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Crânio de Castelão - Ainda alguns esclarecimentos

O Crânio de Castelao

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-O crânio de Castelao nunca desapareceu. Nunca se moveu do Panteão de Galegos Ilustres. Nunca ninguém tocou naqueles restos em Bonaval...!  Por Carlos Quiroga (Galiza)

Carlos Quiroga

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-O crânio de Castelao nunca desapareceu. Nunca se moveu do Panteão de Galegos Ilustres. Nunca ninguém tocou naqueles restos em Bonaval...!

Assim afirmou o agora jubilado Catedrático de Medicina da USC, Doutor Figueroa, pretendendo fechar oficialmente o assunto, durante um dos vários encontros com jornalistas por parte das autoridades da Câmara e dos coordenadores do ambicioso programa, chamado 'Galego no mundo - Latim em Pó', poucos dias antes do seu arranque, no que constituía a última atuação da Santiago de Compostela Capital Europeia da Cultura, Dezembro do ano 2000.

Nessa altura, para além de o Catedrático recusar-se a qualquer protagonismo e rogar o resguardo do seu nome -negando inclusive de sorriso infantil que pudesse ser identificado com o Professor F da história, tal e como pretendia um colunista de jornal de grande tiragem, que tinha acedido privilegiadamente às primeiras páginas já existentes-, abonou a falsidade das notícias que tinham circulado meses atrás e assegurou que a agitação mediática e até a atuação do Presidente da Junta, D. Manuel Fraga Iribarne ("Um trabalhador incansável pelo bem desta terra, que generosa e coniventemente colaborou nos preparativos"), faziam parte de uma 'promoção prévia', e que, com efeito, já existiam vários capítulos sobre essa "peripécia fantástica". O crânio do 'famoso artista' estava no seu sítio ("Pode estar todo o mundo descansado, e se legalmente alguém conseguir um levantamento para comprovação forense tomaria um grande trabalho e levaria uma enorme deceção"), porque a desaparição era apenas, apenas, um argumento ficcional, insistia, e ele um colaborador quase tão entusiasta como o Presidente.

-Porque ademais a Medicina sempre foi amiga das Letras. Porque ademais Castelao foi um dos mais ilustres nomes que terá passado pelas salas da Faculdade de Medicina de Santiago.

Por isso precisamente ele mesmo tinha lançado e estimulado aquela ideia, fruto de uma conversa informal durante um jantar com autoridades da Câmara. E por isso pensou naquele ponto de partida, um pouco rebuscado, certo, talvez mesmo irreverente, pensariam algumas pessoas, mas que o próprio Castelao com o seu humor e as suas histórias de esqueletos estaria adorando desde o Céu dos 'Bons e Generosos'. E por isso, ao artista que se fez médico por amor ao pai e não exerceu a profissão por amor à Humanidade, nenhuma melhor homenagem que fabular esta busca levada a cabo por alguém que representa a nobre profissão de velar pela saúde da Humanidade, um facultativo da Medicina formado em Santiago.

-Naturalmente fictício, porque naturalmente não existe o tal P que se falou, o que está ao dispor da área de Literatura são duas espertas em ciências médicas, elas, sim, naturalmente muito reais, as licenciadas Jéssica Prado e Andreia Pereira, bolseiras da

Cátedra que me honro em dirigir, dispostas a apoiar os escritores que queiram participar no projeto para assessorar-se em matéria científica. Elas também se ocuparão de recompilar e facilitar outras informações, como geográficas, etc.

O coordenador da área de Literatura do 'Latim em Pó', visivelmente incomodado, confirmou essas palavras durante o mesmo ato, agradeceu muito a colaboração do Professor, também à imprensa por todas as notícias e referências que tinham criado uma grande apetência, e rogou a partir desse momento o final das especulações até à publicação do folhetim, que não ia demorar -seria depois do Encontro e simultaneamente em jornais da Galiza, Portugal e o Brasil, semanalmente, coincidindo com a retomada da escrita nesse instante interrompida, e logo do remate dos capítulos para a edição periódica de imediato em livro. Nessa altura poderiam facilitar-se maiores esclarecimentos. Mostrou ainda umas páginas impressas, que corresponderiam aos primeiros quatro episódios redigidos nas semanas anteriores ao Encontro, mas negou-se a facilitar cópias, como os meios pretenderam, pois um necessário arranjo final do conjunto poderia alterar essas partes. E lamentou ainda, pela mesma razão, as filtrações acontecidas.

