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Diamantino, de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt: O Diamante cor-de-rosa

Cinema

Diamantino, de Gabriel Abrantes, visto pelo crítico de Artes Plásticas, Alexandre Melo

Alexandre Melo

Primeiras obras, primeiras longas. A história da minha vida e a minha história recente do cinema português, para não falar de curtas nem de histórias mais longas, passa por títulos e nomes que se tornaram marcos: O Sangue (1989), Corte de Cabelo (1995), O Fantasma (2000) e agora Diamantino, a primeira longa de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Os autores retomam elementos de trabalhos anteriores e valerá a pena rever as “curtas” (A History of Mutual Respect ou Palácios de Pena, entre outras ) na perspetiva da procura dos materiais genéticos e processos operativos que foram colecionando e depois carrearam para a construção do novo filme.
No caso de Gabriel Abrantes importa referir que as tortuosas particularidades do seu estilo, ritmo e humor não serão alheias a uma dupla formação e trajetória artísticas nos Estados Unidos e em França, entre as artes plásticas e o cinema. Com a originalidade de não ter partido do cinema em direção às artes plásticas, como vai sendo cada vez mais comum, mas ter partido do território da arte contemporânea, a que não deixou de pertencer, em direção ao lugar do cinema, ao qual continua a ir chegando.Pedra branca, alvorada dourada, cristal negro, são expressões que me ocorreriam para referir alguns momentos maiores da minha história do cinema português. Neste caso, para falar de Diamantino, falo de um diamante cor de rosa.
Começo pelo poster. Há muito aprendi a não ler as citações elogiosas que acompanham o lançamento de qualquer filme. Abro uma exceção para Diamantino. As entidades citadas são a Variety e o Hollywood Reporter. As frases são : "Loucura total" e "A explosão de comédia mais refrescante do ano ". São frases banais mas fazem lembrar momentos perfeitos da história do cinema e da humanidade. Por exemplo Bringing Up Baby (1938), The Philadelphia Story (1940) ou Arsenic and Old Lace (1944). Sei que é sacrilégio imperdoável invocar em vão os nomes de Hawks, Cukor ou Capra. No caso de Griffith, Lubitsch ou Ford seria pecado mortal mas não me parecem aqui necessários. Todos sabemos o que o cinema foi e tendo sido continua a ser e nunca mais voltará a ser.
Ainda assim é quase extraordinário que um filme português, em 2019, me faça pensar em Screwball. "In turning the world upside down, in releasing their behavorial inhibitions, in scraping against each other, in discovering their affinities for another person through this mutual mayhem,, the men and women of these often anarchic and exhilarating movies, were in effect ‘finding themselves’ ". É uma citação de Molly Haskell na Introdução a Screwball - Hollywood’s Madcap Romantic Comedies, livro de Ed Sikov (1989) onde “Marx e Freud make strange bedfellows”.
To screw or not to screw that is the question. Shakespeare não é mencionado por acaso mas porque Stanley Cavell, em “Pursuits of Happiness” (1981), o convoca para a análise de “The Hollywood Comedy of Remarriage”, uma variante de “screwball”. As comédias perfeitas do período dourado de Hollywood são apenas uma das referências de Diamantino, um filme a todos os títulos transgéneros.
A Comédia (Dramática ?) ou Farsa (?) combina-se com a Ficção Científica, o Thriller Policial e o Cinema Político militante para abordar questões sociais e culturais de candente atualidade. Seleciono três tópicos que o filme torna objetos de questionação e crítica contundentes : o nacionalismo fascistóide (passe o pleonasmo) ; o totalitarismo heteronormativo, em relação às questões de género ; a ganância e a corrupção como expressões supremas da lei moral prevalecente. Como se estes ingredientes não bastassem, tudo se passa em Portugal, na atualidade, no mundo do futebol - arena maior das paixões contemporâneas – e no corpo perfeito (admirável interpretação de Carloto Cotta) de um jogador de elite.
Tentarei mostrar como Diamantino leva por diante as suas operações de desconstrução e subversão sem revelar os pontos nevrálgicos nem as torções do desenvolvimento da narrativa. Temos uma campanha política a favor da saída de Portugal da União Europeia evocando os mitos fundadores e pulsões xenófobas próprias do nacionalismo fascista. Neste ponto, há que reconhecer que a paródia não atinge o nível de sofisticação do espetáculo a que por estes dias assistimos na House of Commons, a propósito do Brexit. Para quem apontava os debates no Parlamento britânico (?) como modelo de clarividência democrática, deve ser perturbante, sem deixar de ser hilariante, ver tantos deputados emularem os comediantes da saudosa “The League of Gentlemen”, obstinados na defesa da sua “Local Shop”. Nem sequer faltam as falsas perucas de Boris Johnson ou as verdadeiras máscaras de John Bercow ou Jacob Rees-Mogg.
Temos transvestimo e transexualidade não como problemas – como é costume nas banalidades artísticas bem pensantes e bem intencionadas – mas como potenciais instrumentos de exercício dos prazeres da diversão, da inteligência pragmática e do aperfeiçoamento sentimental e espiritual.
Entre Rosalind e Sylvia Scarlett, entre Shakespeare e Katharine Hepburn, mais coisa menos coisa ou, se quiserem, “As You Like It”. Um Super Macho, Super Cachorrinhos Cor de Rosa e a descoberta do amor
Por fim, também temos a corrupção e a ganância como Senhoras do Mundo, reinando através de manipulações biológicas e do domínio da Internet, a Grande Pocilga Digital. Em relação a estes tópicos não quero desvendar a história nem é preciso dar exemplos reais.
Será que no fim tudo acaba em bem ou tudo é o Mal ?