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E voltámos para casa mas por outro caminho

Conversa de Elevador

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Uma viagem verídica - enfim todas as viagens são verídicas

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E voltámos para casa mas por outro caminho

 

 

A primeira vez que a conheci, não foi a primeira vez que a conheci.

Já tínhamos uma boa meia centena de quilómetros trilhados em conjunto, não trocáramos mais do que as palavras essenciais para estabelecer o destino e dar início à bandeirada. E sim, uma cordialidade comedida.

Para a Baixa, se faz favor. Quanto é? Pode ficar com o troco...

 Até ao dia em que tudo se processou com aquele automatismo de filme, que não têm tempo nem fotogramas a perder com redundâncias ou com os contratempos triviais do quotidiano. E então o táxi parou junto a mim, mal saí do edifício e seguiu pelo caminho do costume, e só no final da viagem, quando fechei a porta, reparei naquela nuca que ia ao volante. É estranho conhecer alguém pela nuca.

Geralmente as pessoas reconhecem-se pela parte da frente.

Mas aquela nuca de mulher, com caracóis indecisos, a menear delicadamente enquanto seguia por uma artéria empedrada, dessas à antiga, ainda não alcatroadas, que fazem resvalar o freio de direcção... aquela nuca era-me tão familiar como as palmas da minha mão.

Como se costuma dizer... porque não há ninguém no mundo que se ponha a olhar para as próprias mãos ao ponto de lhes conhecer os traços e os labirintos das linhas, os sulcos, os dermatóglifos, nem as convergências, os desvios, depressões, cristas, planuras, interrupções, fragmentos papilares- isso é com os técnicos forenses e mesmo assim só sabem as dos mortos e as dos criminosos. Mais fácil conhecer os próprios pés, o próprio umbigo (que é uma metáfora) ou a ponta do nariz (o que também pode ser uma metáfora).

Bom, o certo é que aquela nuca era minha conhecida, nunca tinha sentido tanta afinidade por uma nuca, e quando ela me apareceu de novo na semana seguinte, sentei-me no banco de trás com o bem-estar de quem chega a casa e encontra a velha poltrona deformada e cumpre o ritual de afastar o gato, ao de leve com as costas da mão.

Suspendeu o contador. Perguntou-me se tinha pressa. Disse-lhe que não. Na verdade era Agosto, a cidade estava deserta, não tanto pelas transumâncias dos veraneantes, que o desemprego deixara muitos apeados, mas porque o calor entopeirava as pessoas, à sombra, nas casas, nos cafés, sobretudo no ar condicionado de centros comerciais decrépitos.

E então a nuca contou,

 E na voz entrecortada pelos sobressaltos do trânsito, ralo mas sempre constrangido, notei-lhe um sotaque do norte, aquela maneira tão especial de dizer as sílabas todas, e de dar um tom cantado ao final das frases.

Contou que tinha andado muitos anos na estrada. Tantos, que aprendera todos os truques das mudanças, dos pontos de embraiagem, de travar com o motor antes de uma curva apertada. Vinha de uma aldeia de casas eriçadas pelo xisto, de velhos de um só dente, onde os cogumelos tinham a grandura de um chapéu mexicano. Um dia, um incêndio, fogo posto talvez. Só se salvaram as casas, as pessoas e os currais, tudo à volta uma paisagem lunar, que largava baforadas de poeira cinza a cada passada.

Pequenos passos para a humanidade.

Então pegou nas economias, embalou um vaso com uma buganvília raquítica, atrelou o velho cão já cego. Andou à boleia, sem lhe interessar o destino, sobretudo camionistas, foi conduzida às voltas pelo país, sem nexo. O cão perdeu-o, numa estação de serviço- não sabe se estará num canil ou a fazer de adubo numa berma de estrada. A buganvília, privada de fotossíntese, mirrou até crepitar de sequeira. O vaso escaqueirou-se. Mas conservou a terra. Era o que lhe interessava.

A nuca falava, e eu via-lhe um pedaço de rosto oblíquo e metade do óculo espelhado, enquanto me espreitava discretamente pelo espelho retrovisor.

E andávamos às voltas pela cidade, sem critério nem direcção, escolhíamos os percursos de forma aleatória, às vezes reencontrávamo-nos no ponto de onde partíramos e ríamo-nos. A vida é um carrocel, disse eu.

Nada disso. Ela vinha lá da terra, a sua, conhecia-lhe os segredos e os dos que as pisavam. Contou que à noite era embalada pelos uivos dos lobos. Que não tinha medo nenhum. Eles sim, milhares de séculos de perseguição e 225 milhões de células olfactivas mantinham-nos à distância. Aliás, o último ataque de um lobo a um humano tinha ocorrido nos anos 50. Mas o animal tinha raiva. E com raiva até o mais pacífico dos cervídeos pode atacar, numa ferocidade insana. Ela sabia distinguir as pegadas de um cão e de um lobo. O lobo seguia a direito, como uma flecha, sem desperdiçar energias, na senda de uma presa, em fuga de um caçador. O cão derivava, distraía-se, as pegadas eram errantes, parava para cheirar qualquer coisa, dava voltas sobre si próprio, invertia a marcha...

Os cães são imaturos, lobos que nunca cresceram. Os cães são lobos Peter Pan. Preferem não levar a vida muito a sério. 

Como nós, agora.

Ao fim de tantas andanças, como um cão imaturo, parou aqui nesta cidade porque tinha mar. Alugou um quarto na casa de um velho taxista, já reformado, e repartia com ele os proveitos das tarifas e das gorjetas. Ainda não tinha chegado ao seu destino, achava ela, mas estava mais perto. Todos os meses, lançava ao mar uma garrafa com um pedacinho de terra da aldeia, e uma mensagem com o seu contacto. Acreditava que quando essa garrafa chegasse às mãos certas de alguém no alto mar, numa praia distante, ela então sim, seguiria até lá, ao seu destino, estilo seta, na diagonal que é como se calculam os percursos geométricos. Como os lobos.

E fizemos mais voltas, e circunavegámos a cidade por dentro e por fora, boiámos nela, ao sabor da vaga, uma garrafa-táxi com uma mensagem

e um bocadinho de terra dentro.

Depois fez-se tarde, e voltámos para casa. Mas por outro caminho. 

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