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Os elefantes têm sismógrafos nos pés

Conversa de Elevador

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O meu conto de Verão, publicado na última edição do JL

Os elefantes têm sismógrafos nos pés

 

Sempre se molhava quando entrava no dia. Aquele nevoeiro denso, manhãs com cataratas, embaciadas como cortinas do duche. E o vapor fininho infiltrava-se na camisa, pior do que o pó,

 não se pode sacudir.

 Resignava-se a essa convivência húmida, não olhar para cima, nunca, em busca de uma aberta, uma nesga de sol, menos uma superstição, mas uma questão de orgulho, sabia ele lá, uma espécie de altivez, esta de não dar excesso de confiança aos caprichos do clima. Se ele insistia em deitar cá para baixo esta baba pegajosa, descontrolado muco de superfícies frontais em desavença, deixá-lo estar,

 ele, o tempo, o maldito, e seu corrimento nasal... Que tornava toda a ilha em forma de chapéu-de-chuva numa escuma monocromática.

E dramaticamente monótona. 

 Sempre se molhava quando entrava no dia. E a cada manhã se exasperava com o seu acto reflexo, que era o de espreitar à janela do quarto, e esfregar a palma da mão em movimentos circulares nos vidros, como se o cinza se dissipasse na vidraça. Nada feito. A resposta,

 my friend,

 estava a soprar no vento. Uma tentativa estúpida de manter o bom humor. Sem disso surtir qualquer consequência para o seu estado de ânimo, que era mais ou menos o mesmo que o do tempo, pastoso, congestionado, entupido, como uma renite alérgica. Os ilhéus estavam acostumados a estas noites brancas que lhes tomavam os dias, e desvaneciam a paisagem, e empardeciam as casas... Emitiam uns arrulhados indistintos quando eram questionados e logo se tornavam outra vez vultos, mal se afastavam a mais de meio metro. Jaime convencia-se de que eles evitavam os turistas e as suas perplexidades meteorológicas, passavam por eles, encosta acima encosta abaixo, a uma prudente distância, ocultos pelo nevoeiro. Escutava-se-lhes o arfar. Podia ser um homem, podia ser uma vaca. Até nas mais escuras noites, sem luar, o invisível se resolvia com um jacto de lanterna e logo ali se divisava se era homem, se era animal,

 se vinha por bem se por mal.

 Na verdade, os autóctones regalavam-se com estes dias submersos. Ficava o espaço aéreo intransitável, do cais não saia nem entrava embarcação, mantinham-se assim retidos os forasteiros, a abastecerem-se no mini-mercado Raio de Sol,

 (cáustica ironia... ou então a polissemia que a junção de duas palavras, às vezes, admite; podia ser uma injúria àquele que jamais comparecia, bastava acrescentar o ponto de exclamação, o raio do sol!)

 a prolongarem a estadia nos bungalows, a passarem os dedos pelo menu do único restaurante da ilha, na esperança de que o prato do dia variasse: Nunca. Tão irrevogável como o nevoeiro, todos os pratos mantinham a contrariedade de uma cruzinha ao lado de cada item e a refeição disponível era invariavelmente carne de vitela estufada. O nevoeiro era cúmplice dos moradores e das suas bolsas que engordavam. Como as vacas, também engordavam, o nevoeiro retinha a humidade no pasto, e tornava branda e fresca a erva.

 Andavam pois contentes os autóctones, os de duas e de quatro patas, era-lhes benéfico, comparsa perfeito, o nevoeiro nesta época do ano. E Jaime sempre se molhava quando entrava no dia. E nem valia a pena descer até ao mar. O mar vinha até ele, gotículas salgadas entre a condensação espessa. Se a ira pode caber numa formiga, também penetra nos poros transpirados da pele. Ele transpirava irritação. Queria lá saber da paisagem, dos morros, das lagos, das quedas de água, dos horizontes marítimos... O que ele precisava era de cor. Nunca se sentira em síndroma de privação cromática, apanhava-se a si próprio a olhar estupidamente para uma laranja, para a manta azul cobalto da cama, o verde do candeeiro, o dourado tremeluzente da lâmpada, os olhos amarelos do gato

 (que para sua desdita também era de pêlo cinzento como o ar denso e pesado).

 Isto pega-se, pensava. À camisa, às paredes, ao pêlo dos gatos... Sabia lá ele se era o mesmo ou sempre um diferente,

a consanguinidade felina na ilha não concedia grande variedade, 

aquele que lhe entrava sem cerimónias e pontualmente pela janela e passava as horas seguintes a fixá-lo, também sem cerimónia.

