lisboa e eu levei-o a um restaurante no Guincho com uma vista espantosa. Achei que o devia pôr num lugar em que ele olhasse para a paisagem. Ele disse-me que mar tinha ele na Califórnia e que preferia virar-se ao contrário para ver as pessoas, o povo do país que estava a visitar. Nesse olhar, mesmo em consulta, está implícito o escritor, o narrador, mesmo que não ponha nada por escrito. Mas fica guardado.

Neste livro escreve também sobre um par de amigos.
O grande filósofo Fernando Gil e um colega cirurgião, excelente, Henrique Bicha Castelo… Aproveito mesmo para dissertar sobre se dois cirurgiões podem ser amigos, ou como se sustenta a amizade em oficiais do mesmo ofício.

E não podem? É grande a rivalidade?
Os cirurgiões têm algumas características psicológicas muito particulares, pensam que estão munidos de poderes demiúrgicos e são altamente independentes. Mas vigiam-se uns aos outros e está latente um espírito de competição, de rivalidade. É muito difícil ser-lhe imune.

Diz que o filósofo Fernando Gil foi uma referência fundamental, que conheceu tarde de mais. Porquê?
É uma referência intelectual, cultural muito importante para mim, que cito frequentemente. Uma outra é George Steiner, cuja obra conheço profundamente. De alguma maneira, foram os meus maîtres à penser, pessoas que me ensinaram a pensar. O Fernando chegou realmente tarde à minha vida e partiu cedo de mais. Quando ele adoeceu, tínhamos combinado ir passar uns dias aos Alpes. As nossas mulheres iriam esquiar e nós certamente ficaríamos a conversar na cabana, se calhar a beber um conhaque…

E de que conversavam o filósofo e o cirurgião do cérebro?
De tudo e de nada. Fernando Gil era um homem de uma cultura extraordinária e costumava dizer que eu tinha algo que ele não tinha: o conhecimento das vidas. Esse era o ponto de equilíbrio. Falávamos de Filosofia, de projetos, do que fazíamos, de livros. E muitas das nossas conversas eram silenciosas.

Sobre dois livros, De Profundis, Valsa Lenta, de José Cardoso Pires, e Sôbolos Rios Que Vão, de António Lobo Antunes, escreve dois ensaios.
Diria antes que são dois comentários, que, de resto, escrevi para o JL.

Foi um interveniente ativo no livro de Cardoso Pires, já que ele o escreveu depois de ter tido um AVC e de ter sido tratado por si no Hospital de Santa Maria.
Tive nisso um papel menor. O maior foi mesmo fazer com que ele escrevesse e publicasse. Incentivei-o imenso. O meu ensaio é um pouco a nossa história: Zé, eu e o livro. Tivemos um grande contacto ao longo dos anos e guardo de Cardoso Pires algumas notas fantásticas. O outro comentário é sobre o romance do meu irmão António e foi a única vez que escrevi sobre a sua literatura. Uma obra em que ele aborda a sua experiência como doente, depois de ter sido operado a um cancro, de que felizmente recuperou muito bem.

Gosta de fazer crítica literária?
Sempre tive a tentação de escrever sobre literatura. Se tivesse outra vida, queria tirar um curso, reencarnar como um literato, mas desde que guardasse a experiência colhida como cirurgião na vida anterior.

Imagino que já voltou a pôr o despertador para muito cedo, o que estranhou não ter que fazer, quando se jubilou…
Mantive de facto uma série de atividades e aparecem-me dúzias de convites para falar aqui e ali, integrar comissões disto e daquilo. Conservei também o Conselho Nacional de Ética, do qual sou agora presidente, só o destino sabe até quando. Também um trabalho mais técnico que me pareceu importante: tentar definir os centros de referência nas várias áreas da saúde. E tenho ainda outro projeto.

Literário?
Sempre vivi para resolver problemas, de outros. A minha intervenção cívica e pública tinha esse sentido pragmático. Quando adoeci, a minha filha mais velha, Margarida [Maria João, Paula e Madalena, são as outras três filhas], também médica pediatra, começou a enviar-me um poema todos os dias, em língua inglesa, à volta da variedade do amor. Tenho-me entretido a traduzi-los.

São dos seus poetas preferidos?
Alguns da admirável Szymborska, que conheci na tradução francesa. Mas também de Robert Frost, E. E. Cummings e outros.

E está a gostar de os traduzir?
É um exercício de uma dificuldade fascinante. O meu projeto é fazer uma seleção e publicá-los, um livro chamado 50 Poemas para o Meu Pai. Evidentemente, há poesia portuguesa muito boa e sólida, mas talvez fosse interessante. É com tudo isto que me vou entretendo. A solidão pode ter uma robustez criadora, ser um refúgio.

Essencial para si?
Toda a vida. Aprecio muito o convívio, mas tive sempre aquilo a que Montaigne chamava uma sala no fundo da casa que nós somos. Tem diversas divisões, mas há uma que fechamos à chave e só deixamos entrar muito poucos. Aproxima-se muito do núcleo personalista, daquilo que é a nossa única pertença, aquilo que é verdadeiramente nosso. É isso que em parte também transparece em Ouvir com Outros Olhos. E tenho muito mais papéis por organizar. Estou ativo. Porque não posso, nem devo deitar fora uma experiência de tantos anos.