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Crânio de Castelão - Capítulo IX por Xavier Queipo (Galiza)

O Crânio de Castelao

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P sentiu que por enquanto o enjoo medrava no seu interior e teve que sair fora. A cabeça dava-lhe voltas e mais voltas. Sentia uma ardência crescente no estômago e um desassossego que vinha dos arquivos da sua memória, em lícita associação de sensações. Nesse preciso instante uma viatura da marinha parou diante do portal. Um suboficial fardado de faina desceu arrebatado do assento.

Xavier Queipo

P sentiu que por enquanto o enjoo medrava no seu interior e teve que sair fora. A cabeça dava-lhe voltas e mais voltas. Sentia uma ardência crescente no estômago e um desassossego que vinha dos arquivos da sua memória, em lícita associação de sensações. Nesse preciso instante uma viatura da marinha parou diante do portal. Um suboficial fardado de faina desceu arrebatado do assento.

-O senhor P.?, perguntou arremetente.

-Sim. Sou eu mesmo.

-O capitão do porto, tenente Pecorelli, tem uma mensagem urgente para você. Faça o favor de me acompanhar.

Quando chegaram ao velho edifício da Capitania de Porto, tudo foram portas abertas. O suboficial levou-o à presença do tenente Pecorelli, moço ainda e de porte distinguido, membro duma conhecida estirpe de marinhos.

Logo das cumprimentos ao uníssono, normais entre gente distinguida e formal, o tenente Pecorelli tendeu-lhe um documento convidando com uma certa urgência a que o lesse na sua presença.

-É para você. Uma mensagem do Professor F., carimbada como confidencial pelo Comando Naval do Continente. O senhor compreenderá, portanto, que não possa sair fora de esta capitania, nem tão sequer deste escritório.

P. pegou nas folhas do relatório que lhe fora entregue pelo oficial e começou a ler sem delongas

 

"Caro amigo P.:

Pelo intermédio do Comando Naval do Continente soubemos das suas desgraças e da sua arribada no dia de hoje ao porto da Ilha de Pico, nos Açores. Pela presente envio-lhe telecópia do relatório e as conclusões a que chegaram os ilustres doutores membros da Academia das Ciências de Portugal logo do inquérito sobre o crânio supostamente pertencente a Afonso Daniel Rodríguez Castelao. Lamento informá-lo de que os resultados não foram tão bons quanto desejaríamos. Já estará você conhecedor das intenções do Presidente da Junta da Galiza de receber em Lisboa o citado crânio que lhes fora enviado às autoridades portuguesas desde Buenos Aires. Em quanto ler este relatório, faça o favor de se pôr em contacto comigo pelo intermédio das autoridades de marinha dessa capitania de porto. Saudações"

 

A seguir estava o texto do relatório e P., logo duma pausa para reflectir começou a leitura:

 

"RELATÓRIO DA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS SOBRE O CRÂNIO SUPOSTAMENTE PERTENCENTE A AFONSO DANIEL RODRIGUEZ CASTELAO

 

No dia 27 de Maio do ano 2000, reunida na cidade de Lisboa a equipa de investigações forenses desta Ilustre Academia das Ciências e analisado o crânio pretensamente pertencente a Afonso Daniel Rodríguez Castelao que nos fora remetido pelas autoridades do Ministério dos Negócios Estrangeiros para exame e avaliação pericial, emitimos o seguinte relatório destinado às autoridades que correspondam e a qualquer que quiser fazer uso dele:

1. Tratar-se-ia, com certeza absoluta, de um crânio humano pertencente a um espécime de sexo varão, circunstância na que concordamos todos os membros de esta equipa.

2. A análise macroscópica externa do crânio dá para pensar num individuo braquicéfalo, tendo os eixos ântero-posterior e transversal uns comprimentos de 29 e 25 centímetros respectivamente. O eixo ântero-posterior foi medido entre a base do osso occipital e o ponto médio do osso frontal. O eixo transversal foi medido entre os dois orifícios auditivos dos ossos temporais. Estas medições poderiam não ser consideradas apropriadas mas resultaram ser as mais concludentes. Fora descartado o uso dos índices de Brocca e outras medições biométricas do crânio por redundantes.

