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Licínio de Azevedo O pai do cinema moçambicano

Cinema

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A história do cinema moçambicano confunde-se com Licínio de Azevedo, 62 anos, um repórter brasileiro que adaptou ao cinema a vontade de contar histórias, já com vários prémios e louvores. Em exibição em Portugal, a sua última obra, Virgem Margarida, é uma das raras longas-metragens de ficção moçambicanas. O JL conversou com o realizador sobre o seu percurso e o filme

Manuel Halpern

O marxismo à moda da Frelimo estava cheio de boas intenções. No auge do furor revolucionário, em que todos os vícios eram tidos como colonialistas, as mulheres da 'má vida' foram arrebanhadas à força paracampos de reabilitação. O objetivo teórico era libertar estas mulheresdos maus hábitos impostos pelos colonos, transformando-as em mãesde família ao serviço da revolução. Na rede, sem apelo nem agravo,vieram por engano outras mulheres, que não eram prostitutas, apenas estavam no lugar errado à hora errada. Incluindo, conta-se, uma virgem,arrastada por engano para o campo, com um final trágico. 

Licínio de Azevedo descobriu a incrível e triste história da Virgem Margarida (em cartaz nas Amoreiras - ver critica no JL 1125), quando estava a preparar um outro documentário, A Última Prostituta (1999), inspirado numa fotografia de Ricardo Rangel, em que Licínio recolheu testemunhos de mulheres levadas para esses campos de reabilitação. Só que há histórias que não se podem contar em documentário. E é esse o único critério que leva o jornalista a optar pela ficção, ora em livro, ora em filme. Quinze anos volvidos, em que o maior problema foi angariar o financiamento, o filme chega finalmente às salas. 

"Não me interessa o filme político, mas sim o drama humano", dizLicínio de Azevedo, que admite ter receado que o regime se opusesseao projeto, Mas, pelo contrário, foi apadrinhado pelo Governo. "Tudoisto já se passou há muito tempo, e há interesse em contar estas histórias", diz. Outra dificuldade foi o casting: "Não há atores profissionaisde cinema. E eu tenho dificuldade em trabalhar com atores de teatro,por isso fiz os casting em grupos de dança, porque têm uma expressãocorporal diferente."

Virgem Margarida expõe a sociedade moçambicana pós-colonial em todas as suas contradições e resume o caminho do país. Aos poucos, os ideais foram deixados para trás e substituídos pela corrupção. "No filme, as militares queriam libertar as prostitutas, mas são as prostitutas que libertam as militares. Cai o Muro de Berlim quando Maria João se refere ao comandante dizendo: 'Reacionário' e de seguida 'Filho da Puta', passa do insulto políticoXpara a linguagem de rua". 

PROFISSÃO: REPÓRTER

Licínio de Azevedo nasceu em Porto Alegre, no sul do Brasil, em 1951. Envolveu-se nos movimentos estudantis dos anos 60 e dedicouse ao jornalismo, passando por vários jornais de oposição à ditadura militar. Aventureiro por natureza, percorreu a América Latina, a pé e à boleia, em busca de histórias dos povos e dos movimentos libertários de países como Nicarágua, Bolívia, Uruguai, Argentina ou México. Depois foi trabalhar para São Paulo, onde se tornou editor da secção policial de um jornal: "Era uma das secções mais fortes, porque era ali que fazíamos passar as notícias sobre a tortura e outros abusos da polícia". Acabou por ser despedido, tal como vários elementos da sua secção. 

Foi isso que o levou a marcar um novo destino. Seguira através dostelexes das agências a guerra das colónias africanas. E depois do 25 deAbril, quis seguir de perto os processos de independência.

Portugal foi uma escala necessária. Mudou-se para Lisboa em 1975,com o objetivo de chegar a Angola, mas não conseguiu visto. Contudo,através de um contacto da sua companheira da altura, Maria da Paz Tréfaut, filha de Miguel Urbano Rodrigues (diretor d'O Diário, jornal afeto ao PCP), viajou para a Guiné Bissau, com a missão de formar jornalistas, no Nô Pintcha. Por ali ficou dois anos. Aproveitou para falar com camponeses ex-combatentes do PAIGC para recolher relatos sobre a guerra, que transformou em histórias de ficção baseadas em factos reais.

Escreveu um livro, Diário da Libertação, publicado no Brasil e que chegou às mãos do realizador Ruy Guerra, que o desafiou a auxiliá-lo a montar uma estrutura para o cinema de Moçambique. Foi, assim, assistente e guionista, não só de Ruy Guerra, mas também de Jean-Luc Godard, que também quis fazer cinema em Moçambique. A coisa não correu bem, porque a política do Governo era o documentário institucional e de propaganda e Ruy Guerra tinha na mira um cinema livre, preferencialmente de ficção.

Quando a Guerra Civil começou, os intelectuais partiram, e Licínio deixou-se ficar, enquanto funcionário do Instituto Nacional de Cinema. Foi para o norte de Moçambique junto à fronteira com a Tanzânia, uma das primeiras zonas 'libertadas' do colonialismo, para recolher informação para escrever o guião de um documentário. Ficou por lá três meses. "Naquelas aldeias não estavam habituados a ver brancos, conta, mal eu chegava desatavam a fugir apavoradas gritando 'muitos brancos!' Não viam um branco desde o princípio da guerra". Foi ali que escreveu o argumento para o primeiro filme de ficção moçambicano, O Tempo dos Leopardos, produzido em parceria com a Jugoslávia. "Eles tomaram conta daquilo e fizeram à maneira deles, estragaram tudo". 

O seu trabalho era essencialmente escrever. Juntamente com Luís Carlos Patraquim produzia textos para documentários e algumas pesquisas, não só em Moçambique mas também em Angola. Ainda escreveu vários livros, incluindo Coração Forte, com histórias da Guerra Colonial. Trabalhou na rádio e em jornais, até que o Instituto de Comunicação Social o desafioua fazer um programa de televisão, o Canal Zero. E foi nesse contexto que, em conjunto com a equipa que ia formando, fez os seus primeiros filmes. No final já tinham largas dezenas de produções, documentários de 10 minutos, filmados por todo o país.

Quando acabou o projeto televisivo, cinco anos depois, Licínio de Azevedo afirmou-se finalmente como realizador. Criou uma estrutura de produção, a Ébano Multimédia, e dedicou-se ao cinema, apesar da carência de meios. "Fiz a transposição do jornalismo para o cinema, a base é a mesma - a vontade de contar histórias". Fez mais de 40 documentários ao longo dos últimos 20 anos, filmes como A Colheita do Diabo (1988), A Árvore dos Antepassados (1994), A Guerra da Água (1996), Massassane (1998) e Acampamento de Desminagem (2005). "É no documentário que encontrohistórias para a ficção, mas é a história que determina o género".

 (ver completo em versão impressa)