Até aqui o que consta nos arquivos jornalísticos e na memória pública de algumas testemunhas.

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Nos anos subsequentes algum meio de comunicação ainda aludiu timidamente ao projecto até que o seu rastro ficou definitivamente apagado. Houve no entanto algumas pessoas que foram mais perseverantes e contornaram a rede conspirativa que boicotou durante mais de uma década o aparecimento dos textos e qualquer explicação complementar sobre eles. Entre essas pessoas, poucos dos escritores participantes com o seu trabalho e aquele colunista do jornal de grande tiragem já mencionado, Manuel Araújo, que até terá visto a sua carreira profissional em perigo por pretender realizar mais indagações. Só reunindo informações dispersas a partir das suas averiguações, cruzadas com diálogos inacabados e pormenores sobre algumas condutas que ficaram na memória daqueles dias, tanto na de protagonistas participantes como de público geral, que corajosamente se prestaram recentemente a dar (na maior parte dos casos, sim, preferindo o anonimato), se puderam deduzir algumas certezas sobre o acontecido. É isso que sinteticamente reunimos nestas notas epilogais.

Ao que se sabe, em primeiro termo, as duas licenciadas em Medicina, Jéssica e Andreia, uma super-loura e a outra super-morena, ambas bolseiras num Departamento da Faculdade correspondente na USC, acompanharam, com efeito, as comidas, vida social e até pretensas sessões de trabalho dos escritores, que por outro lado e de cara ao público consistiam em "cafés dialogados" num lúgubre local de copos da parte nobre da cidade, encerrados às altas horas com algum espetáculo musical ou de contadores de histórias. Só que na noite da quinta-feira 14 de Dezembro de 2000, depois do "Café do Brasil" e antes dos vários recitais em que marcava presença estelar Cláudia Campos com a sua "Antropofagia", as duas facultativas ter-se-iam mostrado algo mais tocadas pela bebida do que vinha sendo habitual, e deram por rir-se de um rapaz calado que as acompanhava. Este detalhe agora insignificante mas depois muito relevante recordam perfeitamente muitos dos presentes. O rapaz chamava-se Pedro Pancrácio. Elas gracejaram a um canto chamando-lhe de "PP2". Consta inclusive uma sarcástica frase referida ao Pedro, que foi esta:

-Pedra sobre que edificar igreja de mentira para esconder verdades!

A expressão ficou recolhida nos apontamentos de Luís Cardoso, um homem muito espiritual que sempre se mostra atento aos ecos da Bíblia -e daquilo tudo levava um diário na época. Também o Cristovão Tezza conserva uma fotografia que ele tirou ao tal Pedro, na que aparece com Márcia Denser, finalmente acompanhada ao hotel pelo desconhecido rapaz. A existência deste Pedro Pancrácio é incontestável e o seu parentesco com o "P" da história mais que certa, ainda que treze anos corridos ninguém seja capaz de saber hoje do seu paradeiro. Um discreto Bernardo Carvalho terá perguntado para o José Miguel Wisnik, na viagem de regresso ao Brasil, e tendo ouvido ao Bernardo Ajzenberg e outro brasileiro falar sobre aquele moço, como real protagonista das peripécias já escritas ou ainda por escrever, se ele sabia como dar com o Pedro. Wisnik, ignorante de tudo, teria perguntado mais tarde ao Ajzenberg e este teria respondido negativamente, garantindo que as duas bolseiras se ocuparam de filtrar as informações procedentes em origem do rapaz, nas entrevistas que mantiveram com os escritores que aceitaram participar na escrita do folhetim (como ele tinha aceitado). Mas acabado o Encontro toda relação ficara cortada e nada sabia.

