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Perfil

António Ferreira - Vida breve, arte longa

Dramas Imperfeitos

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Tempo, circunstâncias e profundas convicções estéticas, eram favoráveis a que António Ferreira nascido em Lisboa em 1528, matriculado na Universidade de Coimbra a partir de 1543, cedo se sentisse atraído pelo Teatro.

Aníbal Pinto de Castro assinala que nos meados do século XVI, sobretudo após a transferência da Universidade para Coimbra, em 1537, e a fundação do Colégio das Artes, dez anos depois, vivia-se na cidade do Mondego um exaltado fervor humanístico, "Nesse contexto, e após o êxito alcançado pelos autos vicentinos, o teatro assumia funções simultaneamente lúdicas e pedagógicas tão relevantes que, por alvará de 28 de Setembro de 1548, D. João III determinava que os lentes da 3ª e 4ª regras de Latinidade fossem obrigados, dali para diante, a fazer e representar em cada ano uma comédia no lugar e tempo que o Reitor achasse mais convenientes".

António Ferreira, escreveu duas comédias e uma tragédia enquanto frequentava os estudos universitários em Coimbra: A Comédia do Fanchono, escrita provavelmente durante as férias de 1552 e representada na Universidade de Coimbra, ante o Príncipe D. João (1537-1554), conforme se lê no frontispício da edição princeps, publicada anónima, em vida do autor, por João de Barreira, em Coimbra, em1562. E, não fosse a descoberta desta desconhecida edição por Eugenio Asensio, na Biblioteca Nacional de Espanha, teria ficado para a História do Teatro como a Comédia de Bristo. Um pouco mais tarde, terá sido escrita a Comédia do Cioso seguindo-se a tragédia Castro, género em que consensualmente se verificou a verdadeira inclinação do dramaturgo, igualmente escrita e representada em Coimbra, muito provavelmente antes de 1555, ano em que, a 14 de Julho, António Ferreira recebia das mãos do Doutor Afonso do Prado, na sala grande do Paço da Alcáçova, o grau de Doutor em Cânones.

Depreende-se pela leitura da sua obra, que Coimbra "Foi o período mais feliz da sua vida, a que nos anos a seguir se referia sempre com saudade". Deste modo, ao deixar Coimbra e a Universidade por volta de 1556, aonde já dava aulas como lente, sofreu um grande abalo já que veio para Lisboa ocupar funções como desembargador na Casa do Cível, uma situação que não lhe era desejada. Assim, Lisboa foi para ele uma espécie de exílio.

Por essa altura deixou de escrever teatro, fosse porque lhe faltasse o seu público, composto por estudantes, fosse pela responsabilidade do cargo, ou então porque o espírito do tempo favorável às artes, tendia a distanciar-se dessa década promissora, de mecenato e de tolerância, que foi a década de cinquenta. E parece ser que com a morte do malogrado príncipe D. João, pai de D. Sebastião, a quem foram dedicadas entre outras, as comédias de Sá de Miranda, a Comedia Eufrosina de Jorge Ferreira de Vasconcelos e a representação da primeira comédia de António Ferreira, foi dado o golpe de misericórdia e, de uma certa maneira, se fechou o pano do teatro português.

Luciana Stegagno Picchio na sua História do Teatro Português assinalou que dois factores contribuiram para a falência da comédia erudita no nosso país: o Público e a Censura. Não havia ao tempo, a protecção do "manto  de uma inteligente cultura" e, por outro lado, tínhamos uma Inquisição, que impediu inclusivé que a Corte se divertisse com esse teatro, ao contrário do que acontecia na Itália.

Voltemos ao dramaturgo. Definitivamente Lisboa não foi um bom destino para ele. Quando o sol se pôs naquele dia 30, do mês de Outubro de 1569, a peste estendeu-lhe o seu braço lazarento. Tinha 41 anos. Do transe pessoal e intransmissível que terá sofrido nesse dia fatídico apenas podemos conjecturar... Mas, falemos do teatro de António Ferreira, já que a vida é breve mas a arte é longa.

Dois episódios intrigantes, são ilustrativos dos diferentes precalços que podem envolver uma obra. Refiro-me ao texto da primeira comédia chamada de Fanchono, dada ao prelo em vida do autor e que posteriormente, terá sido "limado" e "rebaptizado" como Bristo, na edição de 1622. Quem consulte o Dicionário de Rafael Bluteau, não encontra o termo "fanchono", mas através de "fanchonice", é remetido para o termo "Mollicie", designado como "pecado torpe, que as leys do Reyno castigão com degredos de Galés, & outras penas". Directamente somos remetidos para o termo latino "molles", que compreende "vida efeminada ou hábitos efeminados". De quem foi a ideia de alterar o título original da comédia não sabemos mas, o facto em si, diz alguma coisa sobre os processos da censura ao tempo.

Anónima saíu também, e já postumamente, em 1587, a Tragedia muy sentida e elegante de Dona Ines de Castro, que se revelou um foco de polémica, quando em setecentos foi "detectada uma inequívoca semelhança" com o texto castelhano Nise lastimosa, saído no prelo em 1577. Deste modo, a sua obra, de todas a mais bela, quase lhe foi sonegada. Felizmente foi desfeito o engano e provou-se a efectiva precedência da tragédia portuguesa, obra exímia, ímpar não só em Portugal como na Europa.

A Castro, é a trágica fatalidade que arrasta Inês para a morte imerecida e, no dizer de Jacinto Prado Coelho é "a obra-prima do teatro clássico português e uma das mais belas e "modernas" tragédias renascentistas" e, segundo T. Earle "Obra-prima do Renascimento Português e uma das peças mais bem conseguidas de toda a Europa Quinhentista". Não se cansa o lusitanista de assinalar que a dramaturgia quinhentista portuguesa é riquíssima e não tem paralelo na altura em nenhum outro país Europeu, excepto na Itália, sendo o caso português  o mais rico e o mais interessante. Quanto a si, nem em Espanha, França,  ou Inglaterra, havia tanto teatro nem de tanta qualidade.

Embora o classicismo deste teatro pareça ser um obstáculo à sua recepção, em verdade a Castro sempre que é encenada constituí um sucesso enorme que dá que pensar. Quanto às duas comédias, José Augusto Cardoso Bernardes, numa sessão de os Clássicos na Bulhosa, um ciclo de Leituras Encenadas de Clássicos Portugueses, realizado pelo Teatro Maizum em 2008, teve oportunidade de referir que António Ferreira é muito moderno nas comédias que escreveu, e que faria "boa figura" na cena teatral portuguesa. Nós subscrevemos.

 

Silvina Pereira

 

Lisboa, 23 de Maio de 2012