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Um clone egípcio: "Keos" de Jacques Martin & Jean Pleyers

As Sequências Rebeldes

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Já se referiram aqui duas séries lançadas em Portugal pela editora de Barcelona NetCom2 Editorial, seguindo o estilo da linha clara/BD histórica franco-belga. No entanto, se A última profecia e As Investigações de Margot conseguem definir uma identidade própria autónoma, Keos reflete mais aquilo que se temia fosse o catálogo da editora.

Não quer isto dizer que a série não venha a ter sucesso, pelo contrário. Enquanto uma espécie de clone em versão "série B" da mais famosa série de Martin, Alix (ASA), Keos (Casterman) poderá, potencialmente, ter bastantes leitores. Isto porque cumpre as características clássicas de uma série de Martin: uma narrativa de cariz histórico clara, que tem paralelo no desenho clássico e nas cores luminosas e planas. E que funciona sobretudo enquanto pretexto para a representação (sempre muito pesquisada) de uma época, ao nível dos acontecimentos, hábitos, roupas e arquitetura, neste caso do Egito pós-Ramsés II. Na verdade, uma maneira de encarar a obra do francês Jacques Martin (falecido em 2010) é enquanto uma espécie de guia interpretativo de diferentes épocas históricas. Embora o autor também tenha produzido obras que são abertamente pedagógicas, em todas as suas séries esse elemento é óbvio, e talvez o motivo principal da sua atração. Até porque (sobretudo em Alix) o autor mantem uma ficção suficientemente competente por entre os factos, ao contrário de outras bandas desenhadas pedagógicas, que basicamente debitam informação histórica com um mínimo de estória que nem o chega a ser.

Argumentista prolífico, Martin nunca teria tempo para desenhar todas as histórias que produzia, utilizando por isso colaboradores, como o belga Jean Pleyers em Keos e Jhen (passada na França de Joana d'Arc). Mas, ao contrario de argumentistas que explicitamente procuram diferentes tipos de desenhos adaptados a diferentes tipos de histórias (Alan Moore ou Neil Gaiman, por exemplo), no caso de Martin, e talvez por ser igualmente um excelente desenhador, a matriz está completamente definida, e o estilo só pode ser um. De facto, as séries de Martin parecem muitas vezes desenhadas por clones do autor. Mais uma vez: para o público-alvo a que se destinam isso não é necessariamente mau, veja-se o sucesso do Blake & Mortimer pós-Jacobs.

Passada no antigo Egito, retratado com seria de esperar numa obra de Martin, Keos é também uma boa aposta por ser uma série curta, com apenas três álbuns. E, na verdade, não se trata de um Alix egípcio, a série começa com a morte do Faraó Ramsés II mas rapidamente evolui para a fuga dos escravos judeus rumo à terra prometida, com Moisés como uma das personagens principais. O protagonista começa pois como guia do antigo Egito (seguindo a lógica de outras séries de Martin), mas rapidamente evolui para testemunha do Antigo Testamento. Keos tem, no entanto, alguns problemas. 

Desde logo a qualidade, não necessariamente do desenho e cores (perfeitamente miméticos dos de Martin), mas da sua reprodução, que não parece ter sido conseguida. Depois na própria estrutura da série que, sendo curta, exige a passagem de muita informação de forma expositiva. Poderia ter-se concentrado apenas no contexto por detrás da revolta de Moisés, mas a criação do protagonista, a necessidade de lhe dar uma história credível, e a vontade de através dele caracterizar o próprio Egito ao nível das suas elites dirigentes (que não é central ao que acaba por ser a história principal) faz com que não consiga resolver bem as várias narrativas secundárias que vai criando, nem justificar para lá do óbvio o conflito entre judeus e egípcios e o extremar de posições. Finalmente, vai buscar uma mescla de elementos fantásticos como muleta narrativa algo gratuita. Ao menos Jacques Martin é ecuménico, dando poderes, quer ao Deus egípcio Osíris, quer a Jeová (nomeadamente ao nível das famosas pragas), mas é uma solução que não resulta muito bem, porque num momento há uma explicação racional para um fenómeno, no outro surge uma aparição sobrenatural a resolver um conflito. Falta ver como os autores resolveram a série no último álbum (O bezerro de ouro), que deverá acabar na Terra Prometida. Mas nestes primeiros dois livros Keos é aquilo que uma série de Jacques Martin nunca deveria ser: uma narrativa que se ignora para apreciar o contexto histórico e a representação gráfica que lhe está subjacente. Já é alguma coisa, mas podia ter sido muito mais.

 

Keos 1: Osíris. Argumento de Jacques Martin, desenhos de Jean Pleyers. NetCom2 editorial, 48 pp., 15 Euros.

Keos 2: A cobra. Argumento de Jacques Martin, desenhos de Jean Pleyers. NetCom2 editorial, 48 pp., 15 Euros.