Os gatos têm destas coisas, nunca desviam o olhar,

amarelo, com uma tira esguia e preta vertical no meio.

A fixá-lo sempre. Ele sabia qualquer coisa, mas os gatos são testemunhas mudas, não cometem inconfidências, não denunciam, nunca.

 Quem anda semanas no deserto queixa-se da mesma maleita, mas aí os beduínos contam com a complacência do céu. Sempre alivia os olhos, e as ardências do sol reverberam na areia, como pinturas impressionistas, há brilhos, várias tonalidades a desembrulharem-se duna após duna.

Maldição. Aquilo andava a consumi-lo por dentro, lentamente mas com método, como fazem os bichos da seda às folhas de amoreira. E não era só ele que andava com a paciência corroída, o cérebro a ser triturado por tenazes miudinhas, de tanta consumição de bruma a esboroá-lo, a fazê-lo arregalar os olhos na ilusão de falsa miopia, a praticar o estúpido e esperançoso ritual de esfregar vidraças pela manhã, havia para mais de três semanas. Os outros hóspedes do resort. Jaime não os via, mas escutava-lhes a exaltação.

 Semanas inteiras dentro de uma nuvem, até em terra provoca turbulência.

 Os bungalows dispunham-se em círculo, voltados para dentro, como antigamente as caravanas, para se protegerem dos índios na pradaria. Quando não se vê, apuram-se os ouvidos.

 Os sons todos daquele acampamento de colonos nos seus ouvidos.

O bichanar agreste das duas holandesas, a soltar silvos asmáticos que se confundiam com as gargalhadas sarcásticas das gaivotas; os jovens em lua-de-mel, que quase se esgatanhavam de rancor,

 (a única coisa que ainda lhes salvava o casamento era o mesmo que o condenava: ao menos, o nevoeiro impedia-os de se verem mutuamente);

O casal com crianças que levava o dia a berrar pelos filhos, com medo que eles caíssem pelas furnas abaixo, de águas enxofradas e borbulhantes que os autóctones, sempre com um sentido prático assinalável, deixavam intencionalmente sem protecção. Assim se caísse algum animal, algum coelho bravio, uma galinha incauta, ficava a refeição resolvida. Bastava repescar a refeição, já cozida, com um pau muito comprido com um gancho na ponta.

 Jaime não se interessava por estas particularidades gastronómicas. Nem por estas nem por nenhumas. Tinha vindo para a ilha com um propósito muito pragmático, e o gato seguia-lhe os dedos nervosos no teclado, o indicador hiperactivo, a fazer "backspaces"

 ßßßßßßßßßßß...

 consecutivos, porque não atinava com aquilo, estava bloqueado, maldito nevoeiro, não lhe arejava as ideias. Está bem que a missão era difícil... Enfim, escusava de estar para ali com eufemismos, a missão era medonha, macabra, inconcebível, lúgubre... Mas não se pode dizer que não a um morto. É uma impossibilidade.

 Os mortos são muito intransigentes.

 Um dia uma voz sumida ao telemóvel. Sim, claro que se lembrava dela, pois é, dos tempos do liceu, inesquecível, como está tudo, vai-se andando.

Só que ela não ia nada andando (malditas frases feitas, de protelar assuntos)

Arrependeu-se logo, ainda não tinha terminado de a pronunciar, mas a sílaba adiantou-se ao pensamento. É sempre assim. A ex-colega, um drama humano, uma doença degenerativa daquelas que ainda fazem da medicina deste século uma ciência oculta, e penava numa cadeira de rodas desde a adolescência, a coluna, a cada ano mais encaracolada, enquanto os músculos se iam atrofiando. Irremediavelmente. E era do "irremédio" que ela lhe vinha falar. Do fim. Queria vê-lo, se possível, não mais de cinco minutos, um fim de tarde, coisa rápida, nada que lhe provocasse incómodo. Que sim, e lá foi, venceu o constrangimento de se aproximar da cama, faces violáceas, chupadas, cabelos negros, beleza nula, nem o mínimo ensaio de a recompor, e uma estranha e lúgubre protuberância abdominal, por baixo da coberta, como uma gravidez sem feto. Em virtude da doença, explicou-lhe, nunca tinha feito nada da vida, basicamente um caminho de ida e volta, da cama de casa para a cama do hospital, e ultimamente os internamentos espaçavam-se cada vez menos... Que lástima. Pois, que lástima. De maneira que, para abreviar

