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Chiado, nome de guerra

Dramas Imperfeitos

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Silvina Pereira

No último artigo desta rubrica, propôs-se que o autor da Comedia Ulysippo figurasse na cidade, próximo do local onde se encontra a estátua de um outro dramaturgo coetâneo que dá nome ao coração da cidade de Lisboa: Chiado.

António Ribeiro, recebeu dos seus coevos a alcunha de Chiado. Nasceu nos arredores de Évora e faleceu em Lisboa, no ano de 1591, depois de uma vida dissoluta que o levou do convento à cadeia do Aljube. Cunha Rivara informa que, na época em que foi frade era "bargante, dizidor, poeta". Afonso Álvares dedica-lhe algumas trovas muito pouco lisonjeiras, quer sobre a origem humilde, quer apontando-lhe a fraca aptidão monacal "Reverendo frei Chiado,/De virtude grande imigo" ou, sublinhando que este não respeitava as regras de abstinência, pobreza e obediência, dizendo: "E tu queres ser rufião//E beber como francês/E comer como alemão/E falar velha e vilão e dar aos frades mau mês". À condição de mau frade, bom comedor e bebedor, Berardinelli acrescenta as características de "luxurioso, hipócrita, desonesto, vicioso e até sodomita", seguindo o testemunho do já referido Afonso Álvares.

Chiado, o frade actor, deixou-nos, entre outros, algumas composições teatrais. A Alfama quinhentista e as tabernas lisboetas são o palco escolhido para as suas façanhas, numa língua plebeia e desbocada, sem rodeios, para um público que não o da corte. Num dos seus autos, o da Natural Invenção, escrito por volta de 1550, verifica-se, segundo o parecer de Luiz Francisco Rebello, uma "concepção curiosamente pirandelliana", já que o seu tema é a representação de um auto em casa de um fidalgo, a qual nunca chega a concluir-se, dado ser interrompida e adiada, a cada passo, por toda a sorte de incidentes.

Este teatro dentro do teatro começa com a personagem Dono da Casa, impaciente com a demora do início da representação do auto, a reclamar pela chegada urgente do Autor. Após a entrada atribulada da companhia, na qual vem integrado um negro tocando e cantando um vilancete, entra o Representador, a dissertar sobre a comédia greco-latina, a história da comédia e as diversas designações que foi tomando o espectáculo teatral. Inclusive, uma outra personagem mostra conhecer outros aspectos da comédia clássica, como por exemplo, o tempo de duração duma representação: "Oh! Não sejais tão delgádia!/Nunca fostes em Itália,/onde se fazem comédias./Ora ouvi-me ũa grandeza/que vi dentro em Veneza:/vi que se representou/ũa cena que durou/seis horas, si, per certeza,/e mais, ninguém se enfadou". Ora, uma "cena" com seis horas, serve porventura, muitíssimo bem, algum propósito zombeteiro do autor, caso não se trate somente de "reverência" e "apreço" face à comédia clássica.

O Auto da Natural Invenção dá-nos valiosas notícias acerca da praxis teatral na sociedade portuguesa na segunda metade de quinhentos. Por ela "ficamos a saber da existência de companhias ambulantes que, transportando em canastras os seus adereços e guarda-roupa, representavam em casas particulares as comédias do seu repertório, a troco de alguns cruzados". A situação dramática desenvolvida no auto, permite respigar informações diversas sobre as condições de representação, lugar, duração, horário, públicos, figuras, adereços e actores, como lembra Luciana Stegagno Picchio assinalando que este auto nos põe "em contacto directo com a menosprezada e pitoresca chusma de comediantes que em Portugal no século XVI já tinha assumido uma fisionomia própria bem definida" e ganhando, pouco a pouco, o seu espaço na cidade.

O sistema de alcunhas era uma prática ao tempo. Juromenha, no volume I da sua edição das obras de Camões, alude à alcunha de "Trinca-fortes" que Chiado terá posto a Camões, a troco de uns melões. A alcunha de Chiado, que fez esquecer o seu próprio nome, recebeu-a da rua em que morava, dado que chiado era "nome de uma calçada de Lisboa, assim chamada da chiadura dos carros que a subiam". Moraes, no seu dicionário, refere que "Chiado é termo asiático, que significa malicioso", o que condiz com o epíteto de "trédoro malicioso" dado por Afonso Álvares. Fosse pelo verbo chiar, que no século XVI significava fazer ruído, fosse pelas trovas, segundo o Visconde de Castilho, o facto é que a "alcunha de Chiado, dada ao poeta, lhe era perfeitamente aplicável". A Rua do Chiado, onde morou o poeta, é, desde 1882, oficialmente Rua Garrett, mas o nome permaneceu no largo, onde se ergue a estátua "de um homem sentado, corpo ligeiramente pendido para diante, mão direita erguida em gesto persuasivo, tendo no rosto simpático um sorriso de lábios entreabertos", segundo a sugestiva descrição de Berardinelli, na Introdução ao Teatro de António Ribeiro Chiado.

José-Augusto França, na sessão de abertura do IV Congresso - História da Arte Portuguesa, na F. C. Gulbenkian, dizia que um historiador de arte se deve ocupar de factos históricos. São eles o seu material de estudo e de reflexão. Vem isto a propósito, de um singular episódio.

Na edição da Comedia Aulegrafia de 1618 (exemplar digitalizado na BNP) pode o leitor encontrar, num certo passo, uma das personagens da comédia dizendo uns versos muito galantes. Nesse momento, D. Ricardo, entusiasmado por tanta arte pergunta: "Isso é vosso?"; a que D. Galindo responde: "Senhor, não; é do Chiado", pelo que D. Ricardo replicará "em algũas cousas teve vea esse escudeiro (fl. 126v), uma observação um pouco estranha, pela desadequação. Continuam depois a evocar Petrarca, Vergílio ou Sá de Miranda pelo "seu estilo sentenceoso, & muy limado, & novo". Ora, não dá a bota com a perdigota! Quem conheça as obras e os autores da Aulegrafia e da Natural Invenção facilmente será levado a desconfiar do texto da edição seiscentista da Aulegrafia. No entanto, a crítica aceitou esse "facto", já que muitas vezes cita o excerto, em grande destaque, embora a condição atribuída de escudeiro a Chiado dê que pensar. Acontece que na versão manuscrita da Comedia Aulegrafia, procedente da Biblioteca do Conde de Gondomar, Manuscrito II/1519 da Real Biblioteca de Madrid, lê-se, nesse mesmo passo (fl. 180), uma resposta muito diferente pois, à inquirição autoral dos versos feita por D. Ricardo, a resposta de D. Galindo, é: "Senhor, não, é de Bena[l]dim Ribeiro".

Podemos concluir que o poeta Chiado era suficientemente famoso para ser incluído, apesar de tudo, num universo de cortesãos literários, a quem corresponderia, por sensibilidade e por cultura, mencionar antes Bernardim Ribeiro. Por outro lado, os censores foram muito pouco imaginativos no propósito de eliminar o nome do autor da Menina e Moça pois, mesmo sem a caução da versão manuscrita, muito seria de estranhar que, na prosa elegante e clássica de Jorge Ferreira de Vasconcelos, o ruído e a malícia fossem sinónimos de refinamento e de bom gosto. Enfim, não há crimes perfeitos!

Efectivamente, há autores que parecem não ficar bem no mesmo retrato. "Sindirisis de alma" como disse Vasconcelos na Eufrosina. Mas, crítica das fontes à parte, as peças aí estão para serem representadas, para nos rirmos com elas e reconhecermos serem bom teatro português e do mundo. Vos valete et plaudite.

 

Silvina Pereira