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Lídia Jorge em boa companhia...

Crónicas

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É o sentido de liberdade e dignidade que representa a força anímica e axiológica de Lídia Jorge, que ombreia com o que de melhor o mundo literário apresenta

Guilherme D'Oliveira Martins

As culturas da língua portuguesa afirmam-se um pouco por toda a parte, pela sua diversidade e projeção universalista. E, naturalmente, as literaturas que se desenvolvem neste campo suscitam atenções. Há uma criatividade multifacetada. A vida, o sonho, os encontros e desencontros, a ironia e a tragédia coexistem. Há pouco, isso foi salientado, quando Mia Couto obteve o Prémio Camões. E pode dizer-se que vivemos uma circunstância em que Portugal, o Brasil, Moçambique, Angola e as diversas expressões culturais e literárias da língua comum merecem interesse e curiosidade - e, mais do que tudo, reconhecimento. As letras estão vivas, o espírito exprime-se.

Recusando qualquer lógica paternalista (e todos nos lembramos dos bons alertas lançados por António Tabucchi), a verdade é que há várias culturas da língua portuguesa, que se afirmam na sua heterogeneidade e aí está a sua força. A vida literária recebe esse influxo criativo, que tem de ser compreendido como um valor capaz de suscitar vários caminhos e múltiplas formas de significar as identidades, como realidades complexas e abertas.

O último número de Le Magazine Littéraire (agosto de 2013) é dedicado a "Dez grandes vozes da literatura estrangeira". A revista apresenta um dossiê onde se fala dos autores mundiais de referência. Este ano, Lídia Jorge é um dos autores em destaque, com presença na capa. Maria Graciete Besse salienta, com inteira justiça, que "a escrita de Lídia Jorge se caracteriza por um movimento de disseminação que faz evoluir o leitor através de uma notável experiência do tempo quebrado. Com efeito, o estudo da configuração temporal nas suas narrativas revela amiúde a invenção de um modo de narração não linear que, longe de abolir o tempo, condensa-o em poesia e espessura. Toda a sua obra distingue-se pela articulação sustentada do sensível e do inteligível, o que permite reconfigurar a experiência temporal e transmitir uma maior compreensão do mundo, graças à representação axiológica das experiências humanas".

Aqui está, de um modo sintético, o que podemos encontrar num percurso intelectual e literário feito com muita segurança e grande seriedade, pondo o talento ao serviço do espírito. Para mim, O Dia dos Prodígios foi a primeira revelação, porque, como tenho dito, reencontrei aí a minha infância, o imaginário das gerações e a força das raízes da terra. "Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave"... E assim foi. E eu sei que Vilamaninhos só existe nos nossos sonhos...

Ao lado de Lídia Jorge estão nesta escolha: Zadie Smith (1975), autora britânica, cronista da mestiçagem londrina; Richard Powers (1957), escritor norte-americano de Ilinois que se interroga sobre a tensão que o progresso sempre comporta entre o passado e o futuro; Mo Yan (1955), romancista chinês, prémio Nobel da Literatura (2012), em busca das raízes da sua cultura antiga; Alice Munro (1931), uma canadiana que faz da narrativa a procura dos enigmas através de parábolas; Orhan Pamuk (1952), prémio Nobel da Literatura (2006), extraordinário cronista da cidade de Istambul e um dos mais fecundos escritores contemporâneos; Laura Kasischke (1961), do Michigan, uma fascinante autora para quem o tédio se combate com o fantástico; Enrique Vila-Matas, escritor catalão sobre quem se disse (e bem) que é um cultor da geografia da vertigem; John Irving (1942), um veterano norte-americano, para quem a intriga é a matéria-prima do romance, na tradição dos clássicos, do movimento dramático de Shakespeare à circunspeção de Ibsen, segundo uma educação literária que salta do século XIX para o XXI; e há ainda Arnaldur Indridason (1961), um islandês inesperado, cultor absoluto dos acontecimentos banais, para compreender a substância de que é feita a vida.

Os nomes todos são de primeira qualidade. Lídia Jorge está em muito boa companhia e com inteira justiça. Maria Graciete Besse acrescenta: "Mesmo se não tem intenção política, religiosa ou filosófica, Lídia Jorge manifesta claramente o desejo de testemunhar, revelando uma perspetiva lúcida e responsável que responde com rigor ao apelo do mundo que a rodeia. Os espaços privilegiados nos seus romances - o Algarve, Lisboa e Moçambique - formam um triplo eixo, resultante da confrontação de olhares e sensações, mas também do cruzamento dos tempos e dos sentimentos, que, entre lirismo e ironia, procedem à releitura crítica do real".

Seguindo o percurso da obra da romancista, encontramos na diversidade de temas a exigência da interrogação da singularidade - entre as origens rurais e a inserção urbana, entre a vida vivida e a vida adivinhada. Poderia falar da importância da Costa dos Murmúrios, de O Vento Assobiando nas Gruas ou ainda de Combateremos a Sombra, onde a maturidade se vai afirmando, sem fugir à dificuldade dos temas. No entanto, O Vale da Paixão (traduzido em França como La Couverture du Soldat) tem uma intensidade muito especial, que lhe dá um lugar central na obra da romancista e na literatura contemporânea.

Pierre Léglise-Costa compreende bem a influência mediterrânica das luzes do sul e das brumas que incitam ao drama e à nuance, que convidam a ouvir as melopeias femininas e a ficarmos de sobreaviso com Ulisses sem deixar de gozar a sua beleza encantatória. E é este sentido de liberdade e dignidade que representa a força anímica e axiológica de Lídia Jorge, que ombreia nesta escolha de Le Magazine Littéraire com o que de melhor o mundo literário apresenta.

E inesperadamente, percebemos que os temas da identidade, do cosmopolitismo e da globalização têm uma importância que ultrapassa as fronteiras e pode ir do Algarve até Istambul. Orhan Pamuk perante as incompreensões diz: "Sou um escritor votado a tratar da globalização". E depressa percebemos que procura o irrepetível na sua cidade. O mesmo se passa com Lídia Jorge ou com Zadie Smith. E se tantos viajantes falam de uma estranha proximidade entre Lisboa e Istambul, eis que Pamuk nos deixa duas pistas misteriosas e fascinantes. Por um lado, lembra a melancolia, que é uma tristeza não necessariamente negativa, a que em Istambul se chama hüzün, muito semelhante à nossa saudade com um certo misticismo (a que o escritor resiste); e por outro lado, o maior poeta turco que melhor soube entender esse sentimento foi Yahya Kemal (1884-1958), embaixador da Turquia em Lisboa de 1930 a 1932. "O problema dos escritores e poetas de Istambul é ficarem divididos entre o sentimento da comunidade que proporciona o gosto do hüzün, e a descoberta pela leitura dos livros ocidentais...".