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Dionísio Vila Maior: Orpheu, entre Portugal e Brasil

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Olhar o momento Orpheu dos dois lados do Atlântico é uma das grandes novidades do Congresso Internacional 100 anos Orpheu, que decorre, em Lisboa, até Sábado, e mais tarde, em São Paulo, entre 25 e 28 de maio. É a repetição da "passagem de testemunho" que, há 100 anos, se deu entre a revista criada por Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros e os grandes nomes da Semana de Arte Moderna, de 1922, como adianta, ao JL, Dionísio Vila Maior, professor da Universidade Aberta, investigador do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa, maestro do Coro Mozart e presidente da comissão científica do Congresso 100 anos Orpheu.

Jornal de Letras: Quais os objectivos deste congresso?

Dionísio Vila Maior: Em primeiro lugar, homenagear as personalidades ligadas ao Orpheu. Estamos a falar de uma revista que marcou profundamente a cultura e a sociedade portuguesas e que trouxe consigo uma plêiade de escritores de grande peso. Em segundo lugar, subjacente ao congresso há a ideia de que é fundamental olhar de novo para as obras destes escritores. Nestes últimos cem anos foram feitas muitas leituras, mas diversos conceitos da crítica literária evoluíram, o que possibilita novas abordagens.

 

São também cada vez mais os estudiosos, em Portugal e no estrangeiro, a interessarem-se pelo legado de Orpheu.

É verdade - e não me surpreende. A revista Orpheu é um marco muito forte. E os escritores que a constituíram deixaram um legado importante que as comunidades académicas têm sabido interpretar e divulgar, através do discurso canónico. Além disso, também sabemos, sem qualquer desrespeito pelos outros protagonistas, do impacto que Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros têm. Tudo isto facilita a proliferação de especialistas um pouco por todo o mundo.

 

Como se organiza este congresso?

Em dois momentos. Na Gulbenkian, nos três primeiros dias, com uma índole mais académica e científica. E no Centro Cultural de Belém com outro tipo de convidados. Aí tentaremos associar, em diversas mesas-redondas, a revista Orpheu a outras áreas culturais, literárias, artísticas e científicas. A mesma filosofia está presente na última etapa deste projecto, o congresso do Brasil.

 

Como surgiu essa ligação transatlântica?

Em 2012, quando começámos a pensar nestas comemorações, ficou logo muito claro a importância da ligação ao Brasil. E posso garantir que tem sido uma colaboração muito positiva.

 

O que trará o olhar brasileiro?

A ligação à Semana de Arte Moderna de 1922, que representa o grande momento modernista brasileiro, que tem fortes ligações com o português. Na verdade, essa semana foi uma espécie de passagem do testemunho da revista Orpheu, um prolongamento das experiências futuristas europeias. Com esta ideia, quisemos, com este duplo congresso, voltar a passar o testemunho, fortalecer a ligação, destacando não só o impacto português no outro lado do atlântico, mas também as figuras brasileiras que estão presentes na revista Orpheu. Aliás, este abraço luso-brasileiro prolongou-se, com influências múltiplas, ao longo do século XX. O congresso é mais um passo nessa história comum.