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O Teatro segundo Prestes

Dramas Imperfeitos

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"António Prestes deixou uma obra dramática relativamente extensa, constituída por uma moralidade e seis autos"

Silvina Pereira

De Torres Novas se pode dizer que foi terra promissora de teatro, já que foi berço de três dramaturgos quinhentistas. São eles, António Prestes, Jerónimo Ribeiro Soares e Simão Machado.

 

Estes pergaminhos estão aliás em sintonia com a relevância histórica desta cidade. Em Torres Novas foi assinado o contrato de casamento da Infanta Dona Isabel de Portugal com o Imperador Carlos V, a Infanta Dona Maria e o Príncipe Dom Luís (ligados à cultura e ao mecenato) têm igualmente ligações com esta cidade, como ainda a Casa de Aveiro, através da figura de D. João de Lencastre, também Marquês de Torres Novas. Por último, as Cortes de 1525 aqui realizadas, foram o palco onde se lançaram as sementes da Inquisição portuguesa, com a consequente repressão intelectual sobre as obras em geral e o teatro dessa época e seguintes, em particular.

Voltando ao teatro, continuaremos aqui a falar de António Prestes, já que no artigo anterior se falou do Auto da Ave Maria e, de que modo, o dramaturgo através dessa moralidade, nos fez assistir à luta entre a Razão e a Sensualidade, capitaneada pelo sedutor Diabo, que entra na cena vestido à italiana, pugnando pela arquitectura antiga. Uma condenação que Prestes não deixará de efectivar, tal como o fará em relação ao teatro italianizante, como veremos agora neste 2º artigo, dedicado ao dramaturgo torrejano. Para tal, falarei aqui de um outro auto, o Auto dos dois irmãos.

Lembremos que falar de António Prestes é falar de um autor de que pouco se sabe. Deixou uma obra dramática relativamente extensa, constituída por uma moralidade e seis autos. Segundo Luciana S. Picchio, leitora atenta do trabalho de Eugénio Asensio, estes seguem a fórmula vicentina, incluindo episódios cómicos de intenção moral, figuras alegóricas e personagens tiradas da vida quotidiana, coincidindo com arquétipos de ascendência peninsular (o ratinho, o escudeiro pobre) ou o criado astuto de importação renascentista. A dramaturgia de Prestes, moldada por um realismo doméstico concentrado no lar e no amor conjugal, mostra "uma nova maneira de considerar a mulher", o amor e o casamento. Luís Francisco Rebello diz até que, por vezes, se é quase tentado a classificá-lo de burguês. Nele se verificam algumas pistas interessantes sobre a evolução do teatro em Portugal no século XVI, nomeadamente a questão dos géneros, o travestismo, a representação em casas particulares e a moda de construir quintas de recreio para "recreações galantes".

Logo na "representação" (ou prólogo) que antecede o Auto dos Dois Irmãos, se encontra uma grande introdução em prosa sobre a querela dos géneros, neste caso, o auto e a peça clássica, em que o Autor de uma companhia de teatro dialoga com um amigo Licenciado. Prestes, critica aqui os que "seguem Ariosto italiano, imitam Petrarca, lêem Sanazarro, escrevem Garcilazo, para com estes zombarem de nós outros, autores formigueiros". A personagem Autor reflecte as opiniões do Prestes literato sobre o teatro popular que se fazia na cidade de Lisboa, e a apreciação negativa e irónica da invasão da moda italiana. Isto, apesar de o teatro de Prestes se inserir numa estrada teatral onde convergem caminhos eruditos e populares, já que esta é uma peça que combina elementos da comédia latina - a Aulularia de Plauto -, com uma história muito divulgada no foclore europeu. Por sua vez, o Licenciado veicula algumas das experiências de Prestes como Inquisidor do Cível, onde é visível uma profunda desconfiança na justiça dos homens.

Vejamos o enredo: Dois irmãos, um Cioso e outro Confiado, casaram em segredo. O pai quer deserdá-los e aconselha-se com um compadre sobre o modo de o fazer. Os filhos enviam um criado para vigiar o pai que, de noite, segue os passos do velho para descobrir onde este esconde o dinheiro. O criado utiliza então um expediente muito curioso, que é o de fingir ler uma novela de cavalarias (o Palmeirim) e inventar excertos alusivos a tesouros escondidos, com o intuito de convencer o velho pai a mudar de opinião. Deste modo a intriga dá uma reviravolta, já que o velho pai, instruído pelo Prior, se reconcilia com os filhos e, deixando-se iludir pelos mimos destes e das noras, entrega-lhes toda a fortuna. Depois de se verem com o dinheiro (filhos e noras) abandonam o pai. O velho, vendo-se sozinho e abandonado, decide fingir que guarda muito mais ouro do que o já entregue e finge estar a morrer. Os filhos, ao cheiro do "ouro" vão visitar o pai e abrem o cofre. Lá dentro encontram um martelo, um monte de areia e um papel com o refrão dizendo: "Quem se deserda antes da morte / outro como este a vida lhe corte". Os filhos arrependidos decidem levar o pai para casa e cuidar dele.

Do seu teatro pode dizer-se que gozou de fama notável no século XVII, uma fortuna que a posteridade não haveria de caucionar. Eugenio Asensio, em 1954, presenteou-nos com um estudo do conjunto dos sete autos de A. Prestes. Lembrou que Dom Francisco Manuel de Melo considerava Prestes como um grande dramaturgo, a par de Gil Vicente, uma estima não partilhada pela crítica moderna, que, segundo o mesmo Asensio, condenou Prestes pela sua "total carência de espírito dramático", e pela sua falta de técnica. E embora o lusitanista castelhano reconheça não ser difícil concordar com essa impressão negativa, não deixa de lembrar que o autor do Fidalgo Aprendiz, não poderia ter-se enganado completamente quanto ao valor do teatro de António Prestes.

Para Asensio, grande parte do descrédito em que caíu o teatro de Prestes, deveu-se às péssimas edições da obra, dizendo mesmo que "Para apreciar los granitos de oro escondidos en sus autos entre la arena, el primer paso há de ser una edición debidamente anotada". Felizmente, o leitor português tem, desde 2008, uma edição condigna, com a chancela da IN-CM, da responsabilidade de José Camões e de Helena Reis Silva.

Mas, porque a dimensão teatral de um texto reivindica uma leitura colectiva, em voz alta, só falta mesmo trazer para a cena a sua obra dramática, resgatá-la do esquecimento, enfiar os dedos na areia e, porventura, extrair as faladas pepitas de ouro. Mais pobres não ficaremos.

 

21 de Maio de 2013

 

Silvina Pereira