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Nostalgias Diversas: Algumas reflexões sobre seis livros recentes da ASA

As Sequências Rebeldes

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Ao contrário daquilo que sucede, apesar de tudo, com a poesia ou o romance (basta ler o JL) no ténue mundo português de banda desenhada habituamo-nos a uma verdade simples: qualquer edição é boa. Claro que há livros melhores do que outros. E edições que não se entendem.

João Ramalho-Santos

São seis livros ao todo, todos como o selo da mais importante editora nacional, a ASA. Um deles é fundamental, e de leitura urgente. Dois deles recomendam-se, quase sem reservas. Outros dois recomendam-se, com reservas. Um não se entende. Pelo menos há alguma simetria. E também uma iniciativa a registar: os três livros mais interessantes correspondem a dois álbuns de banda desenhada "clássicos", unidos num único volume. Não só o preço será inferior a dois livros isolados (o que teria acontecido no passado), como esta solução permite entrar mais a fundo nos universos de cada uma das séries. Resulte ou não do ponto de vista comercial, é uma boa ideia.

Dos seis o livro fundamental é o novo volume da série O gato do rabino do francês Joann Sfar (O Paraíso Terrestre/Jerusalém de África). Um dos maiores autores contemporâneos Sfar é magistral na junção de um conhecimento enciclopédico com uma vocação humanista, que consegue explanar sem cair, nem num falso otimismo ingénuo, nem num pessimismo pastoso e inútil. A série caminha entre a nostalgia por tempos mais simples e sabedorias antigas, e a realização clara que tais tempos nunca existiram, que foram apenas outros tempos atribulados cuja utilidade é ajudar a compreender o presente, pensar o futuro. Para além de uma homenagem ao passado da sua família na Argélia (e da inevitável tensão entre judeus e muçulmanos) O gato do rabino é feito de constantes variações sobre o modo como os seres humanos se encontram, e as maneiras que criam para se afastar, misturando para o efeito fábula, geopolítica e, sobretudo, uma análise crítica da religião. Transformar discussões filosóficas aparentemente áridas e inúteis entre rabinos, padres e imãs sobre passagens de textos religiosos numa fonte fascinante de diálogo e confronto é apenas uma das grandes descobertas da série. Por outro lado o traço frágil de Sfar é enganador: há um poder indesmentível, que marca, quer narrativas mais meditativas, quer diatribes iradas (tanto quanto isso é possível neste autor) contra a intolerância. Desse ponto de vista os dois livros incluídos neste volume são ideais, por darem perspetivas muito distintas da abordagem que Sfar dá a esta série extremamente pessoal. Este é um livro que não se descreve, lê-se. À confiança.

Outros dois livros recomendam-se a quem aprecia BD de aventuras inteligente, particularmente "westerns" como Blueberry de Charlier e Giraud, ou a Antiguidade Clássica retratada em Alix, de Jacques Martin. Bouncer de Jorodowsky e Boucq é um "western" atípico que partilha algumas preocupações de Blueberry, desde logo o retrato não-tipificado dos não-brancos, e a recusa em definir "bem" e "mal" desenquadrados de um contexto, substituindo essa classificação básica por um acumular de posições opostas, ao estilo ying/yang. Claro que, sendo escrito por Alejandro Jororowsky, há elementos de fantástico misturados com mutilações e telenovela de faca e alguidar. Claro que, sendo desenhado por François Boucq, há um gosto constante na representação exagerada do grotesco. Os dois álbuns incluídos neste volume (A Viúva Negra/Coração dividido) formam uma história completa eficaz, bem construída e fácil de aceder a quem não conhece a série. Talvez novos leitores fiquem muito surpreendidos com as soluções narrativas encontradas, o mesmo já não poderá dizer um leitor assíduo, cuja atenção se concentrará no modo com os autores conseguem ser, se não inovadores, pelo menos eficazes na fórmula que criaram para Bouncer.