(e ele bem via o quanto lhe custava conversas longas, a fala espremia-se como uma esponja até ficar seca, áspera, chegava-lhe em forma de zumbido aos ouvidos, quase inaudível, tinha de fazer uma pausa para inspirar longamente na máscara de oxigénio, depois retomava com a voz mais compensada),

precisava que ele lhe fizesse um favor, algo de pouca monta, seguramente, sendo ele tão vocacionado para a escrita, desde os tempos do liceu, pois era, lembras-te?,

(pausa para alívio cómico e lembrar umas traquinices dele, que agora à distância lhe pareciam embaraçosas de tão pouco engraçadas, num teste de português, mas de raspão, porque as gargalhadas puxavam-lhe a tosse)

e agora em adulto tão premiado, tão dotado para slogans publicitários e sound-bites...

(mais um lufada de oxigénio, Jaime não via onde ela quereria chegar).

De repente, a mesma mão lassa que segurava a máscara procurou a dele. E ele nunca sentiu a textura de uma mão assim. Húmida. Como se fosse um molho de cabelos pingados. Queria que Jaime lhe inventasse umas últimas palavras, para ser recordada na missa do primeiro ano do seu falecimento. E a seguir a mão-cabelo deslassou, escorregadio entre os seus dedos, tinha agora o peso de cabelos frouxos, espigados, prestes a despegarem-se do couro cabeludo, e a entornarem-se no chão. O peso da alma, pensou Jaime, e quando atravessou a casa, e os olhos dos pais dela tentaram encontrar o seus, cabisbaixos, a seguir um percurso de fuga de incêndio imaginário no chão, sentiu atrás de si o rumorejo dolorosamente resignado de quem procede à arrumação de algo que estava há muito para arquivar.

 Jaime passou os meses seguintes a sentir cabelos húmidos a emaranharem-se nos dedos. A sensação não o largava nem a dormir. Ganhou o tique de andar sempre a esfregar os dedos na palma da mão, como se estivesse permanentemente a tentar libertar-se de fios pegajosos. Chegava a senti-los na boca, e vinha-lhe uma aflição de engolir cabelos, arranhavam-lhe a garganta, fazia um estardalhaço de engasgos e vómitos, à mesa de reuniões, com os clientes e os colegas a olhar, comprometidos . Certo é que se passou quase um ano, estava a terminar o prazo e nada. Não lhe saía nada, nem as últimas palavras da amiga, nem os cabelos que se lhes emaranhavam nos gestos.  Apregoar um morto não é o mesmo que vender o ph neutro de um champô para cabelos delicados.

 (aliás, invocou objecção de consciência para tratar dos anúncios de champô e amaciadores, o assunto cabelos tornou-se para ele insuportável, chegou a sugerir à namorada que os cortasse rentes, não tolerava senti-los a roçarem-lhe na cara ou apanhar algum desavindo, solto na almofada, ou enrodilhado no ralo da banheira. A namorada fez uma trança e as malas)

 Então Jaime, percebeu que para se livrar da morta e dos seus cabelos da morta que lhe formigavam entre os dedos tinha de lhe escrever as últimas palavras. E foi assim que apanhou o avião para a ilha mais remota do arquipélago e veio parar a esta nuvem flutuante, como um olhar baço e esvaziado, sempre na horizontal. Como a morte.   

  ßßßßßßßßß...

 E o gato atento aos cliques destes dedos frenéticos. Se ela ao menos lhe tivesse dado indicações. Mais luz, pediu Goethe, quero uma escada, exigiu Gogol, esperem um momento, sugeriu um papa, aplaudam amigos, acabou a comédia, decidiu Beethoven, não atrapalhem os meus círculos, indignou-se Arquimedes, isto é um absurdo, isto é um absurdo, reconheceu duplamente Freud, quando a música apagar, apaguem as luzes, determinou Hitler, e os Doors a aferroarem-lhe o suicídio de rato num esgoto,

 Music is your only friend until the end.

 Mas logo se distraía do ecrã, do teclado, dos olhos do gato, e mergulhava no dia lá de fora, e sempre se molhava naquele banho turco ao ar livre, parecia-lhe distinguir cabelos húmidos a boiar na piscina. Negros.

tinha ganho esta tineta havia dias e até sonhava com isto,

que alguém mergulhasse na piscina e lá ficasse, porque se desorientava com o maldito nevoeiro, e em vez de nadar em direcção às escadas, ia para a parte funda, e cansava-se e perdia o pé e...

