Jornal de Letras

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RUGAS

As Sequências Rebeldes

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  Há muito que defendo que um elemento crucial que falta na edição de banda desenhada não são os livros "fáceis" com o potencial de chegar a um grande público que já nem sei bem qual seja (Homem-Aranha? Astérix? Tintin? Tex? Dragon Ball?), ou os "difíceis", dirigidos a um público exigente, e com  potencial inato para inspirar Teses académicas sem recorrer a artifícios supostamente "kitsch" ou "pós-modernos" (Persepolis? Fun Home? Palestine? Maus?). O que falta são precisamente as obras que fazem a ponte entre estes dois quadrantes (não extremos), na verdade os livros que lhes dão sentido, por oposição. (Texto publicado no JL-Papel)

João Ramalho-Santos

A Excelência não se constrói no vazio (em ciência, como em BD), tem de existir uma base de livros interessantes, bem feitos, que tenham ideias e, porque não, mensagens claras (desde quando é crime?); e as consigam transmitir, desencadeando respostas independentemente do género em que o livro foi feito, ou das preferências e preconceitos de leitores. Para que esta estratégia funcione os temas têm de ser universais, diretos, tratados com um misto de clareza, inteligência e subtileza. O risco evidente é a tentação dos "clichés" e automatismos (melo)dramáticos típicos de telefilmes, ou reportagens de "casos da vida". No fundo, trata-se de pensar o drama sem ceder espaço ao cinismo, ou, pior ainda, induzindo cansaço e saturação.

Em BD bons exemplos desse tipo de abordagem editados em Portugal incluem María e eu de Miguel Gallardo (ASA, viver com uma filha autista), Cancer Vixen de Marisa Acocella Marchetto (ASA, lidar com o cancro), ou o mais recente Comprimidos azuis, de Frederik Peeters (Devir, sobreviver ao VIH/SIDA). A que se junta Rugas, do espanhol Paco Roca (Bertrand). Editado originalmente em 2007 pela francesa Delcourt (Rides), o livro foi depois adaptado a cinema de animação em Espanha (Arrugas, de 2011). Ambos (livro e filme) receberam prémios, e é fácil perceber que foram merecidos. Rugas aborda um problema de facto universal: a velhice e a morte em vida causada pela doença de Alzheimer, devastando não só os pacientes mas, sobretudo, os que lhes estão próximos. Um bom sentido de composição, um notável uso da encenação da memória, e um desenho clássico subsidiário da "linha clara", fazem de Rugas um livro extremamente bem feito, que trata um tema complexo com respeito e simplicidade.

Seguindo personagens internadas num lar de idosos (inspiradas em pessoas reais), Paco Roca vai tecendo várias linhas narrativas (cruzadas, paralelas, tangentes) em torno de diferentes modos de envelhecer e de encarar o fim da vida. O livro está no seu melhor quando deixa correr de forma orgânica e inexorável a história central de uma amizade destroçada pela degradação mental, pontuada por pequenos episódios laterais (como em Special Exits de Joyce Farmer); perde quando não confia na sua essência e tenta injetar dramatismo desnecessário (a morte de um pensionista, o "clássico" episódio da fuga do lar). O drama inerente a Rugas é simples e profundo, não necessita de truques. E é este: ao contrário do cancro ou SIDA a velhice não tem cura nem tratamento. Ao contrário do autismo afeta(rá) toda a gente.

Tenho noção que isto não vai soar a grande elogio, embora o seja: Rugas é competente, legível, inventivo, feito com as melhores intenções. Teve ainda a sorte de ter sido publicado por uma Editora que o soube promover como merece. Se vai chegar a um público alargado, e que pode nem ler banda desenhada, ignoro, mas não será por não ter potencial para isso, ou por ter sido negligenciado. Sem ser uma obra genial, este é em absoluto, um excelente livro.

 

 

Rugas. Argumento e desenhos de Paco Roca. Bertrand Editora, 110 pp., 16,60€.