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Cabo Verde e a cidadania lusófona

Crónicas

Cabo Verde é absolutamente central, essencial e emblemático na construção da comunidade dos que têm a ligá-los uma velha bela língua, de par com muita história e cultura comuns

De novo em Cabo Verde, para o Encontro de Escritores promovido pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), e nesta 8ª edição, como na anterior e na próxima, também pela câmara da Cidade da Praia. E uma vez mais sentir o país e o povo tão amigos, tão afetuosos e próximos de nós. Uma vez mais ter a certeza de que Cabo Verde é absolutamente central, essencial e emblemático na construção da comunidade dos que têm a ligá-los uma velha bela língua, de par com muita história e cultura comuns.
Uma comunidade que para ter uma identidade própria tem de assentar nisso que especificamente nos une ou liga. Bem como no reconhecimento, em plano de total igualdade, da individualidade de cada um. No respeito integral por todas as diferenças, que devem ser encaradas como fator de enriquecimento, com a abertura e a clarividência para em diálogo as ultrapassar e chegar às indispensáveis plataformas de entendimento.
De novo em Cabo Verde, com uma democracia que devia constituir exemplo para toda a África. De novo ouvindo da parte do seu Presidente, Jorge Carlos Fonseca, e do seu governo, correspondendo ao sentimento dos cabo-verdianos, palavras certas e promissoras. Designadamente sobre a até agora a tantos títulos malograda CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), isto é: sobre a importância que deve ter e a vontade de lhe dar um novo impulso a partir do momento em que na próxima Cimeira, em julho, Cabo Verde assumir a sua presidência.
Cimeira a partir da qual também Portugal, pela primeira vez, terá o secretário-executivo, criando-se por isso uma feliz conjugação e oportunidade para dar nova vida à Comunidade – ou, melhor, a “vida” que nunca chegou a ter face às melhores expectativas dos que desde o início a defenderam e por ela pugnaram, entre os quais nos incluímos. Conjugação, porém, reconheço, agora afetada pelas dificuldades de Angola e pela dramática situação no Brasil.
Abordando este tema, meses atrás sublinhei a minha convicção de que a escolha de Portugal para aquele cargo deveria recair em quem tivesse “provas dadas de militância nessa ‘causa’ e capacidade para por ela lutar, trabalhar.” E citava, em concreto, o exemplo da UCCLA, como organização que ao longo do tempo tem dado tais provas, circunstância bem conhecida do primeiro-ministro António Costa, até como ex presidente da Câmara de Lisboa, que a fundou e sedia. Mas o governo anunciou que esse secretário-executivo será Francisco Ribeiro Telles, atual embaixador de Portugal em Roma.
Trata-se, pois, de uma opção muito diferente da que aqui propugnei, por um diplomata (prestigiado) e não por alguém que conheça bem o terreno, nele tenha atuado e se imagine capaz de tentar dar, com coragem, uma grande volta a uma “casa” que por vezes parede dominada pelos que por ela têm pouco apreço e até acham que nela cabe a Guiné-Equatorial! Uma opção, na minha interpretação mais otimista, pela vertente da “concertação político-diplomática”, uma das finalidades da organização, no pressuposto de que ela não excluirá outras batalhas e por essa via se poderão até obter melhores resultados.
Veremos. O que espero e desejo é que a “lição” e os propósitos de Cabo Verde, que devem ser também os de Portugal, venham a fazer caminho e impor-se. Não se ficando pelas flores de retórica e pelas eternas justificações para, no essencial, não fazer nada – para lá de alguns “negócios”, ou se calhar nem isso… E sem esquecer um objetivo maior, último, a que António Costa em tempos se referiu e agora em conversa informal o Presidente de Cabo Verde também lembrou: a cidadania lusófona, com tudo que daí deve decorrer.