Com o varão da rede, Jaime escrutinava o fundo da piscina, como uma sonda, a cada metro, cada centímetro. E fazia-o como quem cumpre uma missão dolorosa, esquecido daquela a que tinha acordado , e arrepiado, com medo que a vara encalhasse nalgum corpo mole. Uma vez estremeceu, tocou num corpo, mas vivo. As duas holandesas insistiam em usufruir das férias, soltaram uns impropérios em dutch, o pau deve ter batido numa zona dolorosa, calculou Jaime. E viu dois vultos apressados a saírem da piscina. Parecia-lhes que iam sem fato de banho. Tinham pragmatismo estas gentes dos nortes, assim como assim, não se via nada, a roupa era uma desnecessidade, ainda por cima não secava nunca. Sempre se molhavam quando mergulhavam no dia. 

 Estas manobras compulsivas de Jaime acabaram por desincentivar os banhistas. Ele bem via como era olhado pelos restantes hóspedes, à hora do jantar, o vislumbre rápido para os gestos obsessivos das suas mãos a desenvencilhar cabelos imaginários, no tal restaurante da vitela estufada.

 De soslaio.

Coisa que o gato cor de nevoeiro e olhos de farol

(que, por sinal, andava avariado havia anos, por negligência e inutilidade)

nunca saberia fazer: os olhos dos faróis e dos gatos olham sempre de frente. São implacáveis.

E o estúpido do gato, que não lhe aparecia fazia dias, começava a sentir-lhe a falta.

 Ele os seus olhos de amarelo-farol.

O pai de família também andava mais resignado, depois da barraca que armou, bateu com o punho na mesa, assarapantou os miúdos, que já não aguentava mais, exigia um prato diferente ou o livro de reclamações. Ah, e já agora que arranjassem a maldita televisão. E os ilhéus que sim, de cabeça muito enfiada entre os ombros, que amanhã estaria tudo resolvido. E de facto, a partir desse dia, a família teve direito a cabritinho estufado. E nos dias seguintes, apareciam carnes novas no menu, sempre estufadas, coelho, pernil de porco, fígado de coelho, rim de carneiro, costeletas de javali... Sempre se aliava o paladar, que a televisão essa permanecia estragada, mas já ninguém lhe ocorria reclamar. O nevoeiro baixava a tensão, era a sua teoria, e as pessoas amodorravam e amoleciam, tal como os autóctones em geral, que só arrebitavam e alestavam o passo para trazer o aparelho portátil do Multibanco às mesas - esse nunca avariava.

Se Jaime não estranhou o desaparecimento súbito do gato,

 De nevoeiro todos os gatos são parvos, 

 Ainda menos ligou ao facto de lhes impingirem javalis selvagens naquela cuspidela de vulcão. Nem ao facto de cada vez restarem mais cadeiras vazias no restaurante... O primeiro a desaparecer foi o recém-casado. Aquele casamento não tinha futuro. Devia estar enfiado em casa arrependido daquela palavra com três letrinhas apenas

Sim.

Depois, uma das holandesas (Jaime não as distinguia), em seguida o pai de família...

Por esta altura, Jaime intensificava as suas averiguações no fundo da piscina, não fosse dar-se o caso... No computador nem uma linha, nem a primeira das últimas palavras. Os sentidos aguçaram- se, à falta de vista, de uma maneira que nunca supôs.

 E os elefantes têm sismógrafos nos pés, ouvira num documentário sobre a vida selvagem. Comunicavam com as outras manadas através das vibrações que as suas passadas causavam no chão da savana africana.

Arranjara um amigo, o parvo da vila

 Todas as terras têm um.

 Ao longe, o vulto metia medo, era o protótipo do bom gigante, enorme, disforme, andava sempre a carregar algo, sacos, lenhas, volumes suspeitos, vivia de pequenos recados, o pobre. E arremessava as tralhas que transportava ao ombro para o ajudar prontamente na sondagem diária na piscina. Entendiam-se sem palavras. E isso era desintoxicante.

Pernas arqueadas, que lhe davam um andar balanceante como se estivesse embarcado. Sorriso enternecedor de criança, que nem os dentes em falta escangalhava o encanto, ar sardento, debaixo do encardido adivinhava-se um cabelo claro, talvez ruivo. Não era daquelas paragens de gente meã e encolhida.

