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Resiliência, crónica de Patrícia Portela

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Mas então diga-me o qué-que-hei-d’eu fazer, menina? Então ele não chegou ontem de novo bêbado a casa? Eram já aí umas 4 da manhã? Os euros todos as caírem-lhe dos bolsos, as calças a caírem-lhe p’lo rego abaixo, os atacadores desapertados, um bafo a macieira que não se aguentava, todo descomposto? E todos os dias é isto, o desgraçado já não sabe viver desde que voltou

Patrícia Portela

Mas então diga-me o qué-que-hei-d’eu fazer, menina? Então ele não chegou ontem de novo bêbado a casa? Eram já aí umas 4 da manhã? Os euros todos as caírem-lhe dos bolsos, as calças a caírem-lhe p’lo rego abaixo, os atacadores desapertados, um bafo a macieira que não se aguentava, todo descomposto? E todos os dias é isto, o desgraçado já não sabe viver desde que voltou. E o que quer que faça? O que faço sempre. Aí pelas cinco, quando acordei, vim cá fora dar de comer às galinhas e lá o encontrei, aqui mesmo à porta de casa, a dormir no carro. Ainda salvei aí uns 400 euros que lhe tirei da carteira e escondi no avental, arrastei-o até casa, que eu já não aguento com um peso morto e nem trocamos palavra. Meti-o debaixo de um duche de água fria, dei-lhe uma mantinha e uma almofada e mandei-o dormir ali no sofá da sala, que eu cá não quero bêbados a dormir ao meu lado. No dia seguinte andava aí atordoado, que não sabia do dinheiro, que tinha recebido tudo ontem, nem imagina o forrobodó que praí foi, atirava com as cadeiras por todo o lado à procura do envelope, ai mulher, dizia ele, que me roubaram o envelope, atirou com o retrato do pai ao chão, partiu-me o espelho da entrada, chamou ladrões à vizinhança toda, mas eu deixei-me estar caladinha e ainda lhe chamei de mentiroso e ainda lhe preguei uma descompostura por andar por aí bêbado pelas ruas a conduzir, que é um perigo, e não só para ele, não é, menina? E ainda lhe disse que isto de não trazer mais dinheiro para casa e andar a gastar tudo sabe-se lá em quê tinha de acabar. Eu sei que ele ganha muito mais dinheiro a limpar jardins do que me diz. Ele guarda tudo numa conta que é só dele e só me mostra o saldo da conta conjunta. Ou então gasta mesmo tudo em bebida. Ou noutras, vai-se a ver. Então não é que ele se está sempre a queixar que gastamos muito cá em casa, já viu isto? Ele sai todas as noites e eu que ponho comida na mesa para todos, gasto muito dinheiro cá em casa? Era o que faltava. E fiquei com o dinheiro sim, senhora, dá-me imenso jeito para pagar as consultas do meu mais novo e pelo menos este ele não gasta onde não deve. O meu marido anda sempre tão desvairado quem nem sabe nada do filho. Mas eu também não quero que ele saiba que desate praí aos gritos com o meu Manel, nem que saiba que ele vai ao psicólogo duas vezes por semana a Coimbra, se não dá-lhe cabo do juízo. O homem é muito antigo e acha que isso de psicólogos é para malucos. Nem sabe como ele está muito melhor, o meu filho, desde as consultas. E eu, menina? E eu. Eu já não ganhava para pagar as botijas de gás que ele me gastava por dia a tomar banho, eram horas e horas ali fechado na casa de banho, a lavar-se, a lavar-se, depois vestia-se, abria a porta da casa de banho e voltava lá para dentro para lavar as mãos que já estavam sujas de ter tocado na porta. Há aí dias que sair de casa é um inferno, nunca está limpo, tudo tem de ser lavado outra vez, nem sabe a aflição que tem sido. E o pai não o entende, não se dá com ele. É uma desgraça, aqueles dois não se entendem, eu até já me organizo para sair de casa com o miúdo para não estarmos cá quando o pai chega à hora do jantar, senão é para aí uma gritaria que nunca mais acaba. Mas também, como poderiam entender-se, não é?
Este regresso do meu marido a Portugal correu muito mal, sabe, foram muitos anos lá fora a trabalhar na construção, já não temos nada em comum. E o mundo aqui também mudou muito, não foi? E ele não aceita, percebe? Quer aquela coisa de marido e mulher e de quem manda aqui sou eu, o jantar e a roupa lavada, e uma pessoa já não está para aí virada, Portugal já não é o que era, e ele não sabe disso. No início ainda vivemos os dois na Alemanha, mas depois eu engravidei e achamos que era melhor eu vir para cá, está a ver? Achamos na altura que não era vida educar as crianças assim numa camarata, tudo sem condições, a trabalharmos os dois 6 dias por semana, pensávamos que seriam só mais uns anitos. E agora, ele habituou-se aos companheiros e à aguardente e eu já estava habituada a viver aqui sozinha, compreende? Tinha cá os meus horários, a minha vida, as minhas amigas, já não tenho idade agora para mudar tudo outra vez, estas coisas, parece que não, mas fazem diferença, não é? Fui eu que eduquei os nossos filhos sozinha, fui eu que fiquei com eles quando estavam doentes, fui eu que escolhi os azulejos todos desta casa, fiz ali aquele anexo para os meus trabalhinhos de costura, não está bonito? Tenho ali uma marquise muito agradável com uma vista bonita, vem cá a dona Ermelinda e a dona Betinha todas as terças feiras fazer um chazinho, a menina até as viu sair daqui noutro dia quando veio cá pedir para lhe apertar o vestido. Olhe, até comprei esta fritadeira agora, no mês passado, com os pontos todos que ganhei ali no lidle e olhe que beleza que estão estes pastéis de bacalhau de que a menina tanto gosta, quer mais um? Pois é… o tempo passou, e o que a gente queria antigamente já não é o que a gente quer agora. Eu sei que a menina me está sempre a dizer que eu deveria ir-me embora, que tenho direitos, que devia dizer o que penso, separar-me e não sei mais o quê, essas coisas modernas que vocês fazem agora dos direitos da mulher e pela independência e até acho muito bem, e não pense que o meu marido me bateu que isso é que ele não se atreve que levava logo a dobrar de volta e ele sabe. Mas no meu caso, vou separar-me para quê? Ia agora largar a minha vida de um dia para o outro? Dizer-lhe que me vou embora e ainda ia ter de aturar o meu marido furioso e bêbado a partir tudo o que eu construí sozinha enquanto ele andava lá for a e a seguir a dizer que era tudo dele? Nem pensar nisso é bom, menina. Eu noutro dia fui com ele ao médico e lá no centro de saúde a Doutora Ana foi muito clara e avisou-o: aquilo por dentro já está tudo entupido até cá acima, tudo avariado. A avaliar pelos exames e por aqueles valores todos lá no sangue, lá aquilo das globinas e dos gamas dos fígados e dos rins, o meu marido se não se cuida não chega ao verão.
Já foram 40 anos deste inferno, menina, eu cá sei como tenho de carregar esta cruz até ao fim. Mais um ano, menos um ano não faz grande diferença. A minha mais velha está encaminhada, a casa está construída, o meu manuel está melhor, eu ganho com os meus arranjos e os meus biscates, o resto? Pode esperar.J