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Eduardo Lourenço: Nós, a oriente do Oriente

Cinema

Fotograma do filme de João Botelho "Desse mundo já global por definição foi Fernão Mendes o novo Ulisses"

JORNAL DE LETRAS Eduardo Lourenço fala sobre a obra de Fernão Mendes Pinto, A Peregrinação, e a adpatação cinematográfica de João Botelho.

Eduardo Lourenço

De portugueses como gregos e romanos do novo Ocidente, há muito que temos o memorial mítico, ao Oriente concebido e escrito. Temos agora a nossa versão profana dessa nossa versão oriental consignada numa das nossas mais originais criações: a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. Devêmo-la a um dos nossos cineastas mais preocupados com o enigma do nosso destino descentrado de portugueses, ao autor de Conversa Acabada e Os Maias, João Botelho.
Escolhendo a Peregrinação, o cineasta, sem o querer explicitamente, acaba de ilustrar a tão enigmática versão de nós mesmos, pequeno país do Ocidente convertido, paradoxalmente, na versão de Álvaro de Campos do Oriente a Oriente do Oriente. Uma outra maneira de nos pôr no centro de um mundo que é redondo como Magalhães o navegou há 500 anos. Desse mundo já global por definição foi Fernão Mendes o novo Ulisses, não de um pequeno lago como o Mediterrâneo, mas dos Mares da China, o mais "antigo dos mares", na versão de Fernando Pessoa, onde ele será ao mesmo tempo candidato a santo e corsário, reinventando por conta própria uma rivalidade de séculos entre o Ocidente cristão e um Oriente já em parte islamizado.
Desta cruzada fora do tempo fez o autor de Peregrinação o anverso, mas também o complemento da única epopeia guerreira, a de Albuquerque, digna — na ótica desses tempos que abriam a velha Europa a candidata ao sonho de Alexandre, quer dizer, ao domínio do mundo que está acabando aos nossos olhos. E desta aventura comporá João Botelho uma autêntica ópera, de oriental recorte, no conteúdo e na forma, que podemos ler na ótica dos nossos tempos de Império findo como uma espécie de requiem, mas também como conto digno das Mil e Uma Noites, se não tivesse sido vivido e levado a cabo não só nesses mares da China, mais velhos que o Ocidente, mas em nome de imperativos de conquista real e onírica do mundo — no caso da Peregrinação mais do Império que da Fé. Ou uma inseparável da outra.
A pirataria dos mares da China não precisava de ser inventada. Era uma prática imemorial. Na ótica cristã, e com tão boa consciência como a com que António de Faria a assume, era ou devia ser puro escândalo. Ao cabo de tantos séculos o Império do Meio continua sendo o mais enigmático dos mundos. Na peugada de Marco Polo, Mendes Pinto foi menos sensível ao seu mistério que deslumbrado pela sua exemplaridade. Como se a China fosse o espelho inverso de uma Europa cristã mas aos seus olhos infiel ao seu ideal divino.
Essa contradição é assumida como uma espécie de inocência cultural singular. O herói de Peregrinação, no fundo, é duas pessoas, ele mesmo e António de Faria, o jovem fascinado por Francisco Xavier, como se o exemplo do futuro santo resgatasse a crueldade do corsário Mendes Pinto que, de algum modo, pensava estar à sua maneira ao serviço de Deus. Tudo isto faz parte do enigma e do fascínio de Peregrinação, viagem sem outra bússola que a vivência então inédita — de algum modo iniciática, após Marco Polo — de um ocidental no coração do Outro. Foi isto que João Botelho se atreveu a evocar e a ilustrar em nome de uma curiosidade fáustica que era a nossa quando estivemos na China, como se fosse também para nós o mais insólito e enigmático Império Celeste. JL