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Capitalismo, a luxúria canibal

Três Pastorinhos

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Uma parábola sobre o holocausto canibal que atingiu a Europa. Ou então, uma história para contar às crianças, se as quiser manter acordadas e com a luz acesa.

Pastor Pelejão

Um gourmet é um glutão capaz de moderação.

Não era esse o caso daquel obeso e insaciável rei canibal de uma tribo do centro da Europa. Primeiro começou por convocar todas as tribos rivais para um banquete de paz e prosperidade, onde foram servidas diversas iguarias, muito apreciadas pelos esfaimados canibais do Sul, de tez morena e com evidentes sinais de subnutrição devido aquilo que se chamava naquele tempo - dieta mediterrânica, que é como quem diz azeitonas com pão.

Depois dos convivas já estarem refastelados com a opípara e fraternal refeição, o que se notava pelos sons de gutural satisfação, o rei canibal mandou distribuir a conta.

Foi neste momento que o caldo começou a entornar, já que a maioria dos convivas, especialmente os das tribos do Sul, não tinham como pagar aquela pantagruélica refeição, e lavar pratos estava fora de questão.

Com um sorriso malicioso e dissimulada condescendência, o Rei canibal disse:

- Nesse caso passemos à sobremesa.

Os convivas respiraram de alívio, mas não durante muito tempo, porque se respira mal dentro de um caldeirão de água a ferver.

O rei canibal apreciou muito aquela sobremesa de povos do Sul - Têm pouca carne, mas são muito saborosos, deve ser das azeitonas.

Depois de devorar as tribos de toda a Europa, o Rei Canibal foi entretendo o dente com intrépidos exploradores africanos, com evangelizadores jesuítas (manjares da antiga alta escola canibal), mas passou rapidamente para pratos mais sofisticados da nouvelle cuisine - analistas financeiros, consultores, gestores de fundos, banqueiros, novos empreendedores e um ou outro jornalista económico, pouco apreciados pelo Rei porque amargavam na boca.

 Depois de se empanturrar com estes amouse de bouche, o glutão começou então a devorar a sua tribo até aos limites da sua capacidade demográfica.

Um dia abriu a despensa e estava mais vazia que o cofre-forte de um banco no Chipre.

Restavam então duas opções ao Rei Canibal daquela tribo da floresta negra - ou se tornava vegetariano, ou se devorava a si próprio.

Em qualquer dos casos teria de jantar sozinho.