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Os Gatos não têm Vertigens, de António-Pedro Vasconcelos

Cinema

Talvez seja exagero dizer que António-Pedro Vasconcelos deixou de fazer cinema nos anos 80, depois d'O Lugar do Morto, ou, para os mais condescendentes, nos anos 90, depois de Aqui d'El Rei. Mas uma coisa é certa: há uma mudança de atitude perante a sétima arte a partir de Jaime (1999). Não sabemos se por estratégia de sobrevivência se por convicção, há uma tentativa de aproximação ao grande público, com um cinema mais comercial, com uma estética próxima da televisão. Caminho, de resto, semelhante ao que tem sido percorrido por Joaquim Leitão, com filmes melhores e filmes piores, mas sempre experimentando os géneros, do thriller à comédia romântica, encontrando-lhes um espaço próprio no cenário e no curto panorama português.

Talvez seja exagero dizer que António-Pedro Vasconcelos deixou de fazer cinema nos anos 80, depois d'O Lugar do Morto, ou, para os mais condescendentes, nos anos 90, depois de Aqui d'El Rei. Mas uma coisa é certa: há uma mudança de atitude perante a sétima arte a partir de Jaime (1999). Não sabemos se por estratégia de sobrevivência se por convicção, há uma tentativa de aproximação ao grande público, com um cinema mais comercial, com uma estética próxima da televisão. Caminho, de resto, semelhante ao que tem sido percorrido por Joaquim Leitão, com filmes melhores e filmes piores, mas sempre experimentando os géneros, do thriller à comédia romântica, encontrando-lhes um espaço próprio no cenário e no curto panorama português.



Os Gatos não têm Vertigens, onde assuntos sérios são tratados com uma leveza fluida, não se enquadra na categoria de comédia romântica, tão pouco de thriller. É uma história de vida, mais próxima de Jaime do que de Call Girl ou A Bela e o Paparazzo, até porque reincide na vasta temática da adolescência. O que o filme tem de melhor é a forma como evidencia, em pano de fundo e de forma absolutamente transversal, a questão da crise. Não é uma crise generalizada, é mesmo esta que os portugueses vivem e sofrem. Está presente nos pormenores, do vizinho que perde o emprego e é obrigado a voltar à terra, da casa que não se consegue vender, do talho que abre falência.



Essa crise é também um dos planos centrais da trama intergeracional: o rapaz abandonado por pai e mãe que não tem onde cair morto, a velhota abandonada pela família que faz de tudo para contornar a solidão. Lembra o audacioso programa que existe no Porto, em que idosos recebem estudantes universitários, alojamento em troca de companhia, um bom negócio para ambas as partes.



No plano exterior, em Os Gatos não têm Vertigens tudo rui. Sobretudo a família que está em crise, não só no sentido urbano pós-moderno - os pais não têm tempos para os filhos e mais tarde os filhos não têm tempo para os pais -, mas também no sentido trágico e 'neorrealista': o pai é bêbedo e dá pancada no filho, que rouba para viver numa delinquência forçada e vai parar a um terraço onde Rosa a trata como um gato.



Não obstante estes ligeiros traços, não há qualquer proximidade com o neorrealismo (nem o do cinema italiano, nem o mais recente do cinema romeno, tão pouco do Cinema Novo onde as primeiras obras de António-Pedro se poderiam enquadrar). Porque o realizador faz questão de artificializar este mundo real, sacando-o do domínio palpável, pois só assim entra no território da fábula. E é isso que o filme é ou em que se transforma: um conto de fadas urbano, que envolve uma história de amor platónico (Rosa substitui o marido por Jô). E assim, o pesado contexto de crise (monetária e de valores) é tratado de forma leve, com uma moral positiva e fácil, indicando que por mais trágicos que sejam os factos, há sempre uma saída limpa. Os gatos não têm vertigens porque caem sempre de pé.