Murena de Dufaux e Delaby tem afinidades claras com séries televisivas como I, Claudius e Rome, abordando as primeiras décadas do  Império Romano (aqui no reinado de Nero) com um misto de documentário, ficção histórica, intriga política, voyeurismo e (mais uma vez) telenovela. Os mesmos ingredientes, por exemplo, das recentes séries Spartacus, embora estas tendam mais para telenovelas puras, com alguns elementos político-sociais a funcionar como pausas entre sexo e violência. Murena é bastante mais inteligente e tem um desenho clássico realista "bonito", que cria um bom contraste com a concupiscência das personagens. Os dois álbuns reunidos aqui (O sangue das feras/Vida dos fogos) dão uma excelente panorâmica de uma série que trabalha muito bem as ambiguidades que animam as várias personagens, e que não se costuma contentar com respostas simples e mensagens óbvias.

Se até agora todas as obras referidas valiam por si mesmas, passamos agora a uma categoria um pouco mais complexa: álbuns que só são válidos num quadro referencial muito estreito.

A armadilha maquiavélica de Pierre Veys e Nicolas Barral é uma paródia humorística ligeira à série Blake & Mortimer de Edgar Pierre Jacobs. Como todas as obras que se baseiam em referências, só fará (algum) sentido a leitores para quem o original seja incontornável, e que, em simultâneo apreciem paródias.  Não que se trate de uma obra incompetente, mas também não é especialmente competente (ou engraçada).

Embora caiba na mesma categoria Nas Origens do Z (de Morvan, Yann e Munuera) é um pouco distinto, e não só por não se tratar de uma paródia. Aventura da série Spirou & Fantásio esta história é uma homenagem nostálgica a alguns dos melhores episódios, os realizados por André Franquin. Embora o ponto de partida seja demasiado ambicioso para um só álbum, e a história não consiga ser contada sem alguns atalhos, a ideia é interessante, lembrando um pouco aventuras de superheróis em universos alternativos.

Só que, tal como acontece com A armadilha maquiavélica, Nas Origens do Z apenas fará sentido para quem conheça a fundo os álbuns de Franquin, e seja capaz de descodificar todas as citações gráficas e narrativas, já que o que sobra desse exercício é curto. E é quase inevitável que esses leitores concluam que as aventuras originais eram muito superiores. Não estarão equivocados. Por outras palavras: apesar de serem razoavelmente construídos (um mais do que o outro) dificilmente estes dois álbuns recrutarão novos leitores, e é duvidoso que interessem sequer a todos os apreciadores de Blake & Mortimer e Spirou & Fantásio.

Para terminar um livro do qual gostaria mesmo de poder dizer alguma coisa positiva. Sinceramente. É de um autor português, e adapta uma obra de Emilio Salgari, autor de  Sandokan, leitura de juventude que não ouso reler para não correr o risco de desilusão. Mas a única coisa que poderia fazer neste caso era não dizer nada, e isso também não seria muito honesto. Os piratas do deserto de Santos Costa é uma história de aventuras unidimensional extremamente datada e com todos os clichés imagináveis em termos de caracterização de personagens e desenrolar da narrativa. Não se trata de ser politicamente correto ou denunciar uma visão claramente colonialista (e sexista, e classista, e xenófoba, e...). É até bem provável que muitos dos defeitos da BD estejam na obra original, e que alguns interessados formados neste tipo de leituras nem se apercebam, eventualmente fascinados com um retorno nostálgico a histórias onde era tudo a preto e branco, os "maus" eram os "outros",  os "bons" sempre "nós".

Mas isso não serve de desculpa, nem torna a história mais eficaz, menos insultuosa, ou, em resumo, passível de ser apreciada, a qualquer nível. Começa devagar, termina abruptamente, não tem um desenho que a resgate (mas nem Moebius ou Manara seriam capazes disso). Muitas décadas após (por exemplo) Hugo Pratt é confrangedor ver um livro de 2012 a tratar o mesmo tipo de tipo de temas de modo tão retrógrado e maniqueísta, sem parecer dar-se conta. A coisa mais positiva que se pode dizer é que a realização tem competência que baste para evitar que Os piratas do deserto se torne ironicamente relevante graças ao milagre do "kitsch". Não é um elogio. Este é um livro cuja edição verdadeiramente não se entende. 

Mas três em seis (ou, se a exigência for um pouco menor, cinco em seis) não é nada mau. E o trabalho crucial da ASA em banda desenhada continua a ser extremamente relevante, tentando chegar a vários públicos como diferentes tipos de propostas. Que todas elas possam encontrar os seus leitores, apesar de tudo.