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Auto do Físico

Dramas Imperfeitos

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Jerónimo Ribeiro com o seu Auto do Físico fica muito à frente da farsa de Gil Vicente em termos de enredo.

Silvina Pereira

O Auto do Físico de Jerónimo Ribeiro é o único texto conhecido deste autor. Torres Novas reclama ter sido a terra natal do dramaturgo quinhentista. Informação municipal refere que "Sabe-se que nasceu em Torres Novas, mas ignora-se a data precisa do seu nascimento, e da sua morte", sendo que na cidade torrejana existe uma "Rua Jerónimo Ribeiro Soares".

São escassas e muito incertas as notícias sobre a sua vida e obra. Diogo Barbosa Machado na Bibliotheca Lusitana, em 1747, menciona que "Jerónimo Ribeiro Soares, natural da Villa de Torres Novas, do Patriarcado de Lisboa, e descendente de Nobre família, foi muito aplicado à cultura da Poesia Cómica, em que compoz muitas obras, de que unicamente se fez publico: - Auto do Fisico...".

Alberto Pimentel, em Obras do poeta Chiado, de 1889, e O poeta Chiado, novas investigações, de 1901, afirma que Jerónimo Ribeiro, autor do Auto do Físico, era irmão do dramaturgo António Ribeiro Chiado, filho de um sapateiro e de uma regateira, que ia ao forno (cozer pão) e que nasceu nos arrabaldes de Évora. Na História da Literatura Portuguesa Ilustrada (Dir. Albino Forjaz Sampaio), 1930, lê-se "Jerónimo Ribeiro, irmão de Chiado". Esta informação, contudo, carece de fundamento.

Uma consulta à  BNP permitiu apurar que na Bibliotheca Luzitana (c. 1670) de João Franco Barreto este  autor não é mencionado.

O Auto do Físico saiu impresso em 1587, com outras obras dramáticas, na Primeira parte dos autos e comédias Portuguesas feitas por  António Prestes, e por Luis de Camões, e por outros autores portugueses, cujos nomes vão nos principios das suas obras. Agora novamente juntas e emendadas nesta primeira impressão por Affonso Lopez, Moço da Capella de Sua Magestade, e a sua custa. Frei Bartolomeu Ferreira autoriza a impressão escrevendo que "tornara a esta Mesa, pera se conferir com o original, e se lhe dar licença pera correr". Os exemplares desta edição são raros.

Francisco Maria Esteves Pereira, em 1918, publica o texto, seguindo a edição quinhentista, sob a chancela da Academia de Ciências de Lisboa, na colecção Monumentos da Literatura Dramática Portuguesa. Na sua introdução à obra, sublinha o valor literário do auto e do tema, e que "O Auto do Físico é uma obra original, e não a tradução ou imitação de outra". Nele se encontra enredo, nodus, como dizia Horácio na sua Arte Poética.

 Vejamos a intriga dramática. Um Escudeiro, Lopo de Andrade, quer casar com a filha de um Físico, um médico de grande saber. Dirige-lhe cartas e recados através de uma serviçal, a moça Inês, que lhe faz acreditar que os entrega e que é correspondido, fingindo respostas e recados com que o enamorado Escudeiro vai alimentando a sua paixão. Este consegue entrar em casa da amada, a conselho de Inês, alegando sentir-se doente e precisado de consulta. Entretanto, o Físico contratara o casamento da jovem desejada com o sobrinho de um Letrado seu amigo, um estudante de Salamanca, Lucas de Lemos. Informa a filha, que aquiesce, apressando-se a contar a Inês. Esta logo informa o Escudeiro, que mais uma vez inventa o estratagema que consiste em se adiantar, indo a casa do Físico e fazendo-se passar pelo noivo, vindo de Salamanca. O Escudeiro é bem recebido mas, entretanto, o verdadeiro noivo aparece também na mesma casa, acompanhado de uma carta que o acredita. Perante tal confusão, Inês confessa a intriga que urdiu, por interesse. O casamento da Filha do Físico é celebrado com o Estudante, e o Escudeiro, desgostoso, entra para um convento.

Esta comédia de enganos tem cenas muito teatrais. Por exemplo: a cena do Escudeiro a fingir-se de doente "tenho tão fraco peito", e o físico a retorquir "tem febre mas é pequena"; a cena da briga entre Inês e Grimanesa, provocada por ciúmes do moço Mamede, que acabará em pancadaria; a cena do " Jogo das mentiras", organizada pela filha do físico, que consiste em punir com um ferro quem não disser uma mentira naquele serão, e a cena da consulta médica dada pelo moço Mamede que, fingindo-se físico, faz troça de um pobre pescador, queixoso de uma dor que dera à mulher e que, por isso, aparece com um bacio das águas desta para análise.

O tema do Físico havia sido tratado por Gil Vicente, em 1512, com a obra Farça dos Físicos, onde trata "huns graciosos amores de hum clérigo" enamorado por uma donzela que lhe rejeita cartas, rasgando-as sem as ler. Sentindo-se enfermo, quase a morrer, consulta um físico, depois um selurgião, outro físico e um astrólogo, produzindo uma série de diagnósticos quando o seu mal é doença de amor. Finalmente vem um frade/confessor que o aconselha a esquecer.

A crítica, embora ciente da supremacia incontestável do Mestre Gil, não deixa de reconhecer que, neste caso, Jerónimo Ribeiro com o seu Auto do Físico fica muito à frente da farsa de Gil Vicente em termos de enredo. A sua peça é verosímil, bem estruturada, sem pontos mortos e não há que regatear créditos e valor cómico a este "insigne monumento literário da arte dramática em Portugal no século XVI", embora a tendência da crítica seja mais para assinalar o sua importância pelo estudo dos usos e costumes e da linguagem, do que propriamente pelo valor teatral.

George Le Gentil em Le mouvement intellectuel en Portugal, em 1921, afirmou que o interesse desta peça para os franceses vem "de qu'elle effleure un sujet que Molière exploitera dans le Médecin malgré lui, l'Amour médecin et le Malade imaginaire", lembrando que, se a Gil Vicente cabe o mérito de ter sido o primeiro a pôr os físicos em cena,  Jerónimo Ribeiro aporta elementos novos que são, como já vimos, o disfarçe do enamorado em doente, para se introduzir na casa do médico e o disfarçe do serviçal para dar uma consulta buslesca na ausência do seu senhor. Segundo o lusitanista francês, a personagem do Pescador "annonce les plaisanteries de Molière sur les apothicaires". Uma contribuição do teatro português que merece atenção.

Esteves Pereira refere que é provável que o Auto do Físico tenha sido representado "talvez no pátio das Comédias, situado no lugar onde actualmente está o edifício do Tribunal Judicial da Boa Hora, no qual se sabe que foram representados alguns autos de Gil Vicente, de António Prestes, de Luís de Camões e de outros autores".

Há 40 anos atrás este auto foi apresentado em Torres Novas e, agora, para assinalar essa efeméride, nova representação se prepara, no Teatro Virgínia para Novembro de 2013. Congratulamo-nos.

 

Silvina Pereira