Por outro lado, o Germano Almeida também teria perguntado para Odete Semedo, dois anos mais tarde do 'Latim em Pó' e em cruzamento rápido numa recepção em Lisboa, se ela ainda ia participar no 'enredo', pois tinha ideia de naqueles antigos dias de Dezembro ter mostrado tal vontade. A Odete assegurou-lhe ter-se retraído da participação, segundo as suas próprias palavras, por na altura "Ver que eram muitos os escritores, todos homens, que queriam intimar com as bolseiras", e posteriormente porque se cortará também toda comunicação com elas sem que o antigo coordenador pudesse dar explicações convincentes. No mesmo sentido se manifestaram algumas escritoras galegas, incomodadas pelo papel das bolseiras. Por contra, os homens perguntavam por mail pelas bolseiras e não queriam entender-se com o antigo coordenador. Alguns, como o próprio Bernardo Carvalho, acharam aquilo muito confuso e desde o primeiro instante se afastaram. Outros foram misteriosamente demovidos da sua inicial intenção quando contactados pelo dito coordenador. Mia Couto, por exemplo, chegou a aceitar com posterioridade e bom humor a participação por correio eletrónico, mas passados uns meses mudou completamente de opinião, depois de via Zeferino Coelho receber uma comunicação acusando o projeto de 'intriga política'. José Viale Moutinho também confirmou na mesma noite do "Café de Portugal", quarta-feira 13 de Dezembro de 2000 de que consta gravação, ter redigido já umas páginas a partir dos dados recebidos, havendo escolhido contar um breve percurso de comboio do protagonista; mas depois acabou por guardar e perder misteriosamente o arquivo, aconselhado por amigos galegos. Com vários galegos e pelo menos com uma escritora galega, por certo, aconteceu o mesmo. As incertezas e o secretismo ficaram instalados em volta do projeto e só recolhendo indícios cá e lá se podem reconstruir alguns detalhes acerca da viagem de retorno do tal PP, Pedro Pancrácio, dando por suposto que a de partida e procura do crânio (e que este evidentemente chegou a estar desaparecido) aconteceu em termos muito alterados pelas ditas intermediárias e pelos próprios escritores.

É importante acrescentar ainda que Manuel Araújo, despedido do seu trabalho de jornalista durante seis meses do ano 2001, aproveitou a expulsão de castigo para teimar em

averiguações secretas numas férias nas Ilhas Maurício. Para além de percorrer belas praias de areia fina nos lugares mais turísticos e hospedar-se em hotéis com todas as comodidades (experimentando a "lograda tentativa da natureza por criar um paraíso"), Araújo realizou pesquisas em meio a outro mundo de pobreza. Mais bem submundo, onde tudo é diferente do bilhete postal e a vida mais dificultada pela falta de eletricidade e de qualquer assistência sanitária, onde as pessoas utilizam apenas o que a natureza oferece -"Algo que pode não ter nada de paradisíaco", garantiu. Entre adultos ou crianças na busca de comida ou Rupias, em ilhas afastadas do circuito turístico, achou também o jornalista vestígios desta história, que completou noutra viagem em 2003 às Seychelles, praticando a mesma procura alternativa. Das informações ou especulações por ele reunidas, ainda que não conseguiu autorização para visitar o ilhote Agalega, fazemos neste livro mínima menção pois para além da falta de provas definitivas sobre a sua veracidade, que o próprio Araújo continua a reunir, espera-se uma grande reportagem de investigação da sua autoria que deixará tudo em claro.

