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Entrevista com Rubens Figueiredo

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Mesas redondas, visitas a/às escolas, exposições, sessões de poesia e de cinema. As Correntes d'Escritas são tudo isso, mas também sinónimo de novos romances, coletâneas de contos e volumes de poesia. Este ano não é exceção. Ao longo do encontro vão ser lançados 16 novos livros. Leia agora sobre o de Rubens Figueiredo

O AUTOCARRO DE RUBENS FIGUEIREDO

 

Às Correntes, do Brasil, chega apenas um romance, mas nem por isso passará despercebido. Vem com a marca do maior prémio do país, o Portugal Telecom, que Rubens Figueiredo ganhou, em 2011, com este Passageiro do Fim do Dia (Clube do Autor, 192 pp, 13,80 euros). E surge ainda com a força da melhor literatura empenhada, de denúncia e intervenção. Essa é, aliás, um constante na ficção deste escritor brasileiro, nascido em 1956, que mantém ainda uma intensa atividade de tradutor, nomeadamente do russo (Anna Karenina e Guerra e Paz, por exemplo). Com o fim de semana à porta, Pedro prepara-se para passar uns dias com a namorada que vive com o pai, em Tirol, um bairro periférico de Belo Horizonte. Parte com a ideia de "não ver, não entender e até não sentir". Mas a viagem força-o ao exercício contrário, olhando o exterior, o que o rodeia, e o interior, os abismos da sua alma.

 

Diz que ficou feliz com o Prémio PT porque este livro faz parte da sua ideia de que a literatura pode agregar conhecimento. Em que sentido?

A atividade literária perdeu muito da sua capacidade crítica. Conformou-se em ser uma distração, vulgar ou requintada. No fundo, aceitou ser uma mercadoria num mundo de mercadorias. Mas a verdade é que a literatura tem várias tradições e uma delas é entender a situação que está a acontecer na altura em que os livros são escritos. E nós, escritores e leitores, estamos de tal modo assimilados a um determinado padrão que parámos de questionar certas coisas. Canalizamos a nossa inquietação para outra direção e, com isso, a literatura perde relevância. 

 

Revê-se então no romance empenhado?

Existe toda uma nomenclatura que visa desclassificar esses livros, neutralizá-los. Como se pusesse esse tipo de preocupação numa esfera em que ela perde o seu alcance. Mas para quê usar palavras? A questão não é ser socialmente empenhado. A questão é: para que estamos a escrever? Qual a relevância dos livros? O que temos a dizer?

 

O que tem a dizer neste romance são as desigualdades sociais?

Escrevi este livro precisamente para tratar desse assunto. Foi uma forma de investigar os mecanismos que produzem, reproduzem e legitimam a desigualdade, mas através da ficção, com os recursos que são próprios e até exclusivos da literatura. Será também uma forma de questionar modos de ver, hábitos e experiências. Fui professor durante muitos anos numa escola pública, nas turmas da noite. Tive alunos muito pobres mas levei tempo a ter consciência da opressão em que viviam. Isso deixou-me chocado. 

 

O autocarro que Pedro apanha é uma metáfora dos desafios do Brasil?

Do Brasil mas não só. O meu país faz parte de um sistema que integra vários países. Cada um numa posição. Embora haja diferenças, o que acontece aqui é muito semelhante ao que se passa em dezenas de nações. Começa com a colonização, a urbanização acelerada, o capitalismo selvagem. Curiosamente, é o mesmo fenómeno que descobri nos clássicos russos que traduzi. Também aí se passou de um país rural para uma sociedade apressadamente industrializada. As coisas não são isoladas no tempo e no espaço. O que as une é a Historia. Por isso, o processo histórico não pode ser subtraído à literatura. 

 

O que lhe interessou no relato da visita de Darwin ao Brasil, que o protagonista lê ao longo da viagem?

Ser o contraponto do material que recolhi de uma forma direta, nas viagens de autocarro. Esse é um primeiro plano. Num segundo registo, Darwin introduz a dimensão histórica, na tentativa de perceber o que aconteceu. Ao mesmo tempo, ao observar o seu diário deparei-me com muitos apontamentos interessantes. Sobretudo que a teoria darwinista foi oportuna para o colonialismo inglês, já que a médio e longo prazo foi usada para substituir a religião enquanto explicação da desigualdade.