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O Crânio de Castelão - Capítulo VII por Quico Cadaval (Galiza)

O Crânio de Castelao

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Um romance com 11 autores: os galegos Carlos Quiroga, Antón Lopo, Suso de Toro, Quico Cadaval, Xavier Queipo e Xurxo Souto, em 'diálogo' com Miguel Miranda (Portugal), Bernardo Ajzenberg (Brasil), Germano Almeida (Cabo Verde), Possidónio Cachapa (Portugal) e Luís Cardoso (Timor). Publicamos agora o VII Capítulo, da autoria de Quico Cadaval.  

Quico Cadaval

Mindelo, areia fina, peixe na grelha, aquela massa amarela e delicada com o aspecto do vómito dum menino que se desfazia na boca num surf de mandioca e camarão (que qualquer brasileiro chamaria de pirão num excesso de patriotismo alimentar) a companha da palidíssima mulata, o luar a triunfar no céu acompanhado do seu escândalo de estrelas, a mão dela como se for um animal autónomo a deixar correr as garras pela camisa suada do europeu transpirado, a bebida de limão galego com qualquer álcool que era melhor não tentar decifrar. P. relaxou-se na cadeira de palma deixando agromar na lassitude a sua barriguinha de sedentário investigador universitário. Aquela curva no abdómen era o único que estragava a romântica situação naquele restaurante da praia de Mindelo. Finalmente ele era James Bond: rapariga exótica, cocktail e uma investigação resolvida sem sofrer um rascunho. Paula (ou como hóstias se chama) deixou cair a sua olhada ocupada até aquele momento em contar estrelas na barriga do James Bond e ele, heroicamente meteu-a para dentro e avermelhou ainda mais pelo cosmético esforço. A boca da autêntica filha do Frankenstein cabo-verdiano achegou-se aveludada à orelha de P. que se dilatou como se fosse outro órgão qualquer.

-Fala-me da tua vida, pequeno.

A frase era uma vulgaridade, mas oferecia gratuitamente a oportunidade de impressionar definitivamente uma rapariga do terceiro mundo que lembrava a conferência dele nos U.S.A. como quem evoca uma ópera de Gounod. Os olhos de Paula brilhavam enquanto ele relatava a sua secretíssima missão com a inconsciência dum adolescente com crise feromônica. Caminharam pela praia de metacárpios dados. Não calou nada. A entrevista no museu dum Santiago longínquo, Sandra I, a vertigem do Porto, o Marbella constipado, a placa dental do professor, os traficantes de presunto humano, Sandra II, pesadelo, confusão, sedutor recepcionista, aventura no aeroporto de Lisboa -com ele transformado em Charles Browson- esse aveludado objecto de desejo, a caixa que nada continha de interesse, a mensagem no celular que o autorizava a regressar a casa, a espantosa semelhança de Paula com as Sandras anteriores...

Não é muito gentil que me aches idêntica a essas duas estúpidas -disse ela na ponta da praia com ciúme fingido.

P. Sorriu (modelo Bond) e inclinou-se para a beijar. Uma pergunta interrompeu o gesto de cinema. Então o meu detective conseguiu o valioso crânio.

-Não, está na Argentina.

-Merda!!!!!

A moça virou-se e foi-se com passo decidido para o único táxi que cintilava ao longe.

-Isso digo eu -decepcionou-se o galã. Sem compreender viu como o corpo de mulata sumia na penumbra tropical. Olhou-a. "Que estúpido sou, essa bunda não é de mulata. Correu, já inutilmente. O aeroporto de São Vicente era um galinheiro alemão alporizado. Aquele grupo de teutões contrataram a viagem de regresso à ilha do Sal num bimotor Fokker empurrados pelo patriotismo económico e por uma tradicional desconfiança nas pessoas de pele escura. O que provocava o pandemónio de gritos e lamentos era a comprovação de que o Fokker era uma relíquia da II guerra mundial. P. ironizou olhando para o aparato "memorabilia ahistórica". Um fleumático empregado das linhas aéreas cabo-verdianas completava em inglês uma explicação das excelências do avião: "...em caso de cair ao mar tem um dispositivo que emite um líquido repelente para tubarões". Os alemães choravam e invocavam os seus deuses nórdicos. Algum exigia uma jangada para fugir daquela ilha canibal. P. sentiu que a épica espiónica que se estragara na noite anterior na praia podia-se reeditar no pré-histórico aparelho.