 As mulheres com dificuldade em cruzar as pernas, os homens em cruzar os braços.

 Algum gene de pirata, congeminava. Aliás, se a ilha tinha destes acessos de nebulosidade intensiva, podia ser invadida a todo o instante, ninguém daria conta. O arfar dos piratas cruzava-se com o arfar dos conterrâneos encosta acima, encosta abaixo. E quando reconheciam o vulto do invasor a menos de meio metro, já estava a ilha tomada.

Jaime sentia-o chegar, pelas vibrações das suas passadas no caminho.

 Os elefantes têm sismógrafos nos pés.

 Mas andava animado, a malta acostuma-se, é o que é,

A teoria Darwinista de regresso à escala de uma micro-ilha, os sobreviventes não são os mais fortes nem os mais inteligentes - são os mais adaptáveis. Jaime sentia a sua produtividade a aumentar, passava noites a escrever, a incumbência que ele carregava para a ilha que antes lhe parecia pesada como um menir, agora assomava-se-lhe mais atenuada.

As ideias começavam a surgir, provavelmente ficaram retidas pelo congestionamento meteorológico, e saiam em jorro, saltando o dique. O brutamontes, adorável criatura, contemplava-o, no lugar do gato. Fazia-lhe bem aquela presença. Inspirava-o.  As mãos já descansavam mais amiúde do torvelinho dos cabelos. Alinhava as várias hipóteses sustentáveis em ficheiros. As últimas palavras mais circunspectas, as sarcásticas, as ternurentas, as comoventes, as absurdas, as virtuosas, as enigmáticas que deixariam as pessoas a pensar, as eivadas de esperança no caminho da humanidade... Na ocasião, logo se decidiria pelas mais adequadas.

Uma manhã ouviu um ronco de avião, levantou-se da cama, e esfregou a vidraça e havia um sol, tímido e sorrateiro, mas sol, saiu lá para fora, e quando mergulhou na manhã não se molhou.

Arrumou as coisas à pressa, tinha de ir para o aeroporto, apanhar o regresso daquele avião. Era o dia da missa da falecida, chegaria em cima da hora, para fazer o discurso e anunciar as suas últimas palavras.

Sentiu as vibrações das passadas do amigo, sem o nevoeiro não eram tão nítidas, pousou as malas, olhou em volta, não distinguia de onde vinham.

Os elefantes têm sismógrafos nos pés.

Tinha pressa, precipitou-se para o aeroporto, reclamou o seu bilhete, despachou as malas, dirigiu-se à porta de embarque, nenhum dos turistas do resort viajavam neste voo. Apenas alguns ilhéus encafuados, a encolher o pescoço, sempre com a cabeça enfiada entre os ombros.

Na descolagem olhou o ilhéu,

 Ah, mas são verdes.

 Olhado de perto nenhum sítio é normal. O ilhéu do banho turco, em que todos respiravam o mesmo ar, parecia agora vibrante de cor, pastos, lagoas, cursos de água, vegetação.

Só lamentou não se ter despedido daquele amigo improvável, monstro inspirador.

 Chá, café ou larajada?

 Distraiu-se, consultou o horário, restavam alguns minutos de voo, iria seguir directamente para a igreja, onde diria as últimas palavras

Palavras, palavras, palavras...

Sentiu no peito o rombo de uma vibração como as passadas de elefante. E não era um poço de ar.

O computador portátil ficara na ombreira da porta, esquecido, decerto quando parou para procurar o amigo, muito provavelmente fora ele que o subtraíra discretamente e ele nem dera conta na pressa da abalada. Se houvesse nevoeiro, ao menos, ele pressentia as suas vibrações nos passos. E agora, o avião preparava-se para aterrar, e nem uma das últimas palavras que escrevera lhe vinha à cabeça. Recomeçou a coceira nas mãos, o tique nervoso de se desembaraçar de cabelos. Tinha uma branca na cabeça como a do nevoeiro, que lhe absorvera as lembranças, quando se recolheu, lá para esse lugar que suga todas névoas, antes de as soltar cá para fora. Nada de nada lhe vinha à cabeça. Ou quase nada. Ao sair do Táxi em direcção à igreja, já tumultuosa de silêncios e pesares, levava na mão uma folha solta onde havia rabiscado:

"Os elefantes têm sismógrafos nos pés".

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