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As pequenas memórias

José Saramago

O escritor fala ao JL sobre As pequenas memórias, na edição 937, de 30 de Agosto de 2006

"Andava para escrever este livro há 20 ou mais anos. Mas fui sempre adiando, talvez por nele ter de recordar muitas coisas tristes, amargas. Como se dissesse: 'afasta de mim esse cálice'... Agora, finalmente, escrevi-o, tendo-o terminado a 15 de Agosto", diz José Saramago ao JL a propósito da sua próxima obra. Que desta vez não é um romance mas um livro em que, aos 83 anos, evoca a sua infância e adolescência; um livro do qual várias vezes falou ao nosso jornal, como sendo possivelmente o próximo que escreveria, o que só agora afinal aconteceu. Mudando-lhe o título, que em vez do também há muito pensado e anunciado, Livro das Tentações, que lhe pareceu "pretencioso", será As pequenas memórias.

O escritor revela-nos: "São as minhas memórias desde o que de mais antigo posso recordar, ou que os meus pais e avós me contaram, até aos 15 anos. Eu saí da aldeia com um ano e meio, vim para Lisboa com os meus pais (que não eram sequer pequenos proprietários, o meu pai era trabalhador braçal, apenas tinha para vender a força de trabalho), vivíamos com as maiores dificuldades, dificuldades que hoje, quando quase toda a gente tem casa, então um sonho impossível, muitas pessoas nem compreendem. É muito desse tempo, de Lisboa e da vida que levávamos, que falo".

José Saramago salienta, no entanto, que tendo passado a ser um rapazinho da cidade, era na aldeia que se sentia bem, e que "há no livro uma presença muito forte da aldeia". Explica: "Eu ía sempre passar as férias lá à Azinhaga, com os meus avós, era lá que queria estar e me sentia bem. A primeira coisa que fazia, quando chegava, era tirar os sapatos. E só os voltava a calçar quando tinha de voltar para Lisboa...".

É conhecida, aliás, a forte ligação do escritor aos avós, em especial ao avô, que evocou de forma especial, emocionada e comovente, quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Agora mesmo, recorda-nos que o avô criava porcos "e quando eles estavam muitos fracos no inverno levava-os para a sua própria cama, para não morrerem".

O livro, As pequenas memórias, deve, aliás, ser lançado na sua aldeia, a Azinhaga, concelho da Golegã (distrito de Santarém), a 16 de Novembro próximo, ou seja, exactamente no dia em que o romancista completará 84 anos.

Quanto ao programa do lançamento, o seu editor e amigo, Zeferino Coelho, da Caminho, diz ainda nada estar decidido. Lembre-se que as suas últimas obras têm tido lançamentos que se transformam em verdadeiros "acontecimentos", quer por darem origem a largos e acesos debates, como aconteceu com o penúltimo romance, Ensaio sobre a Lucidez, quer por decorrerem em sessões com programas com diverso tipo de intervenções, inclusive de outros editores seus e musicais, como aconteceu no ano passado com o último, As intermitências da morte -neste caso verificando-se ainda a circunstância da sessão ter sido no Teatro Nacional de São Carlos, completamente cheio de público.

José Saramago sublinha-nos ainda o facto desta sua próxima obra ser relativamente pequena (Zeferino calcula que dará um volume de 150 a 200 páginas, enquanto os anteriores ultrapassaram as 300). "São as memórias do que eu vivi, do tempo em que eu era pequeno, não andei 'á procura do tempo perdido', para isso é preciso ser Proust, nem estive a 'fazer literatura', o que tornaria o livro muito maior. ".

Perguntado pelo JL sobre a estrutura da obra, o escritor revela-nos, aliás, que a sua "construção não é cronológica, linear". E pormenoriza: "São fragmentos, cada momento é um momento em si, o tempo pode andar para trás ou para a frente. Mas o que pode parecer desconexo, arbitrário, creio que ficará organizado na cabeça de quem lê". E como as suas obras anteriores, terá uma epígrafe, citação de um livro inventado, O Livro dos Conselhos: "Deixa-te levar pela criança que foste".

"A nossa infância explica muito o que nós somos, e por isso talvez as minhas Pequenas memórias interessem àquelas pessoas que querem saber melhor quem eu sou, donde saí, quais são as minhas raízes", conclui Saramago.