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Portanto o crânio de Castelao SIM terá desaparecido. A busca da "relíquia", para evitar que o fato fosse de conhecimento público, iniciou-se com o apoio irregular de uma Cátedra de Medicina da USC. Ao mesmo tempo que se filtrava informação sobre o furto, com probabilidade procedente dos próprios sequestradores, foram postos em marcha mecanismos de contra-informação que visavam diluir o conhecimento dele. Um assessor de Fraga, não o Catedrático Figueroa, teve a fabulosa ideia de aproveitar-se do Encontro Latim em Pó e da ingenuidade de alguns escritores. Tinha sido o mesmo que conhecendo Pedro Pancrácio, por ter jogado ambos na mesma equipa da liga universitária durante a Licenciatura (o mais curioso é que chamando-se ele também Pedro, este era o conhecido por "PP" na equipa de futebol, e exatamente por essa causa Pedro Pancrácio seria depois o "PP2", quando se incorporou, mesmo sem ter nada a ver com o partido político de que sim estava próximo o outro Pedro, que acabaria por mudar-se de carreira para Direito), tinha sido aquele outro Pedro, ao que parece, quem sugerira para Fraga falar com o Catedrático amigo, e pôr em marcha uma busca urgente por fora de circuitos policiais e oficiais, servindo-se de Pedro Pancrácio.

O plano foi admitido à falta de melhor porque nada se perdia e havia margem para tomar outras medidas. Ficou ao cuidado de PP1 e foi aplicado até que as filtrações foram imparáveis, a desaparição conhecida e o crânio cada vez mais perdido. Fraga zangou-se com o assessor (e com todo o mundo) por fazer-lhe perder o tempo e por ver-se obrigado a levar o fingimento à capital lusa. Mas depois, entre aceitar de modo formal um berrantemente falso crânio e substituir por um menos estridentemente diferente do original, o problema poderia ficar mais emaranhado e só a transformação da verdade em Literatura poderia resolver de modo magistral aquilo. Foi a nova ideia de PP1. Fraga devolveu a confiança ao assessor até com certa admiração -mais que gostar do engenho de PP1 ou acreditar nas virtudes gerais da Literatura, D. Manuel viu nesta segunda proposta do assistente um gesto digno de Churchill ou Maquiavel, uma estratégia de estado, adorou e prognosticou ao rapaz uma promissora carreira ao seu lado. Com a elaboração de alguns capítulos seria mais do

que suficiente, assim que só se tratava de convencer alguns escritores antes do Encontro para arrancar, o que seria fácil. Depois, haveria que fazer exatamente o contrário, evitar que a obra coletiva prosperasse -o que seria ainda mais fácil. Nada mais simples que burlar o resto dos escritores com intoxicações e sugestões de desvios ideológicos e cortar a sua participação, e por suposto o início da edição em jornal movendo alguns fios, pois esta possibilidade poderia aliciar as vaidades para continuar escrevendo até chegar ao livro. Havia que evitar os jornais e evidentemente a transformação em volume. O coordenador da área de Literatura do 'Latim em Pó' não deixou de sentir os primeiros sinais desse estorvo, confessa treze anos depois, o que explica as evidentes mostras de incomodo patentes nas imagens da RTVG arquivadas, correspondentes àquela conferência de imprensa mencionada no início.

E é que a estratégia já estava completada no Outono de 2000 e a partir daí não era necessário fazer mais nada. Em todo o caso calar (e fazer calar) a boca. Durante o citado último festival cultural da Capitalidade Europeia, e ainda que nem escritores que nela participavam nem evidentemente coordenador da área podiam saber, tudo conspirava para gorar o inútil exercício literário em que se tinham deixado implicar antes do Encontro. O projeto não tinha futuro e eles nunca conheceriam os motivos: os egoísmos particulares, a falta de implicação de nomes importantes, avisados e facilmente afastados, e ainda o abandono de qualquer apoio editorial que prometesse suporte àquela escrita, minariam permanente e combinadamente a empresa e explicariam o seu insucesso para quem se lembrasse de porventura perguntar por ela.

