Jornal de Letras

Siga-nos nas redes

Perfil

Homem do Leme : Lisa II

Crónicas

A sua existência virtual estava ao rubro. Desde que assumira a identidade de Lisa Paris, e publicara umas quantas daquelas fotos que encontrara por acaso num túnel de um subúrbio, que a sua popularidade não parava de crescer.

A sua existência virtual estava ao rubro. Desde que assumira a identidade de Lisa Paris, e publicara umas quantas daquelas fotos que encontrara por acaso num túnel de um subúrbio, que a sua popularidade não parava de crescer.

Já atingira quase cinco mil amigos, mesmo descontando aqueles que, por comportamento indecoroso, se forçara a desamigar. Lisa era bastante atraente. E os homens adoravam colocar-lhe likes por baixo do decote das fotografias. Enquanto eram likes ainda vá que não vá. Mas alguns, talvez por confundir ordinarice com galanteio, inundavam-lhe a caixa de comentários de piropos, por vezes bastante indecentes, para não falar das mensagens escritas em que tentavam a sorte através das mais diversificadas estratégias. Enfim, isso até o divertia...

Eduardo demorou algum tempo a perceber como lidar com a virtualidade de Lisa. A sua masculinidade nada ajudava. Mas, com a constante releitura do rol de cartas encontradas, ia aos poucos construindo uma personalidade, um perfil, que talvez não correspondesse exatamente ao de Susana (a verdadeira dona das cartas), mas sim ao de Lisa, essa personagem virtual construída por si através de toda aquela correspondência. Lisa não era de dar demasiada conversa a estranhos, mas também não era azeda nem indelicada e até gostava de ser cortejada até a um certo limite. Enfim, dependendo da qualidade do cortejo, ou cortava de imediato, ou deixava que a coisa avançasse, nunca deixando resvalar para o cenário de encontro físico, até porque tal nunca poderia acontecer, uma vez que a verdadeira Lisa Paris, era um rapaz macambúzio e desabotoado chamado Eduardo Rocha.

Eduardo tornava-se cada vez mais obsessivo e, aos poucos, ia-se transformando em Lisa, ainda que o espelho o desmentisse, e o obrigasse a um constante exercício de metamorfose entre a existência real e virtual.

Um desses dias recebeu uma mensagem que o deixou gelado, um ataque à sua existência bipolar. Dizia: "Susana, passei oceanos de bytes para te encontrar. Como haveria de descobrir que te escondias sob a identidade de um nome tão absurdo como Lisa Paris? Reconheci-te logo quando, por acaso do destino, a tua imagem surgiu nas sugestões de amizade. Fiquei contente por tu não me bloqueares, julgo que isso significa alguma coisa, ou pelo menos dá-me esperança. Peço-te, imploro-te, encontra-te comigo uma vez que seja, para que eu tente perceber e explicar tudo o que se passou. Mato-me se não o fizeres".

O primeiro impulso de Eduardo foi ignorar a mensagem e bloquear o remetente. Mas sentia um certo fascínio por aquela homem que conhecia do molhe de cartas alheias. Numa atitude imponderada, marcou encontro para um centro comercial na periferia e sentiu-se emocionado, como quem está prestes a viver uma intensa história de amor.

  • Homem do Leme: Lisa

    Crónicas

    O mural no Facebook mal disfarçava o facto de ele se ter tornado um homem solitário e desinteressante. Os amigos eram escassos, mesmo os falsos, e não tinha estatuto para ter inimigos