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Basil da Cunha: Sublimar o real

Cinema

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O seu cinema alimenta-se da vontade de devolver "dignidade" àqueles a quem ela é frequentemente negada. Sobretudo aos moradores do seu bairro, a Reboleira. São eles os atores dos seus filmes. E a sua fonte de inspiração. O JL falou com Basil da Cunha, que depois de três curtas multipremiadas (nomeadamente em Cannes), estreia a sua primeira longa-metragem, Até Ver a Luz. Nas salas a partir de amanhã, quinta-feira, 22 (ver texto completo em versão impressa)   

Carolina Freitas

Encontramo-nos no bairro da Reboleira, em Lisboa, para onde veio viver há cerca de seis anos. Mais do que uma casa, o realizador luso-suíço Basil da Cunha, de 28 anos, descobriu no bairro um mundo. Um mundo de pessoas "admiráveis", que tem procurado "representar" nos seus filmes. Não numa perspetiva realista. Antes partindo do real - o bairro é o cenário e os seus moradores são os atores - para "sublimá-lo", através da ficção.

É este o sentido de Até Ver a Luz, a sua primeira longa-metragem, que, depois da estreia mundial em Cannes e de ter encerrado o Curtas Vila do Conde, pode ser vista nas salas portuguesas a partir de amanhã, quinta-feira, 22 (ver crítica). Um filme entre o documentário e o género noir, diz ao JL, no qual retoma o tema da solidão e do isolamento, transversal a toda a sua obra. Neste caso, para contar a história de Sombra (Pedro Ferreira), um jovem peculiar que regressa à sua vida de dealer depois de sair da prisão.

Suíço de origem portuguesa, Basil da Cunha começou a fazer curtas-metragens de forma autodidata, aos 10 anos, quando os pais lhe ofereceram uma câmara. "Quando entrei para a Haute École d'Art et de Design de Genebra já tinha feito uma dezena de filmes", sublinha. No entanto, foi no decorrer do curso que realizou a sua primeira curta com impacto internacional: A Côté (2009), selecionada para o Festival de Locarno e eleita Melhor Curta Nacional no Curtas Vila do Conde. Seguiram-se Nuvem (2011) e Os Vivos Também Choram (2012), ambas selecionadas para a Quinzena dos Realizadores de Cannes, tendo a última recebido uma Menção Especial do Júri, e, no Curtas Vila do Conde, o prémio de Melhor Curta Nacional.

 

JL: É difícil não começar por falar do Sombra, a personagem principal. Parece ser ele a 'chave' do filme.

Basil da Cunha: De certa forma, é. Queríamos fazer um filme que estabelecesse uma ponte entre o género noir e o cinema de raiz documental que sempre fizemos. Um filme que jogasse com os códigos daquele género, mas que contasse outras coisas e se aproximasse mais das pessoas. Nunca tinha trabalhado com o Pedro Ferreira [Sombra], mas já tinha reparado nele, aqui no bairro... Eu queria contar a história de um tipo que fosse uma espécie de vampiro ou de samurai dos tempos modernos, então precisava de alguém um pouco sinistro e ele encaixava nesse perfil. 

 

Já escreveu a história a pensar nele?

Sim. Gosto sempre de ter alguém em mente quando escrevo uma história. Normalmente, escrevo já a pensar nas pessoas. Não nas suas histórias reais, mas inspirando-me na sua aparência, por exemplo. O resto é ficção. Aliás, metade do elenco são pessoas que eu conheço e que já tinha na cabeça quando escrevi o guião: escolhi-as em função das personagens que precisava. A outra metade são pessoas que encontrei no momento da rodagem, porque há sempre pessoas que aparecem espontaneamente.

O Sombra surge sempre como uma sombra, uma espécie de fantasma ou de "vampiro", para usar as suas palavras. Porquê?

Queria contar a história de um tipo que vive isolado, que é 'estrangeiro' no seu próprio meio, e que vai ser julgado por ser diferente. Alguém que está fora da sociedade. Daí o jogo entre o dia e a noite, o claro e o escuro, não só em termos narrativos como também estéticos. Trabalhámos bastante o claro/escuro para isolar as personagens daquilo que as rodeia e, especificamente em relação ao Sombra, para criar uma figura algo mítica, sublime. Também trabalhámos muito o fora de campo, para dar a ideia de uma realidade que é completamente diferente da de Lisboa no geral. A ideia de um microcosmos, de uma sociedade que só existe ali. Há no filme essa vontade de olhar um mundo que não existe fora dali. Um mundo que eu amo e admiro.

 

O que lhe interessa no género noir?

Sempre gostei, sobretudo do aspeto visual (o tom, o ambiente...). Mas este filme não encaixa totalmente nesse género, porque normalmente coloca-se um problema e promete-se uma resolução. Aqui nunca sabemos quem é que roubou o Olos [João Veiga], nem como tudo se passou, porque não é importante. O filme vai, constantemente, ao encontro de outras coisas. No fundo, quis que a linguagem visual noir servisse o propósito do filme. Queria um filme nervoso, tenso, mas com muito humor à mistura.

 

Porquê?

O humor é algo que falta quando se fala neste tipo de bairros. Não se tem em conta a complexidade humana. Está-se sempre nos estereótipos. E eu acredito que o humor é uma boa maneira de aproximar o espectador destas pessoas, e de lhes devolver uma certa humanidade. É um filme muito engraçado. Trabalhámos muito o absurdo - as pessoas que não se compreendem, que disputam, que não se escutam... E isso torna-se cómico.

 

Por outro lado, o filme explora também a solidão e o isolamento, temas que atravessam as suas curtas anteriores.

Gosto muito d'O Estrangeiro, de Camus. Tenho muito carinho por aqueles a quem o mundo negou o direito de terem um lugar. Tenho vontade de defendê-los e de transformá-los em heróis.