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Perfil

Edgar Pêra O herói por trás das câmaras

Cinema

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O que leva o herói independente do cinema português a escreverum livro sobre os meandros de Hollywood? Talvez seja porque sempreque se faz um filme, a indústria americana está sempre lá, nem queseja pela sua ausência. "Quando contamos uma história, estamosinevitavelmente a concorrer com Hollywood", diz, ao JL, Edgar Pêra.E talvez seja essa noção que o tenha levado, desde o início, a evitarcontar histórias, a tentar encontrar um novo paradigma. O JL traçouo perfil de Edgar Pêra, o realizador irrequieto, impulsivo e indagador 

Manuel Halpern

A nossa conversa com Edgar Pêra é um pouco como os seus filmes. Está cheia de analepses, elipses, fast forward, slow motion, telas riscadas, movimentos bruscos de câmara, interdisciplinaridade, nós sem pontos, distorções realistas e não conta necessariamente uma história. Ou, como diz Godard, "Todos os filmes devem ter princípio meio e fim, mas nãonecessariamente por essa ordem". Também: quem é que disse que avida tem que ser organizada por ordem cronológica? 

Encontramo-nos na sua casa, o primeiro andar sem elevador, às Janelas Verdes. Vê-se Lisboa pela janela. Dali a pouco seria apresentado, na FNAC Chiado, a sua última aventura. Não um filme, mas um livro, com histórias dos meandros de Hollywood para cinéfilos e curiosos. Na sala, a empregada de leste, vai preparando a mesa para a ceia, é dia de festa. A tia telefonalhe a dizer que vai já apanhar o elétrico para não se atrasar. E a cadela, a mais simpática cadela do mundo, roça-se pelas nossas pernas que nem um gato e depois deita-se de barriga para cima para que lhe façamos cócegas. Não resistimos. 

Edgar Pêra é o inventor do cinema de guerrilha português, o homem do do it youself que começou num tempo em que fazer curtas-metragens era pura ficção. Escavou o seu próprio cinema, contrariando o meio e descobrindo uma linguagem. E ainda hoje está longe de conquistar o espaço que merece, sem ressentimentos é claro. Enérgico, impulsivo, ageessencialmente por instinto. Tirou a câmara dos tripés e levou-a ao ombro, mais próximo do seu olhar e dos movimentos do seu próprio corpo. "Sempre vi o cinema mais próximo da música e das artes plásticas, do que da fotografia e da literatura", diz, apesar de serem muitos os seus filmes que partem de livros, incluindo a última longa estreada, O Barão, a partir de Branquinho da Fonseca. Agora prepara o Espectador Espantado, a suatese de doutoramento em livro e em filme, bem como um documentáriosobre os Jardins de Lisboa, que foi uma "autoencomeda". 

E o livro?... Um livro de capa rosa, com Marylin a piscar o olho, Hollywood em rosa choque e o subtítulo "Estórias de glamour e miséria no império do cinema". Será o mesmo Egar Pêra de A Janela (Marialva Mix)? "Há sempreo exemplo de Kenneth Anger", lembra o realizador, referindo-se ao ícone do cinema experimental americano, que escreveu Hollywood Babylon, que revelava os podres da indústria e que se tornou um livro de referência do género.

Percebe-se rapidamente, ao ler Hollywood..., que não se trata de uma mera recolha de curiosidades do trivial do IMDB, há um acompanhamentodo fenómeno da indústria americana que vem de longe. E, sobretudo, a característica fundamental que justifica um novo livro do género, que não é informação em estado puro, mas antes uma peculiar capacidade associarideias. Hollywood... está escrito e organizado da mesma forma que Edgar Pêra realiza os seus filmes: do mudo ao 3D, mas não necessariamente por esta ordem.

"Concordo que faz lembrar os meus filmes, mas também os artigos que escrevia para O Independente", diz. O que nunca tinha ligado muito, admite, era à vida privada das figuras (exceção feita a Orson Welles). Essa curiosidade nasceu com a escrita deste volume, que foi uma encomenda d'A Esfera dos Livros (272 pp, 20 euros). "Passei a ler mais revistas,a visitar mais sites, mas sobretudo a ler livros sobre o assunto". 

