Jornal de Letras

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Gil Vicente em Bruxelas

Dramas Imperfeitos

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 Aqui se fala da representação de um auto de Gil Vicente e do seu misterioso desaparecimento. Apresentado numa festa de Côrte, num tempo em que portugueses e flamengos, partilhavam parentescos, amizades, relações culturais e comerciais.   

Silvina Pereira

Falemos de teatro. Durante muito tempo, supôs-se ter sido o Auto da Lusitânia, o auto representado em Bruxelas em 1531, na corte do Imperador Carlos V, por ocasião de festejos, celebrando o nascimento de um príncipe português e importantíssimo por ser, em princípio, o único encenado fora da península, em vida de Gil Vicente, perante um público de convidados estrangeiros e portugueses. Este acontecimento, que envolveu uma comédia do fundador do Teatro Português, em terras estrangeiras, teve ecos desde o centro da Europa até às paragens remotas da Índia.

Carolina Michaëlis de Vasconcelos na sua I Nota Vicentina de 1912, seguindo a metodologia de "substituir suposições vãs por verdades autenticadas", decidiu apurar qual foi o auto, a cuja representação em Bruxelas assistiu o humanista Mestre Lúcio André de Resende, que descreve as festas, no elegante poema latino Genetlíaco, referindo aí que "Depois dum lauto banquete e dum entremês báquico, foi representada com grande aplauso de todos, uma comédia já anteriormente encenada nos paços régios lusitanos por GIL, autor e também actor, eloquente e habilíssimo em dizer verdades disfarçadas entre facécias; GIL acostumado a censurar (maus) costumes entre leves gracejos".

Acontece que essa característica de satírico mordaz, não se encontra na farsa festiva da Lusitânia. Sousa Viterbo, em 1903, baseando-se na desconformidade entre o que é o texto da Lusitânia e o poema de Resende, havia lançado o "lamiré" dizendo que "outra será a comédia", chamando a atenção que "A História da Reforma diz-nos que a comédia, desde o princípio ao fim, era uma série de críticas contra Roma e contra o Papa".

Justamente, na História da Reforma Religiosa em Alemanha, Fr. Von Bezold escreve que: "Refere ALEANDRO que o embaixador português tinha feito representar no Inverno de 1531 em Bruxelas (...) uma comédia que, pelo título, devia ser Jubileu de amor, mas que desde o princípio até o fim não era senão uma série de críticas acerbas contra Roma e o Papa" e que para esta representação um dos actores havia obtido um autêntico barrete cardinalício, da própria casa do núncio, acrescentando ainda que todos riram tanto que o mundo parecia desfeito em júbilo, e que "eu com o coração a sangrar julgava achar-me na Saxónia e ouvir a LUTERO, ou estar no meio dos horrores do Saque de Roma!"

Ora, no trecho trabalhado por Viterbo, a partir da conhecida versão castelhana lia-se "comédia que segun su nombre debia celebrar el amor", mas no relato de Bezold, traduzido do original alemão por Dona Carolina lê-se "ein jubelfest der liebe...", ou seja, "um Jubileu de amor". A filóloga alemã prossegue, exultante: "O grifo é meu. Nem BEZOLD, nem o tradutor castelhano, nem SOUSA VITERBO perceberam que Jubileu de Amor constitui o título da comédia representada".

Nesta caça aos segredos, a exímia filóloga ou "Santa Minerva", como lhe chamou Nemésio, traz para a ribalta, a personagem crucial deste enredo: o Cardeal Giralomo Aleandro "antagonista fanático dos dissidentes: figura rígida de Torquemada, mais papista do que o próprio Papa". Sabendo ela que, na vasta correspondência de Aleandro existiam cartas relativas às missões desempenhadas junto ao César, em 1521, 1526, 1531 e 1538, suspeitou que em qualquer delas haveria referência à comédia de Gil Vicente. E não se enganou!

Então, o Cardeal Aleandro, a quem Lutero apelidava de "não escrupulosamente verdadeiro", de perseguidor, torna-se perseguido. Carolina de Vasconcelos aproxima-se do alvo e dá de caras com o "monstro incenerador" e a carta arquivada, datada de Bruxelas, 26 de Dez. de 1531, dirigida a Sanga, o secretário de Clemente VII. Escrevia ele: "Aí foi representada perante toda a assembleia uma comédia em castelhano e português, de má espécie, que sob o título de Jubileu de amor era sátira manifesta contra Roma, e punha pontos nos ii (designando as coisas claramente): que de Roma e do Papa não vinham senão traficâncias de indulgências, e quem não dava dinheiro não somente não era absolvido, mas até excomungado sempre de novo. Assim começou; assim continuou; e assim acabou a comédia". O cardeal Aleandro acaba a missiva pedindo segredo para não incorrer na fama de maldizente, sugerindo, uma "admoestação paterna" do Papa, ao Imperador e ao rei de Portugal!

Efectivamente, essa admoestação acabaria por verificar-se pois no Rol dos Livros Defesos de 1551, uma lista de títulos proibidos, encontram-se sete títulos de Vicente, e um deles é justamente, o Auto do Jubileu de amores.

E o Jubileu de Amor? Desaparecido desde o século XVI, até hoje ninguém o encontrou, embora não faltem propostas de solução para o enigma.

 

Lisboa, 30 de Novembro de 2011