3. Nas paredes dos ossos parietais, tanto na esquerda como na direita, apareceram cabelos colados á superfície óssea. A análise destes cabelos não dá para pensar num indivíduo de raça caucasiana como se pretendera. Contudo, no estado actual das investigações constata-se que os referidos cabelos corresponderiam a um indivíduo de raça indiana da América do Sul, restando por precisar ainda se corresponder à etnia guarani ou quíchua.

4. A dentição estava quase completa notando-se somente a falta de um dos dentes pré-molares na mandíbula inferior esquerda. Alem disso, chamamos a atenção de quem isto fosse tomar como prova pericial que nem a dentição da mandíbula superior nem a da inferior corresponderam com os registos estomatológicos consultados em referência.

5. As inserções musculares deixaram traços muito marcados nas regiões laterais do osso frontal, no ramo vertical da mandíbula superior e no osso occipital. Partindo como referência obrigada destas inserções tendinosas, tendo em consideração a estrutura óssea de todo o crânio, e seguindo para isso o método descrito pelo Professor Vance da Universidade de Massachusset, chegou-se a uma reconstrução quase completa da massa muscular do finado. A estrutura das partes brandas (nomeadamente orelhas e asas do nariz) reconstruíram-se tendo em valor a largura dos cornetos nasais, a estrutura do osso maxilar superior e a orientação e configuração dos ossos temporais. Esta reconstrução (faltante ainda por completar a cor da pele e a dos olhos) permite descartar a hipótese de que o indivíduo em questão fosse de raça branca, o que concorda com as observações referidas no ponto três deste relatório.

6. As paredes inferiores das órbitas sofreram uma erosão muito intensa nomeadamente a do olho esquerdo. Isto levou a pensar que a composição das gravas no lugar do enterramento tinha uma muito alta acidez. Fizeram-se análises de flúor no conteúdo dos ossos tirando-se como conclusão que o enterramento original se teria produzido há quando menos trezentos anos. Descartou-se a presença de vermes ossíferos que puderam ser os responsáveis tanto da destruição das paredes da órbita como das lâminas crivosas do osso etmoides que também sofreram importante deterioração.

7. Analisado o conteúdo do interior do crânio destacara uma bola de terra que circundava um cristal de forma ovoide, com toda probabilidade um olho de vidro. Esta circunstância explicaria a profunda erosão numa das órbitas. Mesmo assim, tendo em consideração o mal estado das duas bases das órbitas seria muito aventurado dizer em qual delas se albergava o referido olho de vidro, que curiosamente é de cor verde.

8. As análises genéticas realizadas sobre o material orgânico encontrado no crânio não foram concludentes ao não ter uma amostra certa de qualquer substância orgânica do referido Afonso Daniel Rodríguez Castelao com a que fazer uma comparação dos resultados obtidos pelas nossas investigações.

 

Conclusões

 

O grupo especial forense da Ilustre Academia das Ciências de Portugal CERTIFICA pelo presente relatório o seguinte:

1. Existem fundamentações bastantes e concludentes para afirmar que o crânio que nos fora entregue para análise e avaliação forense não pertence a Afonso Daniel Rodríguez Castelao. Não existindo a mais mínima hipótese de que o referido crânio pudera ser de um indivíduo caucasiano de raça branca. Alem disso a fórmula dentária observada não é coincidente com a fórmula dentária do falecido registada nos arquivos consultados ao efeito.

2. Há provas que levam a concluir, sem dúvida nenhuma, que o referido crânio bem pode pertencer a um indígena da América do Sul.

3. Com certidão, e sem que pudesse existir a mais mínima dúvida, o enterramento não é recente, datando-se em trezentos-quatrocentos anos.

Por todo o anteriormente EXPOSTO e para quem corresponda analisar este caso, assinamos o presente relatório a 27 de Maio de 2000. (Seguem assinaturas dos doutores Alexandre Sousa Marques, do Departamento de Anatomia da Faculdade de Medicina de Lisboa, Josias de Mota, do Instituto de Medicina Legal, e Taviana Viterbo do Instituto de Ciências Bio-Médicas)."

P. que fora mudando de cor e de atitude perante a leitura do relatório, ficou pampo, de olhar congelado e ríctus espástico. O tenente Pecorelli preocupado pelo aspecto do seu visitante, quis tirá-lo daquele estado catatónico.

-O senhor deseja qualquer coisa? Um copo de água... um café.

P. acordou como saindo de um abismo sem fundo.

-Preciso telefonar a Lisboa. E também um café. Sim, um café bem forte.