Mas ninguém contava com três forças postas em jogo no assunto, por um lado os próprios sequestradores do crânio, por outro o rapaz lançado na sua procura, e finalmente os escritores já tão enganadamente metidos a contar em segunda ou terceira mão a peripécia deste. Os primeiros queriam obviamente desde o começo chamar a atenção, obrigar um olhar da Galiza para uma 'rotação na Lusofonia' (mas a intenção de levar o crânio ao Brasil foi logo evitada pela polícia e as rápidas diligências alfandegárias da Junta via Madrid), e passaram a lutar contra a desinformação e hermetismo, tratando de facilitar inclusive o achado. O segundo lembrou-se sobre a marcha do seu nome -que tanta hilaridade provocava entre os colegas quando descobriam que para além de Pedro era Pancrácio. Porque Pancrácio significa 'aquele que vence tudo'. Mas acima desse tudo, naqueles dias, tinha encontrado uma mulher, aquela Elva-Joana-Paula-Sandra Bullock tão deformada nos relatos (na realidade Eva Figueroa), que o empurrava, lhe batia com o atlas na boca e lhe pedia que fosse o seu herói, e ao mesmo tempo sem ele o saber o herói do cérebro que estava por trás do roubo. As autoridades bem podiam conformar-se com um sucedâneo de crânio, e ele também -no fundo tanto teria um como outro-, mas aquela guerreira nunca, e continuar a busca por correr uma aventura com ela valia bem a pena. Achava ele. Quanto aos escritores, já se sabe que muitos com tal de mostrar o seu dom da escrita e publicar estão dispostos a zombar e desouvir qualquer ameaça, quando não cagar-se nos danos carreirísticos numa arte que tiveram tempo de avaliar caduca mas menos efémera que as próprias vidas. Por não falar no raro apetite por frequentar companhias perigosas e correr riscos desconhecidos que alguns curtem.

Por isso, ninguém contava que Pedro Pancrácio fosse guiado para completar a busca, ninguém estava à espera que em Outubro de 2000 aparecesse em Santiago com o crânio autêntico na mala, e por suposto nenhum ser humano cabal apostava por alguns malucos aceitarem aparecer, 13 anos depois, num livro que retomava este desassossegante assunto, tratando de reunir os indícios e as certezas sobre ele -a risco de represálias imprevisíveis.

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Agalega island tem forma de ponto de admiração, !. O que se sabe da peripécia de Pedro Pancrácio é que ele chegou a desembarcar no ponto e subir pela admiração acima. Para quem a ilha tenha forma de pénis, Pedro teria entrado pelo perfil sul do seu testículo e teria ido dar à ponta do caralho. Isso mesmo teria acontecido no sentido mais metafórico e literal de não ter-lhe aparecido um atuneiro frigorífico gigante na rota, um enorme navio de pesca com pavilhão das Seychelles mas de armador galego, com mais de metade da tripulação procedente de Ribeira e arredores. No inesperado auxílio desta gente (que enrolou Pedro sob estatuto de proteção privada, facilitando até documentos falsos da Corporate Risk Internationale Secure West, companhia de segurança privada anglo-saxônica), e nas esticadinhas providenciais que eles facilitaram, falta ainda uma explicação clara, mas sem ela mal teria acabado aquilo, ainda que algum outro modo teriam achado os sequestradores do crânio para fazer-lhe chegar sinais -só esta intenção poderia justificar os desconhecidos apoios que facilitaram o achado. A moça que o acompanhava, Eva-Sandra Figueroa-Bullock, teria ficado deitada numa espreguiçadeira da praia das Seychelles, hotel de quatro estrelas por trás, e ele lá teria ido fazer o parvo a um ilhote de vinte e tal km² que pertence ao grupo das Mascarenhas, República da Maurícia.