O HOMEM CÂMARA

Edgar Pêra nasceu em Lisboa, no Hospital de Santa Maria, em 1960, no ano da morte do cinema (foi quando Hitchcock filmou para a televisão) e passou a infância nos Olivais. O pai trabalhava como engenheiro na TAP. "É muito minucioso, todos os dias faz o diário das coisas que fez e depois passa a limpo. Sabe a que horas lhe telefonei há 10 anos. Tem a mesma obsessão arquivista", diz Edgar. Do pai terá herdado o método e a capacidade organizativa, que torna possível o seu trabalho. Mas também um certo lado brincalhão, o não ter medo do ridículo. "O humor com alguma loucura e jovialidade", explica. A mãe, que era dona de casa, gostava de ópera e comovia-se muito. Outro tipo de cultura, mais próxima dos cânones. "Da minha mãe vem O Barão, do meu pai Manual de Evasãoou Cine Sapiens. No fundo, é um passo atrás e dois passos à frente".  

O irmão mais novo, Fernando, está ligado à música, foi agente de algumas das principais bandas do rock português dos anos 80, como os Xutos e os Heróis do Mar. O ambiente e o apoio familiar contribuíram certamente para que ambos seguissem profissões ligadas às artes. "Não havia muito dinheiro, era classe média-baixa, mas nunca me faltaram livros", recorda-se Edgar. 

Quando chegou o 25 de Abril, Edgar Pêra tinha 13 anos e consciênciapolítica. O pai era militante do Partido Comunista, desde os 17, mantinha discussões acesas com o filho, que alternava entre pequenos partidos de extrema-esquerda. "Depois do 25 de Novembro, desloquei toda essa militância para o cinema", diz. Aos 16 anos via três, quatro filmes por dia. Ia em grupos grandes para o Palácio Foz, em massa ver o que ninguém tinha visto, Godard, Eisenstein, o novo cinema belga...  

Mas o que mais cativava Edgar Pêra era a música. "O meu exemplo não era a nouvelle vague, mas sim a new wave, porque nos anos 80 a grande possibilidade do do it yourself estava nas bandas e não no cinema, as pessoas ficavam placidamente na esplanada a discutir quem é que tinha recebido o subsídio, mas não havia a atitude de pegar nas câmaras e tentar fazer de qualquer forma. Na música sim, via os meus amigos a pegar nas guitarras". Na altura era, de facto, impensável fazer um filme sem apoio, até porque as curtas-metragens praticamente não existiam. A maioria dos realizadores seguiu um percurso de técnico antes de chegar à realização. Edgar Pêra não quis ir por aí. "Não queria fazer uma carreira, não queria ir para assistente de realização durante cinco ou dez anos e depois ter a rede estabelecida de forma a que escolhessem o meu projetoquando chegassem aos júris".  

Edgar Pêra queria ter uma banda ou ser autor de BD, mas não sabia tocar nem desenhar. Sem nenhuma explicação aparente acabou por seguir Psicologia: "Sempre agi por impulso, não sabia se havia de seguir filosofia ou psicologia, e enquanto estava na fila para me inscrever, tomei a decisão", diz. "Não se pode dizer que fosse uma vocação, mas interessava-me estudar a perceção e foi esse mesmo interesse que melevou ao cinema". 

O cinema, de início nem sequer era uma hipótese. Todavia um dia apercebeu-se de que estavam abertas as inscrições para a escola de cinema e, por impulso, candidatouse. Ao princípio ainda tentou conciliaros dois cursos, mas depois, para grande desgosto da mãe, acabou pordeixar a Psicologia.  

Na escola de cinema foi colega, entre outros, de Rui Reininho, Ana Luísa Guimarães, Manuel Mozos e Susansa Sousa Dias. E teve professores como Alberto Seixas Santos, Jorge Silva Melo, João Miguel Fernandes Jorge, António Reis, Vítor Gonçalves, José Nascimento... Havia uma grande cumplicidade com os professores, no ambiente descontraído do pós-25 de Abril. A parte pior era a relação com a prática, era quase impossível acabar os filmes. "Aprendi a trabalhar com uma equipa normal, mas quando saí deparei-me com a minha total ignorância sobre como se fazem filmes".

 

(ver completo em versão impressa)