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Há coisas que nos obrigam a beliscarmo-nos para termos a certeza de que estão a acontecer. A descoberta nos EUA, por parte de testes da Agência de Proteção Ambiental, de que a Volkswagen tinha inventado um dispositivo eletrónico e informático para simular uma eficácia no cumprimento da legislação ambiental que realmente não existia, pertence a essa categoria. 

Viriato Soromenho Marques

Há coisas que nos obrigam a beliscarmo-nos para termos a certeza de que estão a acontecer. A descoberta nos EUA, por parte de testes da Agência de Proteção Ambiental, de que a Volkswagen tinha inventado um dispositivo eletrónico e informático para simular uma eficácia no cumprimento da legislação ambiental que realmente não existia, pertence a essa categoria. 

Não se trata de um engano menor, mas de uma manipulação imoral e criminosa em escala global. 

Estamos a falar de 11 milhões de viaturas (e não sabemos tudo!), alimentadas a diesel, que emitem para a atmosfera até 40 vezes mais poluentes do que os legalmente autorizados pela legislação. Tal é o caso das emissões dos óxidos de azoto (NOx). 

Estamos a falar de uma empresa bandeira de um país que se orgulha do espírito inovador e do pioneirismo ambiental da sua indústria automóvel. Estamos a falar de uma empresa semi-pública (20% do capital pertence ao Estado federado da Baixa Saxónia), respeitada em todo o mundo, com mais de meio milhão de trabalhadores em todo o planeta. 

Este dispositivo eletrónico, que visava apenas maximizar os lucros à custa de uma catástrofe ambiental em movimento (no sentido mais estrito), só poderia ter sido concebido e autorizado ao mais alto nível, com o envolvimento das chefias superiores. Não foi por acaso que Martin Winterkorn, o CEO, se demitiu. Mas o arrependimento da empresa fica igualzinho à honorabilidade de um ladrão de ourivesarias apanhado em pleno delito. Para pior. 

Mas, no fundo, sou um ingénuo. No cimo das nossas erodidas democracias habita gente muito pequenina e venal, a quem não compraríamos um carro em segunda mão, que apenas pensa em ganhar a qualquer custo a eleição seguinte. Como nos poderíamos admirar que aqueles que os têm no bolso, os donos do poder económico, aqueles que lhes compram as leis e os favores, fossem melhores do que eles? 

O pior é que, no fim desta sinistra história, serão os trabalhadores da linha de montagem a pagar, pois, também com as marcas de automóvel, a confiança é muito mais fácil de perder do que reconquistar.