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Teratron e "As Cobaias"

As Sequências Rebeldes

Se um disco-conceito não é tão inédito como isso, um que mete BD chama a atenção, para mais com desenhos do talentoso João Maia Pinto. Se houver um filme inspirado no disco-BD também se vai ver. Se o filme for em 3D... Bom, aí desconfia-se.

"As Cobaias" é um projecto dos Teratron (Pedro Quaresma/João Nobre, ex-Da Weasel), mas é essencialmente uma história policial/mistério/folhetim de Adolfo Luxúria Canibal musicada por Nobre, com narração de Miguel Guilherme, declamação/voz do próprio Canibal, e letras adicionais adaptadas por SP e New Max, os outros dois vocalistas envolvidos.

O tom lúgebre inicial, o som da chuva e sobretudo a voz evocativa de Guilherme dão desde logo o mote: estamos num mundo que mistura o policial negro "hardboiled" com a ficção científica, num tom assumidamente de série B. E que funciona, diga-se já. Frank Miller, Walter Moseley e Jim Thompson não achariam graça à ficção científica, Quentin Tarantino e Roberto Rodriguez teriam introduzido mais humor, o primeiro com umas citações de Jean-Luc Godard, Takeshi Miike e Roger Corman, o segundo apenas com Corman. A história encontra-se bem complementada com desenhos de Maia Pinto que, sem ter espaço para fazer uma BD propriamente dita, pelo menos define visualmente o conceito de uma maneira interessante, o detalhe e o uso de sombras citando (bem) Charles Burns mas também Geoff Darrow. Se a arte-final de João Vinagre foi também responsável por esses aspectos merece que lhe sejam estendidos os elogios.

O problema da história é o mesmo do da BD: não há espaço-tempo para a contar convenientemente. O início é muito bom, o fim nem por isso. Talvez tivesse sido melhor um início em aberto, como ficou o fim, já que aumentar a duração nuns 15-20 minutos se calhar seria impraticável. Ou seja, começar em andamento e não querer explicar tudo, até porque não é muito necessário. Como em "Star Wars", se for preciso um exemplo.

Também teriam dado jeito outras personagens que "falassem". Explico: para além do narrador (Guilherme) o protagonista é o único a contar a história em discurso directo, primeiro no tom arrastado de Adolfo Luxúria Canibal, depois do rap de SP, depois na voz mais cósmica de New Max. Torna-se confuso, porque é a mesma pessoa a falar com vozes distintas. Curioso é que a voz com mais potencial "puro" (New Max) seja a que tem menos para dizer e contribua pouco para a história, ao contrário das outras duas, muito eficazes. Se isto parece uma questão menor, ao visionar o filme houve várias pessoas confundidas com as mudanças de voz.

Quanto ao filme, não é bem um filme. É um longo e simples videoclip em registo de concerto filmado, com uma "animação" mínima dos desenhos de João Maia Pinto e um 3D totalmente despropositado, no sentido em que nada acrescenta. Aliás, o filme "vê-se" melhor sem os óculos de 3D, ao menos introduz-se um elemento novo e agitam-se as águas com a distorção. É certo que há umas escolhas interessantes (o uso de saturação, por exemplo), mas perdem-se com a repetição de planos e soluções, falta a grandiloquência que a história pede. Nem que fosse encenar as últimas músicas num armazém arruinado; ou vestir os músicos de "agentes da secreta" e de "chineses"; ou fazer aparecer Miguel Guilherme como Deus Ex Machina. Qualquer coisa.

Tudo muito certo, mas "As Cobaias" é um disco... E então a música? Tanta coisa e não se disse nada sobre isso? Têm razão. A filosofia electro-funk a descair para um tom mais duro lembra muito algum Material e as linhas de baixo de João Nobre citam aqui e ali o próprio Bill Laswell. Isso só pode ser bom, e apesar da simplicidade de conceitos a música funciona de duas maneiras: por si só, e como complemento à história, que é o que se pretende.

Dando de barato que neste tipo de projectos multi-coisas a ideia tende a ser mais interessante do que o resultado final, em "As Cobaias" a música, história e universo gráfico defendem-se bem. O elo mais fraco é o "filme", que, fora um eventual uso pela banda em videoclips isolados ou em apresentações ao vivo, tem um interesse muito relativo, para usar uma expressão simpática. Mas o resto é bom, e espera-se que funcione com mote para outras colaborações.