-Desculpa por te ter deixado ontem tão precipitadamente.

-Oh, meu deus, estava eu disposto para subir a esse caixão voador, mas agora duvido. A tua presença só pode trazer desgraças e azares.

-Olha, que falas. Mesmo semelha que levamos 30 anos casados. Disse ela com um sorriso de ternura.

-Tenho uma prenda para ti.

Mostrou um paquete envolto em papel castanho. P. Olhou com desconfiança galega. Inspirou e fez intenção de abrir. Paula apanhou-o da mão e levou-o para a casa de banhos. P. surpreendeu-se a ver-se em reduzido cubículo que lhe lembrava as sanitas dos antigos trens Vigo-Porto. "Procede de ajuda humanitária enviada pelo governo português ao povo irmão de Cabo Verde". As mãos trementes de P. rasgaram o papel e na sua mão apareceu a eterna caixa de veludo azul, a excitação fez-lhe suar as mãos e não conseguia abrir o fecho nem reparava em que as finas mãos da menina abriam com a precisão cirúrgica as suas calças. "Uma rapariga surpreendente", pensou P. "E para tu levares uma lembrança agradável de Cabo Verde, desculpa a falta de romantismo mas resta pouco tempo para a tua partida". Introduziu o pé no lavabo e ergueu a saia de sirga. Debaixo tinha como única prenda uma pélvis de mulher de raça branca. Ao mesmo tempo cairam as calças de P. e abriu-se o fecho da caixa. Dentro havia um solitário profiláctico que não procedia do cadáver de Daniel Castelao, deixou a caixa na tampa da sanita, guardou a barriga e desabotoou a camisa de seda. "Ultima chamada para os passageiros do voo..." Cumpre despachar-se! Quis tirar o soutien de organdi negro mas não conseguiu. Ela ajoelhava-se e tirava abundante sabão líquido dum espicho. Num dedo oleado entrou pelo ânus surpreso do investigador. Procurou acomodar a postura para facilitar as intenções daquela mulher da sua vida. O pé escorregou no sabão, desequilibrou-se, instintivamente botou a mão ao soutien que se libertou com violência do corpo da rapariga, sem apoio P. caiu para atrás. Antes de bater com a cabeça contra a alavanca da porta lembrou que, quando menino, também tentara agarrar-se ao jorro de uma fonte para não cair.

Quando acordou doía-lhe a cabeça. Um preto gigante e inexpressivo mastigava uma papa que bebia dum crânio. Acompanhava-o uma kalasnikov AK-47 e uma algibeira de frechas. Uma voz feminina falava coincidindo com as mastigadas do homem. "Outro puto pesadelo. Aqui não há quem bote um canivete". Pensou aflito P.

 

 

[Resumo dos acontecimentos seguintes:

P está numa embarcação e não é sonho nenhum. A voz e de Paula: o homem é um feiticeiro e guerrilheiro que o presidente da Guiné empresta a outros líderes africanos. Foi convocado por ela para ajudar P. O guerrilheiro ao beber num crânio conhece a vida do homem que o possuiu em vida. Ele ajudará P a distinguir os crânios verdadeiros dos falsos. P insulta Paula e acusa-a de estragar-lhe a vida. O guerrilheiro desfecha uma rajada da AK-47 em direcção a Paula interpretando literalmente uma frase de P. Este atira-se a ele para evitar que a mate e na confusão os dois caem ao mar. O guerrilheiro imortal afoga. Paula apavorada tranca-se no porão da pequena embarcação e não dá por nada. P é resgatado por um barco congelador que vai cheio de galegos rumo a Vigo. No barco escutam a rádio galega: O presidente da Junta dirige-se a Lisboa para receber o crânio de Castelao, em companha da polícia autónoma que estreia fato de honra. P quer sequestrar o barco.]