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Separação de Bens no Inferno: "L'attentat" de Loïc Dauvillier e Glen Chapron.

As Sequências Rebeldes

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Numa relação o que é que é verdadeiramente partilhado? E o que é que muda nessa partilha com as mudanças no mundo envolvente, sobretudo quando a mudança não afeta os dois parceiros do mesmo modo?

João Ramalho-Santos

A banda desenhada por vezes chega dos locais mais inesperados. "L'attentat" (Glénat, 2012) passa-se em Israel, mas é uma BD realizada e editada por franceses, e foi-me trazida da Argélia. Mas a explicação é simples: baseia-se no "best seller" de 2006 do escritor argelino Mohammed Moulessehoul (que escreve sob o curioso pseudónimo Yasmina Khadra). 

O interesse do romance é demonstrado desde logo, não só na tradução para 20 línguas (em Portugal "O atentado" teve chancela da Bizâncio), mas na adaptação simultânea para BD e cinema em 2012, no segundo caso pelo realizador Ziad Doueiri ("À l'abri des enfants", "Entre as pernas de Lila"). O ponto de partida revela-se nas idênticas sinopses que podem ser lidas para os três meios. O protagonista Amine Jaafari é um prestigiado cirurgião num excelente hospital de Tel Aviv. Um caso raro: palestiniano de origem, tem nacionalidade israelita, vive com desafogo económico, e está perfeitamente integrado na sociedade que escolheu. Os seus amigos mais próximos são judeus, incluindo elementos das forças de segurança, e com eles discute as relações israelo-árabes de um modo civilizado, entre a vontade de resolução pacífica e a resignação ao caos organizado. Uma existência que se poderia definir como "ocidental", que vai ser totalmente posta em causa quando o responsável por um atentado suicida em Tel Aviv é identificado como sendo a sua esposa.

Não tendo lido o romance de Khadra tenho de presumir que a BD escrita por Loïc Dauvillier, com desenho realista e depurado de Glen Chapron, é uma adaptação fiel, no sentido em que o dispositivo que usa é muito eficaz a gerir o fulcro da história. Isto porque, fora algumas fotografias e uma carta póstuma que nada explica a não ser confirmar a identidade da bombista suicida, a mulher de Amine Jaafari é totalmente invisível, e permanecerá desconhecida. Para o leitor e, como se percebe no desenrolar do livro, para o próprio protagonista. O atentado apagou anos de idealizada vida em comum, e vai obrigar Jaafari a repensar todo o seu percurso. Incluindo, claro está, regressar ao outro lado do muro, aos territórios palestinianos que abandonou sem remorsos (e com compreensível alívio) anos antes, mas que agora acusa de terem vindo reclamar a vida da sua mulher. Uma vez chegada a carta-confissão a obsessão de Jaafari deixa de ser provar a inocência da esposa, e concentra-se em encontrar quem lhe fez a óbvia lavagem ao cérebro necessária para que tivesse feito o que fez: renunciar à sua vida, ceifando em simultâneo a de inúmeros civis inocentes. Como é que se passa de férias no Mar Morto e compras na baixa de Tel Aviv, a colocar um cinturão de explosivos e carregar num detonador?

De modo a tentar compreender o que se passou Amine Jaafari tem de deixar o conforto de uma cidade, onde agora o olham com suspeição, para percorrer os pouco quilómetros, e as múltiplas décadas, que separam judeus de árabes. Um momento que Dauvillier e Chapron gerem excepcionalmente, com silêncios, paisagens e expressões faciais, quase sem comentários. Estes surgem de forma indireta, à medida que o protagonista se vai embrenhando no dia-a-dia palestiniano, numa espiral cada vez mais apertada. Quando antigos amigos e conhecidos se revelam inúteis ou relutantes, Jaafari procura respostas nas organizações locais, nas mesquitas e, por último, em grupos clandestinos de rebeldes acantonados em aldeias arruinadas, sendo considerado alternadamente como um tolo vira-casacas, ou como um potencial traidor infiltrado.

Ao longo da interminável busca de Jaafari o enquadramento clássico de vinhetas e o desenho linear de Chapron não criam ambiguidade emotiva, não gerem sombras nem dúvidas, e isso é muito importante neste livro. Porque ninguém com quem o protagonista interage as tem, nem árabes, nem judeus. Só ele. Todos os outros parecem confortáveis na sua identidade, uns mais resignados, outros menos. E é por isso que ninguém está muito interessado em lhe explicar o que quer que seja. Para os palestinianos com os quais interage (e até para os seus amigos judeus) a escolha feita pela sua mulher foi de tal modo previsível que a única coisa que incomoda é que Jaafari o não entenda. Para quê perder tempo com perguntas inúteis? Para quem sabe a resposta é óbvia, e nunca poderá ser transmitida. A primeira mensagem é clara: Amine Jaafari renunciou a esse direito ao entendimento ao renunciar à sua identidade palestiniana. E, como os vizinhos rapidamente lhe recordam ao saquear e destruir a sua bela casa de subúrbio, nunca poderia ser um verdadeiro cidadão de Israel. 

Claro que há  uma óbvia carga ideológica em "L'attentat", que afetará diferentes leitores de maneira distinta, mas este não é um simples panfleto pró-palestiniano. Mais do que isso, o livro parece defender que pontos-chave de uma identidade não podem ser construídos individualmente, à revelia do contexto em que se nasceu. Sem definir o protagonista enquanto traidor, não há dúvida que o considera um ingénuo que apenas uma crise pessoal obrigou a refletir no destino de um povo que fora o seu, e que tinha renegado. Um homem cuja boa vontade e voluntarismo vão revelar-se mais destrutivos do que úteis. Se há uma Tese defendida ela é simultaneamente compreensível e muito perturbadora. Porque é esta: a Mestiçagem cultural que o protagonista simboliza dificilmente é um caminho válido em momentos de paz, e revela-se um anacronismo em tempos de conflito, onde o que importante é pertencer a um lado, sem concessões. O mesmo tipo de atitude surge, com outros cambiantes, por exemplo em "O fundamentalista relutante" um romance do paquistanês Mohsin Hamid (2007), adaptado ao cinema em 2012 com realização da indiana Mira Nair.

É certo que ao longo do livro Jaafari vai recuperando fragmentos da sua identidade, ao revisitar os seus territórios de infância, uma vez convencido da inutilidade de tentar entender o atentado que mudou a sua vida. E é aí, nessa resignação, que começa a estar disponível para a perceber as angústias diárias dos palestinianos que recusaram a assimilação. Um entendimento que atinge o paroxismo quando, no dia a seguir a uma festa alegre e movimentada, um parente com o qual tinha estado a conversar com toda a normalidade durante a noite se torna o mais recente bombista suicida; e, em resposta, o exército israelita destrói a quinta familiar. Da felicidade aparente, à destruição total. Essa é a normalidade diária nas aldeias palestinianas, e é também por isso que ninguém aí fica muito comovido com o sofrimento do protagonista.

O entendimento que Amine Jaafari pretendia na sua demanda, a verdade absoluta que exige, não é fácil, e implica riscos. Desse ponto de vista o final é muito pouco satisfatório na sua facilidade e linearidade. Mas quando o horror é a norma, torna-se difícil pedir mais. O essencial de "L'attentat" está no modo brilhante como faz a crónica de um regresso às origens feito descida ao Inferno. E, uma vez no Inferno, que mais haverá a dizer?

"L'attentat". Argumento de Loïc Dauvillier (adaptando o romance homónimo de Yasmina Khadra), desenhos de Glen Chapron. Glénat. 2012