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Auto de Florença

Dramas Imperfeitos

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Este auto quinhentista, embora não ignorado, foi muito mal conhecido.

Silvina Pereira

Florença, dama "fermosa", é o nome dado por Gil Vicente no Auto da Barca do Inferno, à companheira do Frade. Na Comedia Ulysippo de Jorge Ferreira de Vasconcelos, Florença, "La bella", é cortesã à força e, como na tipologia antiga, é uma dama requestada, objecto do desejo dos homens. Florença tem duas armas poderosas: a beleza e a palavra. O seu discurso é forte e sentencioso, conseguindo sair vitoriosa do seu amor por Hipólito. Florença, para além de personagem de teatro, é também nome de cidade italiana, considerada o berço do Renascimento e governada pela família dos Médici.

Vem isto a propósito de um texto teatral, em que Florença não é nome de cidade mas é nome de personagem e de auto: o Auto de Florença de João de Escovar, impresso e oferecido ao jovem rei D. Sebastião, no Natal de 1561, o mesmo ano em que a Ulysippo entra no Rol dos Livros proibidos. Mas, se bem que o Auto de Florença, não tenha chegado a entrar nos Índices inquisitoriais, nem por isso teve melhor ventura pois, este auto quinhentista, embora não ignorado foi muito mal conhecido.

            Diz-nos Carolina Michaёlis de Vasconcelos que O Auto de Florença (relativo a uma donzela desse nome) encontra-se registado na obra do Abade de Sever, que por saber da sua existência, apenas por ouvir, o confunde com outro auto, o do Duque de Florença, (cidade) baptizando-o de O Fidalgo de Florença. Esta confusão passou para Teófilo Braga. Também Alexandre Herculano escrevera,  já em 1837, no Panorama: "O Auto do Fidalgo de Florença, composto por João de Escobar, no reinado de D. Sebastião, teve nesse tempo grande celebridade e se imprimiu repetidas vezes; porém dele ainda não encontrámos um único exemplar".

Em 1910, na Biblioteca Nacional de Madrid, D. Ramón Menéndez Pidal, achou e fotografou dezanove autos portugueses. Entre outros, encontrava-se o Auto de Florença. Em 1922, Carolina M. de Vasconcelos, publicou um fac-símile da edição quinhentista deste auto e, foi então possível ver, no frontispício da obra, o título do auto e uma gravura com quatro personagens: um ratinho pastor apoiado no seu cajado, o escudeiro com a flor, a moça e uma casa/castelo.

Esta descoberta permitiu à filóloga alemã dar conta, em Notas Vicentinas, de alguma informação sobre estes dezanove autos, bem como sobre os seus autores, nomeadamente, João Escovar "cujas notícias, poucas e vagas", passadas da Biblioteca Lusitana, de Barbosa Machado, para o Catálogo de Barrera e ao Dicionário de Inocêncio e Brito Aranha, puderam ser clarificadas. Uma delas prendeu-se com o deslindar da confusão instalada com as duas Florenças, apurando que o Auto de Florença nada tinha que ver com o Auto do Duque de Florença e que, curiosamente, figurava também entre os autos achados por Menéndez Pidal.

Constara-lhe ainda que o "poeta cómico", fora também músico, compositor de Motetes, impressos em Lisboa no ano de 1620, e que exercera o professorado dessa arte. Tratando-se de música, conta-nos Dona Carolina, recorreu naturalmente às obras de Joaquim de Vasconcelos (2 volumes) o qual, em Músicos portugueses, intitula essas obras impressas como Colecção de Motetes, e menciona outra, incluída no Catálogo de Música de D. João IV, mas sem indicar se fora impressa ou ficara manuscrita. Verificou que João Escovar escrevera realmente uma Arte de musica teórica e prática, fora fecundo compositor de motetes, missas, lições de defuntos e vilhancicos e que igualmente se fizera frade trinitário.

O Auto de Florença, segundo Eugenio Asensio, apresenta um mosaico de motivos frequentes no folclore europeu: o nobre casado com a pastora, a esposa inocente caluniada pelo cunhado, cujo assassínio será evitado pela Providência que, neste caso, é a Ventura acompanhada de três sábios cantores.

Vejamos a história:

Dom Simão, cavaleiro nobre, apaixonou-se por Florença, uma pastora. Este amor recíproco provoca uma discussão entre Dom Simão e o irmão mais velho, Dom Fernando, que insiste em proibir-lhe um casamento desigual. Dom Simão desobedece e vai buscar a sua amada e trá-la para sua casa, ricamente vestida. O pai de Florença está feliz com o casamento da filha. Subitamente chega o Alcaide, a mando do Rei, para prender Dom Simão, por este casar fora da sua condição. Este entrega a sua casa e a jovem esposa aos cuidados do irmão, que, logo que se vê a sós com ela, tenta seduzi-la. Florença recusa o assédio e foge. Dom Fernando, vendo o perigo em que se colocou, inventa que Florença o tentou seduzir, que ele a repudiou e, como testemunho da sua inocência, deixou a sua própria capa no local. Sabendo que o irmão o vê e ouve, numa óbvia cena de grande teatralidade, gesticula e fala alto, exclamando, para si próprio, que "todo o mal vem das mulheres". Perante tal desabafo, Dom Simão exige saber o que aconteceu na sua ausência e, após ouvir a mentira do irmão, reclama vingança. Florença é acusada e Dom Simão manda que o Galego a mate. O Galego prepara-se para lhe cortar a cabeça e Dona Florença, reconhece então, que este é o castigo por ter casado acima do seu estado. Aparecem então a Ventura e três sábios cantores, que lhe pedem para não matar a fermosura, provocando, deste modo, a sua fuga. Após cantarem, vestem-lhe um roupão, assentam-lhe um barrete na cabeça e colocam-lhe uma vara na mão, fazendo-a Governador. Investida desse poder, disfarçada de juiz, e a pedido do pai, que está inconsolável com a morte da filha e que pede justiça, começa o julgamento. Dom Simão diz que amou verdadeiramente Florença e admite que a mandou matar por ter sido traído. O Governador/Florença interroga-o sobre a prova, além da denúncia do irmão e, num volte-face espectacular, Florença retira as insígnias de Governador e desmascara a traição e a mentira do cunhado. Num acto de magnanimidade, salva-o da morte, condenando-o ao exílio, e deixando o castigo maior para Deus. A peça termina em festa e, ao quarteto musical, juntam-se todas as restantes personagens cantando uma máxima: a mulher, nem a um irmão se deve fiar, se se quer guardar de traição.

            Luiz Francisco Rebello disse-me um dia que gostava deste Auto de Florença e, depois de o ler, apercebi-me também do seu valor teatral e do modo como este nos conduz para outras paragens e outros imaginários dramatúrgicos, espelhando luminosamente a relação e a tradição teatral de autores e obras.

E porque este mês de Março, é mês de teatro, que boa oportunidade para ler o texto publicamente. Preparada está já uma leitura encenada deste auto musical do frade músico, poeta cómico, João de Escovar.

Se os Deuses e os homens quiserem, bem entendido.

Silvina Pereira