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O Crânio de Castelao - Capítulo IV por Bernardo Ajzenberg (Brasil)

O Crânio de Castelao

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Um romance com 11 autores: os galegos Carlos Quiroga, Antón Lopo, Suso de Toro, Quico Cadaval, Xavier Queipo e Xurxo Souto, em 'diálogo' com Miguel Miranda (Portugal), Bernardo Ajzenberg (Brasil), Germano Almeida (Cabo Verde), Possidónio Cachapa (Portugal) e Luís Cardoso (Timor). Publicamos agora o IV Capítulo, da autoria de Bernardo Ajzenberg

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Apesar da descrição coincidente do recepcionista do Hotel Goa, fincou-se em P. a dúvida sobre a identidade daquela mulher tida por tão católica. A filha do professor, com efeito, não parecia devota de santo algum. Muito pelo contrário: ao saírem juntos do cemitério, naquele encontro que para P. era meio sonho meio realidade, o contato com sua carne revelara uma mulher bem distante de qualquer dogma.

Desde aquele momento, enxergando-a em cada rosto de mulher, sentindo por toda parte o seu perfume de flor de rosas, notara crescer dentro de si uma espécie de deslumbramento.

Caixa de veludo azul... Não podia ser uma simples coincidência, ainda mais, pensando bem, se adicionasse à menção desse objeto o detalhe do interesse da moça pela múmia de São Francisco Xavier. Claro: em algum momento alguém poderia ter trocado o crânio de Daniel Castelão por algum membro da múmia sagrada. Fazia sentido.

De volta à Pensão Universal, P. tratou de obter uma reserva de vôo para Lisboa e de lá partiria, via Indian Airlines, para o antigo enclave português. Não tinha alternativa. O próximo passo seria Goa, suas praias, suas igrejas. Até porque, mais do que qualquer outra coisa, aquela moça, agora, parecia-lhe tão misteriosa quanto o crânio do célebre médico galego morto em Buenos Aires. Desvendar a ousadia de uma seria descobrir o destino do outro -estava convencido disso.

Telefonou para tia Sara. Mais do que uma concessão, tal gesto refletia uma necessidade fisiológica de se certificar que tudo ao final das contas era realidade. Não havia sonho algum naquilo tudo. Do encontro com o professor F. no Bonaval até o olhar oblíquo do recepcionista do Hotel Goa, passando pela Pensão Universal -telefonar para tia Sara era retomar âncoras em relação a tudo isso.

Mais uma vez, ao ouvir do outro lado da linha as suas frases lamurientas, imaginou-a debruçada sobre a pia da cozinha a descascar batatas e cebolas.

-Sim, tia. Panaji. Goa. Índia. É isso mesmo...

-Você enlouqueceu, querido!?

-São os ossos do ofício, tia Sara -argumentou P., com uma pontada de sorriso pelo involuntário trocadilho.

-E o Marbella? Onde vai ficar o carro?

-Não se preocupe. Já arranjei comprador aqui mesmo no Porto. Vou vendê-lo, até para ter um pouco mais de dinheiro na viagem, que vou precisar, tia.

Ah, a tia Sara! A mesma de sempre. Incorrigível. Sempre apostara no fracasso de P. Apesar de carinhosa, apesar de ter suportado durante anos as tarefas de mãe de criação desde a morte dos pais de P. num acidente automobilístico, apesar de provedora cautelosa -apesar de tudo isso, tia Sara era mesmo incorrigível. Exigia provas de desempenho não só na escola -e agora na universidade-, mas em todas as demais áreas: da alimentação à vestimenta, da higiene à etiqueta comportamental.

Mas no final sempre emendava uma frase cujo sentido era o de rememorar a sua também eterna complacência.

-Vá com Deus, querido -disse-lhe finalmente. -Vá com Deus.

Mulherzinha contraditória!, elucubrava P.    

-Sim, sim. Vou com Deus, tia Sara. Claro que eu vou com Deus.

 

Eram sete horas da noite quando P. deixou o hotel nas cercanias dos Restauradores em direção ao aeroporto. O trânsito lisboeta, como sempre, estava infernal.  A passagem aérea no bolso do paletó, a maleta com o computador e todos os documentos -tudo em ordem. Pela Internet obtivera informações valiosas a respeito da Índia e de Goa em particular. Sabia o que queria, e convencia-se, cada vez mais, de que a filha do professor estava lá. Em segredo, como se meditasse dentro do táxi, deu vivas ao recepcionista do velho Hotel Goa do Porto.

         Se poucos dias antes imaginara ser quase impossível cumprir a missão definida por seu orientador de tese, agora uma inversão se operava. Mais uma vez ele surpreenderia os seus pares e mentores. Mais uma vez, alcançando aquilo que a maioria considera inatingível, mostraria a todos -inclusive a tia Sara- o quanto o futuro titular de uma bela cátedra universitária tinha a revelar para o mundo.