O que podemos adiantar da grande reportagem que prepara o jornalista próximo à jubilação Manuel Araújo, que não tendo podido visitar ainda este recife utiliza registos de hotel e especialmente fontes com base nas pessoas com família trabalhando ou morando naqueles territórios, é que um branco desconhecido esteve uns dias em Agalega island em Julho de 2000. E que coincidindo com a saída deste houve um incêndio com vítimas num ponto da ilha, e uma explosão noutro. Sabe-se ademais que na Ilha do Norte morava isoladamente, pelos vistos até 2008 e desde havia anos, um mulato chamado Ferreiro, com fama de mais raro que o próprio Phelsuma borbonica agalegae, o exclusivo lagarto insular incluído na lista de espécies protegidas. A casa de madeira deste mulato foi a que ardeu e um dos restos de cadáveres calcinados nela supostamente corresponderiam ao seu próprio corpo -Araújo não concorda com esta informação oficial. Quanto à explosão, aconteceu na maior elevação do território localizada nas dunas de areia costeiras chamadas Montagne d' Emmerez, um tímido morro de apenas 15 metros na Ilha do Norte. Sobre ele esteve instalada uma haste de bronze com terminal redonda de saída, que segundo todas as descrições correspondia a uma Bobina de Tesla, instalada pelo mulato de nome Ferreiro. Ao que também parece, teria realizado escavações para alguma construção subterrânea debaixo do morro, pois depois da explosão apareceu um grande buraco no outeiro, que nestes treze anos a areia já cobriu parcialmente outra vez. Faltando um levantamento de campo, não interferido por autoridade suspeitas, e próximo cronologicamente aos acontecimentos, esta informação fica por enquanto no terreno da especulação.

Esclarecer quem era esse Ferreiro e a sua origem seria o ponto mais enigmático descoberto pela história do Crânio de Castelao, mas infelizmente terá que aguardar-se pelo trabalho do próprio Araújo. O que aqui e por agora se pode adiantar é que aquele homem nascera na própria ilha mas tinha formação universitária e tinha viajado, possuindo ademais meios para evitar qualquer controlo por parte das autoridades locais. Também recebia frequentes visitas de homens e mulheres, por junto e por separado, e falava várias línguas. Uma delas galego e/ou português. A sua presença está perfeitamente documentada como agora a sua desaparição. Mais surpreendente é que outras informações confirmadas documentalmente falam de um Ferreiro pai, branco, militante da Federação de Mocidades Galeguistas, organização independentista galega que desapareceu com a repressão fascista de 1936, que se teria fixado na ilha há mais de meio século. A afirmação é certamente uma bomba, mas o senhor Araújo está seguro de poder reunir todas as provas necessárias e não tem inconveniente em consentir-nos este adianto como mostra do interesse que terá o seu trabalho. As especulações que pode suscitar a filiação mencionada, e as relações com o caso do Crânio de Castelao, são claras e imediatas. Mas vamo-nos limitar por agora aos dados que sabemos.

Já que para estrangeiros não é permitida a entrada à ilha exceto em serviço, Pedro Pancrácio terá entrado numa barcaça transportadora de coco pela ilha Sul com uma permissão especial para fotografar, por encomenda da National Geographic, a produção e elaboração da copra e a presença de dois tipos de animais endêmicos: o dito lagarto raro e a população de íbis. Ficou uma noite na povoação de Saint Rita, passou no dia a seguir para La Fourche na Ilha do Norte (atravessando os menos de dois Km de La Passe na maré baixa a pé seco), e permaneceu lá outros cinco dias, abandonando estas paragens num domingo a partir do pequeno aeródromo. Consta uma visita ao centro administrativo de Vingt Cinq nos registos da empresa pública mauriciana OIDC (Outer Islands Development Corporation). Consta ainda, entre a exígua população, alguma recordação desta visita só por causa do incêndio e explosão acontecidos na altura, que relacionam com o visitante. Mas nenhum outro detalhe podemos por agora saber ou adiantar -o trabalho do jornalista Manuel Araújo algum dia completará as lacunas.

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Pedro Pancrácio estava em Santiago no Outono de 2000 e tinha com ele o crânio. Nada disse ao Catedrático Figueroa. Nem sobre o crânio nem sobre Eva-Sandra Figueroa-Bullock, que tinha ficado nalgum ponto do Índico. Aparentemente vinha aceitar em todos os termos as propostas do Professor, para incorporar-se no segundo semestre como assistente à Faculdade de Medicina de Santiago, à espera de rematar e defender a tese. Aceitou também ajudar as bolseiras Jéssica Prado e Andreia Pereira a dar um jeito naquela tentativa de usar os escritores, e que o crânio falso ficasse onde estava.

