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Gatos e parafusos, por Afonso Cruz

Conversa de Elevador

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As generosas palavras do escritor, ilustrador, músico, produtor de cerveja (e seguramente muito mais) Afonso Cruz

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 Um cão, quando o chamamos vem em linha recta. Um gato, quando o chamamos, vem aos esses, passa pela pernas da cadeira, pelos pés da mesa, chega finalmente até nós. São maneiras diferentes de chegar ao destino. Mas centro-me no gato, que dá "passos em volta", salta para o nosso colo e passa a ser nosso, depois de andar aos esses, como quem anda num barco. É o que acontece no livro da Ana Margarida de Carvalho, no seu modo de escrever. Deita-se no nosso colo.

 A escrita é intensa, muito intensa ("sem curvatura de lombo, sem por favor"), escava e perfura, é um parafuso de palavras a entrar pelo corpo adentro, carregada de muitas outras coisas, de outros livros, de músicas, de filmes, de poesia, de História. Nenhum texto vem só, cada livro tem o seu passado que carrega consigo, tem as suas rugas e os dedos encarquilhados, e anda com as suas referências, de mãos dadas com muitos outros textos, frases e pensamentos. Isso dá-lhe espessura e um andar firme, felino, sem rectas, mas com a certeza do lugar para onde se dirige.

 Que Importa a Fúria do Mar tem uma história envolvente, construída em profundidade, trazendo consigo um conteúdo de paredes sólidas, coesas e antigas, com varizes ("Estas paredes têm varizes, mãe, como as pernas dos velhos"), e, ao mesmo tempo, totalmente novas, a cheirar a manhãs e a pão. A forma é muito bem trabalhada, apesar de servir o conteúdo, do mesmo modo que as nossas roupas servem o nosso corpo e não o contrário. É um parafuso, que anda às voltas, para furar em linha recta. O parafuso parece "redondamente enganado": mas nada é mais eficiente a caminhar em frente do que aquilo que dá voltas. Como os gatos. Como os gatos que nos saltam para o colo.

 À personagem feminina, Eugénia, entram-lhe pelo corpo os cheiros que Joaquim viveu, os hálitos infectados, as febres, o lavar dos lençóis de sangue, as órbitas sem olhares, a paixão idealizada. Os seus ouvidos, tal como os nossos, tal como a leitura deste romance, não têm pálpebras, e ficamos ensopados pelas palavras, pelo vocabulário, pela capacidade de gerar imagens e sentimentos.

 Eugénia sente-se ridícula porque não experimentou grandes sofrimentos como os de Joaquim. A sua vida não andou em perigo. Contudo, irá conseguir viver as experiências dele, as suas recordações, as suas dores e esperanças, esfolará os joelhos, apaixonar-se-á, ficará com as palavras sem pálpebras, confrontar-se-á com todos os episódios contados, com os momentos de violência, tortura e morte.

 Joaquim não vive sozinho as suas memórias. A partir do momento em que as conta, tem outras pessoas ao lado, dentro dele, à sua volta, a olhar através dos mesmos olhos verdes. Primeiro Eugénia, depois todos os leitores. Ninguém sai deste livro sem ter sido preso no Tarrafal. Ninguém sai deste livro sem o pó amarelo da terra na boca, sem o plasmodium vivax a dar-lhe cabo do fígado, dos rins, dos intestinos, do cérebro, sem vontade de beber um gin tónico para limpar a garganta, sem ficar comovido, sem ficar deslumbrado.

  Que Importa a Fúria do Mar é um gato que foi de uma autora e que muda de dono e se aninha nos leitores. É um parafuso que anda às voltas para furar a direito.

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