Logo após chegar ao aeroporto, obteve a informação de que seu voo da Indian Airlines estava atrasado. Partiria somente dali a três horas. "Ótimo", pensou, "assim posso me preparar melhor para a viagem".

Começou a caminhar pelas diversas alas. De minuto em minuto, como vinha fazendo desde os últimos dias, checava a secretária eletrônica do telefone celular. Nenhuma mensagem. Estava prestes a cochilar numa cadeira, ele e sua bagagem pouca, quando enxergou metros adiante uma pequena placa com os dizeres "Cyber café".

Caminhou até ali e conectou-se na web. Seu objetivo era verificar a sua caixa de entradas no correio eletrônico. Apenas uma mensagem havia, ainda não lida. Enviada apenas duas horas antes, era aparentemente longa. Abriu-a com rapidez e curiosidade. A primeira observação que fez a si próprio foi de que não havia assinatura na mensagem:

 

"Nada de Goa, senhor P. Será um erro fatal... As praias são maravilhosas... a mulher que o atrai mais ainda...  mas não se engane, não tens idade mais para isso...  Os templos e as igrejas são locais de prestígio, saborosos, promissores, onde qualquer homem digno e honrado, como o senhor, encontra paz e serenidade... mas não se engane, senhor P. Não banque o Chapeuzinho Vermelho... A vida por uma caixa de veludo azul?  Memorablia corporea, acredite, senhor pesquisador, é mais intangível do que isso... Nunca ouviu falar em pistas falsas? Nunca imaginou que certas mulheres, certas filhas, mais precisamente, podem  com o tempo adquirir a malícia dos pais e brincar com eles e seus amigos?  Sejamos práticos: o que faria um crânio como o de Daniel Castelão numa terra como Goa? Tente imaginar, senhor P. A que experiências serviria? Agora tente imaginar a Buenos Aires na década de quarenta e na de cinquenta.  Sim, agora imagine um país em que esse clima era semelhante. Imagine Copacabana, senhor P. Imagine criaturas cheias de ânsia em praias paradisíacas. O senhor, que gosta tanto de praias e parece sentir especial atração por santos, imagine a quantidade de santos e de igrejas no Rio de Janeiro. Seja um sujeito realista, senhor P. Nada se pode nutrir contra a bela Goa, senhor P. Afinal, nas mãos dos portugueses durante quatrocentos e cinquenta anos, só belas coisas poderiam Ter florescido naquela terra. Mas cobre-se coerência, cobre-se inteligência. Olhe-se no espelho. E lembre-se, senhor P. O senhor está ainda no começo, apenas no começo de uma longa jornada". 

 

Aquilo era uma brincadeira, só podia ser. Alguém procurava testá-lo, averiguar seu grau de compromisso para com aquela busca. Procurou de todas as formas identificar o remetente da mensagem. Mas foi sem êxito que efetuou a busca.

Por outro lado, pensou, tudo ali era de grande coerência. Argumentações inegavelmente irrefutáveis. De fato, não podia ceder a impulsos iniciais, juvenis, carnais. Era mais do que  coerente pensar no Rio de Janeiro.

Considerava também, no entanto, que a existência de elementos concretos -a caixa de veludo azul, os traços da sua Sandra Bullock- constituíam bem mais do que simples pistas falsas. A filha do professor certamente partira para Panaji -ele não conseguia duvidar disso. E carregava consigo a caixa de veludo.

Faltava pouco mais de uma hora para o embarque no Boeing 747 da Indian Airlines. P. tinha pouco tempo para decidir. O balcão da Varig não ficava longe dali. Ergueu-se, piscou os olhos. Sentiu o suor caindo pela testa. De repente, uma vertigem fulminante tomou conta de sua cabeça, a ponto de se ver obrigado a agarrar-se numa pilastra. E foi nesse mesmo instante que julgou ver, sim, era ele, entre as duas pilastras mais adiante, a menos de vinte metros de onde se encontrava, a figura do recepcionista do Hotel Goa do Porto. Era ele mesmo, aquele rapaz. E parecia espioná-lo, raciocinou P., como se estivesse ali a fim de se certificar de que ele, o jovem pesquisador, estaria de fato embarcando -para Goa que fosse, ou para qualquer outro lugar do mundo.

Morria de fome. Precisava encher o estômago. Na verdade, precisava parar de pensar. Pensar demais estava lhe fazendo mal. P. caminhou então, lentamente, até a lanchonete -só o fato de saber-se numa fila de caixa já lhe proporcionou algum alívio. Na sua vez, sem dar importância ao sorriso da jovem balconista, pediu com ênfase um sanduíche e um refrigerante. Efetivamente, para desligar a cabeça de seu funcionamento normal, nada melhor do que as fibras asfixiantes e imagéticas de um suculento BigMac.

          



 

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