Mas um detetive esteve a segui-lo e registou várias visitas do irrequieto rapaz ao Panteão de Galegos Ilustres em Bonaval, assim como a requisição de vários filmes emprestados num videoclube da rua Santiago de Chile, entre eles a Mission: Impossible de Brian de Palma -a única disponível nessa época, pois a segunda parte só estava a ser feita naquele ano.

PP1, de quem tinham saído tantas ideias luminosas, temeu o pior ao receber o informe do detetive e mandou chamar de imediato o PP2 para uma entrevista franca. Falaram. PP2 não se surpreendeu muito de que PP1 estivesse pelo meio. Achou até melhor que se conhecessem com tanta intimidade como supõe partilhar os banheiros masculinos do estádio universitário em pelotas, assim o outro saberia o que poder esperar e também temer dele. Assim o outro concluiu que este não ia desistir, e que era capaz de montar um escândalo tremendo. A resposta de PP2 à sua petição de negociar deveu ser mais ou menos esta:

-Sim, tenho o crânio verdadeiro e tenho provas de que é. Mais: importam-me um caralho todas as vossas tretas, passei-as putas nestes meses e estou disposto a montar agora um cristo que faça Fraga cagar-se. E a ti com ele. Salvo que algum dos dois esteja disposto a fazer que me matem, algo que por outra parte também seria inútil porque há mais gente nisto.

Aí o PP1 deveu-se sentir perdido e deveu perder, para começar, a cor. Sabendo que não havia remédio, que estava nas mão do outro Pedro, teria perguntado que queria, ao que PP2 teria dito com um sorriso bronzeado e feliz algo como isto:

-Quero por enquanto o que tu querias, que o crânio regresse ao resto dos ossos, ao símbolo, ao túmulo ridículo em que os teus amigos juntaram tudo.

Como o Pedro Primeiro se veria agarrado, pois para além de faltar-lhe coragem para violências não podia saber se o outro escondia alguma carta, se contara aquilo para alguém, se havia verdadeiramente alguém mais a ajudar-lhe, porque desde logo tinha-se desenrascado com soltura naquela aventura rocambolesca..., como se via perdido, todo o seu futuro arruinado, teria então pedido ao dianteiro -ao que colocava bolas de golo noutros tempos- que em nome de uma antiga amizade ou coleguismo de banheiro e campo de jogo lhe concedesse um tempo de desconto. Dois ou três dias.

D. Manuel Fraga responderia azedamente e de entrada ao seu assessor uma frase que, por ser-lhe mais tarde repetida a Manuel Araújo (dita pela Jéssica e gravada numa fita), e por também parecer do gosto daquele senhor, que em paz descanse, que teria sido esta:

-Pedro, o que está quieto é melhor não movê-lo.

Mas Fraga era um tipo inteligente e acabaria entrando em razão. Não sem antes recriminar muito ao outro Pedro, PP1. Depois deu as ordens necessárias para que exatamente na segunda-feira 11 de Dezembro de 2000, com todas as dependências do Museu do Povo Galego fechadas e o Panteão de Galegos Ilustres em Bonaval discretissimamente blindado, se procedesse de novo à substituição do crânio falso de Castelão pelo seu verdadeiro. Esta segunda operação foi documentada com várias fotografias cujos negativos (o digital era ainda infrequente) ficaram na posse de Pedro Pancrácio, que também exigiu uma boa compensação económica por calar a boca (por enquanto) e desaparecer -por enquanto. Algo que aconteceu em Janeiro de 2001. A foto (e supostamente o negativo) que conserva Cristovão Tezza, em que o Pedro aparece com Márcia Denser, parece ser a última que existe da sua pessoa. Depois de tê-la acompanhado ao hotel, naquela quinta-feira, ninguém mais o viu já nas celebrações finais do 'Latim em Pó'.

P.

O jornalista Manuel Araújo tem indícios da posterior passagem de Pedro Pancrácio por hotéis do oceano Índico -acompanhado por uma mulher parecida com a Sandra Bullock. Não descarta, por outra parte, entregar a sua reportagem final sobre todo este assunto para uma outra roda de escritores, quando dentro de dois anos se jubile e se dedique a viajar pelo Índico.