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Vamos cuspir na sopa dos corruptos!

Três Pastorinhos

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O empregado levou-o à mesa habitual. Aquela com vista panorâmica sobre a cidade e o rio. Ajeitou a gravata e sentou-se na cadeira, ignorando ostensivamente os jornais, onde ele era, mais uma vez, a manchete. Ser notícia nunca é bom quando se está no poder. E ser manchete é pior ainda. Olhou em volta enquanto colocava o guardanapo no colo e centrou-se no empregado. Hoje parecia-lhe particularmente suspeito. Desde há uns tempos a esta parte, todos os empregados de restaurante lhe pareciam suspeitos. Suprema ironia face ao que escancaravam os jornais, elegendo-o a ele como suspeito de um composto menu de fraudes de lesa pátria.  Mas neste, neste... havia algo no seu olhar que o inquietava sobremaneira. Recordava-se disto enquanto manuseava, sem grande vontade a ementa:  Como começou tudo isto? Começou com uma frase escrita na casa de banho de um dos mais conceituados restaurantes da cidade. "Vamos cuspir na sopa dos corruptos!"... Primeiro, não ligou. Mas a frequência com que ia encontrando reptos semelhantes começou a irritá-lo. "Vamos cuspir nas mousses de chocolate dos corruptos". E muitas outras, ora escritas a caneta na porta do cubículo, ora em post-its junto à retrete. Até que um dia reparou que já havia quem utilizasse um carimbo para espalhar a mensagem pelos WC da cidade. Egocêntrico por natureza e corrupto por profissão, logo assumiu que os reptos a si diziam respeito. A partir daí, não havia refeição em que ele não se confrontasse com tais ameaças. Problema agravado por ser ele gente de comida abastada, sendo certo que quem muito come, muito caga.  Procurou evitar as casa de banho, mas umas vezes sucumbia à  pura curiosidade e outras ao intestino grosso. Acabava sempre por lá ir. Ainda saltou a sopinha de alho francês, o rosbife e até o doce conventual, mas aquilo doía-lhe deveras! Em conversa com outros colegas de actividade e de governo, pois então, temeu que aquilo se transformasse num movimento. Havia até um ministro das Finanças que lhe dizia, lamurioso, que as ameaças de cuspidelas eram personalizadas. Temperadas ao detalhe.  -  "Vamos cuspir no arroz de pato dos corruptos?"... No arroz de pato? Como sabem aqueles cabrões do arroz de pato?! Aquilo é cabroagem que sabe o quanto eu me pelo por um arrozinho de pato no forno, à antiga! Havia pois que ripostar, à antiga!  - Vamos assar esses filhos da puta no forno! - grunhia o titular das Finanças. E foi o que ele procurou fazer. Convocou então uma conferência de imprensa, na qual ameaçou de prisão, por injúrias, danificação do espaço público e ameaças à integridade física do estômago, todos quantos escreviam estas sérias ameaças à comida, precisamente no local onde é suposto aos homens de bem ir aliviá-la, no conforto da privacidade.  Mas o tiro saiu-lhe pela culatra. Ou, se quisermos utilizar uma analogia muito a propósito, saiu-lhe a merda por onde devia entrar. A conferência mais não fez do que espalhar a mensagem. Publicidade gratuita. E aquilo que não passava de uma cuspidela ocasional, transformava-se, finalmente, num movimento nacional.  Certo dia, o ministro foi a Madrid, especialmente para comer uma paellazita. Aí estaria a salvo da saliva revolucionária. Qual quê?! Mesmo usando dinheiros públicos, deu por cara a viagem quando baixou as calças nos privados. Lá estava, agora em castelhano... "!Vamos escupir en la paella de los corruptos"... O que fora um movimento periférico era agora ibérico. E ele que tinha em agenda uma ronda de visitas pela Europa... Aquilo que começara nacional era já internacional. E a afronta já não constava apenas dos restaurantes de luxo. Comprovou-o num Mc Donalds, onde procurou, incógnito, comer um Big Mac, sem molhos, para não correr riscos desnecessários. A dada altura, quando foi fazer uma mijinha, lá viu, mesmo no topo do urinol, a frase: "Vamos cuspir nos Big Mac dos corruptos". A cuspidela ameaçadora havia chegado às multinacionais.   A cidade e o rio continuavam lá fora quando a sua mente regressou ao restaurante, mesmo a tempo de ouvir o empregado perguntar-lhe: - Boa tarde, já sabe o que vai querer, senhor ministro? Não lhe respondeu e dirigiu-se para a casa de banho, num passo tão acelerado que alguém menos atento diria que estava com medo de borrar as calças de fino corte. Mal abriu a porta, pôde ler, junto à latrina: "Os corruptos já comeram demasiado!"... Olhou para a frase e tentou acalmar-se. Fazer a digestão do problema. Seria uma questão de tempo. Toda esta merda seria uma questão de tempo. Até o estômago precisa de tempo para fazer merda! E isto não seria diferente! Puxou o autoclismo, ficou a olhar para a descarga de água purificadora e saiu do restaurante a correr.  Com a digestão do tempo, de facto, os corruptos voltaram a aparecer nos restaurantes, aqui e ali, onde os empregados os levavam aos lugares habituais, ainda que continuassem a parecer suspeitos. Normalmente sentavam-se na mesa com vista sobre a cidade e o rio. Mas quando apareciam em público ou na televisão a defender a sua honra ofendida pareciam todos muito mais magros.

Pastor Flores, in Contos que não contam