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Homem do Leme: Tinder

Crónicas

Foi no Tinder que demos o primeiro beijo, Chama-me sentimental se quiseres, mas conservar-te-ei para sempre no meu mural.

Agora que encontraste o amor da tua vida (as palavras são tuas, nunca diria isso de mim próprio), peço-te encarecidamente que apagues a tua conta. Eu sei que o Tinder, ao contrário do que dizem por aí, não serve apenas para relações fortuitas, encontros noturnos, paixões de usar e deitar fora. Eu sei que muitos utilizam o Tinder de forma séria e compenetrada, à procura de algo duradouro e profundo, ou com o descomprometimento de quem se senta na esplanada do café do bairro e trava dois dedos de conversa com os clientes que por lá passam. Claro que o Tinder não é feito só de tarados e corações levianos em busca de aventuras. Se assim fosse, como é que eu te teria achado por lá? E como tu me terias achado a mim?
A nossa história virtual tem os contornos de um poema de amor, é história de príncipes e princesas, daquelas que acabam em "e foram felizes para sempre". Lembra-me o dia em que o meu pai pediu em namoro a minha mãe, o dia em que o meu avô pediu a mão à minha avó. A essência mantém-se. A diferença é que estamos no século XXI e as pessoas já não se encontram em bailes ou bancos de jardim, mas sim nas redes sociais. Mas agora que me encontraste, agora que eu estou aqui, em carne e osso, em pele e cabelo; agora que, sobretudo, que eu te encontrei a ti, vamos fechar as nossas contas. Todas as redes se tornam supérfluas perante a presença física. Vem viver comigo para uma ilha deserta de tecnologia. Sem sombra de wifi, sem estranhos que virtualmente se embelezem para desviar a nossa atenção, sem perigos avulsos de nos interromperem. Não há emojis que se assemelhem ao teu rosto, não há lol que ria como tu ris. Apaga a conta e vem, eu espero por ti no lado concreto do espelho.
[...]
As tuas palavras comovem-me e fazem-me corar. Depois de as ler, fiquei com a certeza de que maior é a minha sorte de te ter encontrado. E aceito de coração aberto o teu desafio de príncipe encantado. Embora lá ser felizes, como os pais dos nossos pais. Sei que o meu lugar é junto a ti. Contudo, o que me pedes provoca-me o maior aperto no peito, que me queima a alma. Contaste-me a história de amor dos teus pais e dos teus avós, mas não compreendes que o Tinder é o jardim onde passeámos de mão dada. Fechá-lo seria o equivalente a implodir o parque, com bancos, recantos, árvores, flores, lagos, patos... Como é que te atreves a sugerir uma coisa dessas? Como ousas apagar as nossas memórias, a história de amor que tanto elogias? Vais mesmo pôr um delete no smile que eu te enviei quando disseste que gostavas de te encontrar comigo novamente? Foi no Tinder que demos o primeiro beijo. Chamam-me sentimental se quiseres, mas conservar-te-ei para sempre no meu mural